Capítulo 14 — Aquela que envia presentes — Pandora(Πανδώρα)
Capítulo 14 — Aquela que envia presentes — Pandora(Πανδώρα)
Olimpo, a Saga dos Deuses
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| Pandora(Πανδώρα). Por Emmanuel Mourão. |
— Os homens!... Os homens!... Sempre os homens! — esbravejou Zeus(Ζεύς), diante de seis duendes irritados. — O que foi agora? Falem!
Os duendes(Καλλικάντζαροι) começaram a falar, todos ao mesmo tempo.
— Assim não! Um de cada vez!
Calaram-se todos e já íam recomeçando juntos, novamente. Mas Zeus calou-se com um gesto.
— Você! — apontou para um deles, o mais velho. — Fale você. O que foi que aconteceu?
O velhinho empertigou-se todo:
— Eles agora não querem mais morar em grutas. Resolveram construir abrigos de madeira e estão derrubando todas as árvores. E depois cortam o capim comprido onde moram as pequenas fadas, deixam-no secar até morrer e cobrem suas habitações com ele. E, ainda por cima, arrancam toda a vegetação em volta de suas casas e deixam imensas áreas totalmente devastadas.
Zeus escutou pacientemente suas reclamações.
— Muito bem, muito bem! Estou sabendo disto tudo e vamos tentar resolver o problema. Não fiquem preocupados e confiem em nós.
Os duendes sorriram, satisfeitos.
— Confiamos nos deuses! — exclamou um deles. — Sabemos que os deuses não deixarão que os homens continuem a acabar com a vegetação.
— E a destruir as fadas! — acrescentou o outro.
— E a caçar animais sem necessidade! — gritou mais um, lá de trás.
E logo estavam todos protestando ao mesmo tempo, novamente. Zeus estendeu os braços, acalmando-os.
— Vamos fazer o possível. Estejam certos de que logo tudo estará resolvido.
Os duendes retiraram-se, em meio a grande algazarra. Zeus os viu afastarem-se e ainda ficou algum tempo com os olhos parados na passagem por onde haviam desaparecido. Hera(Ἥρα) chegou e tocou em seu ombro. Voltou-se lentamente.
— Isto está se tornando um problema sério. Os homens já foram avisados, como instruí, quanto aos danos que estão causando a natureza?
Hera sacudiu a cabeça afirmativamente.
— Hermes(Ἑρμής) os avisou. Eu mesma pedi que falasse com todos os homens e dissesse que estavam provocando a ira dos deuses.
— E não deram ouvidos? Absurdo! — exclamou Zeus, visivelmente contrariado.
Calou-se. Hera, pacientemente, esperava que a cólera do senhor do Olimpo se abrandasse.
— Não vejo outra solução... — falou Zeus baixinho, como se falasse consigo mesmo.
— Os homens têm que ser destruídos. — Os homens são imortais! — interrompeu-o Hera.
— Sim, imortais e andróginos! — urrou o deus. — E multiplicam-se como formigas! Como poderei destruí-los?
Hera não respondeu, pois não via também uma solução apropriada para o caso.
Mas Hélios(Ἥλιος), que naquele momento brilhava no meio do céu, desceu por um raio dourado e surgiu em frente a Zeus, espalhando gotas de luz.
— Zeus, — disse ele — não pude deixar de ouvir tudo. Talvez possa auxiliá-lo.
O senhor do Olimpo olhou-o, cheio de interesse.
— Fale, Hélios, qualquer solução é muito bem-vinda.
— Escutei uma vez uma conversa entre Prometeus(Προμηθεύς) e Epimeteus(Ἐπιμηθεύς), seu irmão. Foi no dia em que Prometeus foi condenado a ir para o rochedo. Quando se despediu do irmão, entregou-lhe uma caixa toda trabalhada, dizendo: "Epimeteus, meu irmão, guarde esta caixa com você e não a abra, jamais. Nela estão guardados todos os males que poderiam afligir e destruir os homens. Não deixe também que os deuses descubram que lhe dei esta caixa e nunca receba deles nenhum presente, pois com sua magia poderão saber da existência da caixa e, com certeza, tentarão abri-la de qualquer maneira. Você é muito inocente e crédulo, poderá cair facilmente em alguma armadilha."
O rosto de Zeus se iluminou.
— E por que não disse isto antes, Hélios?
O deus de fogo sacudiu os ombros, displicentemente.
— Não sabia que queria esta informação.
— Uma caixa cheia de males... — disse Zeus, pensativo. — Muito interessante... Obrigado, Hélios, por ter me contado isto. Muito obrigado!...
Hélios voltou, apressado, à sua carruagem que deixara parada, no meio do céu e Zeus, pensativo, mergulhou no silêncio. Hera aproximou-se, curiosa.
— O que pretende fazer, Zeus?
Ele fez um gesto brusco.
— Espere! Estou pensando...
E, de repente, exclamou:
— Já sei! Hera, diga a Hermes que traga Hefesto(Ἥφαιστος) imediatamente a minha presença!
Hera ia perguntar alguma coisa, mas Zeus calou-a com outro gesto.
— Rápido, mulher! Não temos tempo a perder ou os homens acabarão por destruir até mesmo o próprio Olimpo!
E, pouco depois, Hefesto chegou, acompanhado por Hermes.
— Hefesto — começou Zeus, sem nenhum preâmbulo — preciso de um favor seu. Quero que faça para mim, com seu talento maravilhoso, um ser feminino, perfeito. Deve se parecer com a mais linda das deusas em todos os detalhes de seu corpo. Trabalhe dia e noite e entregue-me esta criatura o mais breve possível!
Hefesto sorriu, satisfeito.
— Será uma honra para mim trabalhar para o senhor do Olimpo. Sua encomenda estará pronta antes que Selene volte a surgir totalmente redonda do céu.
Daquele dia em diante, Zeus passou a contemplar o céu, todas as noites. Viu Selene afinar até desaparecer por completo. Pacientemente, esperou que o risco fino e encurvado voltasse a surgir no céu. E viu o traço da lua tornar-se mais largo, até transformar-se numa circunferência quase perfeita. Então reuniu os deuses.
— No dia em que a lua estiver totalmente redonda no céu, vamos todos nos reunir, em Ritual. Estão avisados e não faltem. Façam antes suas purificações, meditações e jejum, para que aqui cheguem preparados para emitirem sua energia e Vontade.
E, no dia em que Selene surgiu no céu como um disco prateado, Hefesto chegou com uma mulher feita de barro. Atrás dele, vinham todos os deuses, calados e concentrados. Zeus admirou-se ante a perfeição do trabalho de Hefesto.
— Perfeita! — exclamou. — Delicada e linda como uma deusa.
E, voltando-se para os deuses:
— Vamos todos ao Santuário dos Santuários. Lá convocaremos as forças do Universo para que transformem esta criatura em um ser vivente.
E, pouco depois, o luar revelava as negras silhuetas dos deuses que, lentamente, subiam ao topo do Olimpo, através da estrada estreita e prateada. Nos braços de um deles desenhava-se uma figura de mulher, rígida e inerte, que oscilava, acompanhando com movimentos compassados, o andar cambaleante do deus que a transportava.
...
A mulher de barro jazia sobre o altar central. Os deuses, reunidos em círculo ao seu redor, ajustavam mentalmente a intensidade de suas vibrações num acorde uníssono. Uma energia poderosa começou a impregnar o local. E, no momento certo, Zeus aproximou-se do altar e estendeu as mãos sobre a criatura de barro.
— Ó Grande Espírito, que comanda os mundos visíveis e invisíveis, que engendrou a luz e as trevas, eu convoco sua força criadora. Faça de mim um veículo de sua energia e que seja eu capaz de insuflar a vida nesta criatura. Que seja ela um ser vivente, um corpo capaz de abrigar um espírito divino.
E deixou verter sobre a criatura o sangue rubro de um touro sacrificado. O sangue escorreu pela mulher e foi logo absorvido pelo barro. Suas feições foram se tornando mais suaves e o barro tomou uma cor rosada.
— Receba o sangue vívido que a tornará um ser vivente. Que o barro se transforme ao contato com o sangue do sacrifício, que se torne carne, fibras, músculos, ossos, nervos, entranhas e órgãos.
A criatura de barro desapareceu totalmente e deu lugar a um corpo humano feminino, perfeito e belíssimo.
Hélios aproximou-se, trazendo nas mãos um vaso dourado, cheio do fogo sagrado, e despejou-o sobre a moça. Esperou que a energia ígnea escorresse pelos canais sutis de seu organismo e se dividisse em duas partes, indo uma para o coração e outra para a base da coluna. Em seguida curvou-se, chegou seus lábios aos lábios da jovem ainda inerte e falou:
— Eu lhe insuflo o sopro divino.
Uniu seus lábios aos dela e soprou. No mesmo instante, ela deu um suspiro profundo e abriu os olhos.
Os deuses continuavam concentrados. A vibração do momento continuava intensa, fazendo ver que o ritual ainda não terminara.
Zeus, então, voltou-se para os deuses e disse:
— Aproximem-se, um de cada vez, e transmitam a esta mulher todos os atributos que deve possuir para que seja bela e fascinante aos olhos de qualquer um que dela se aproximar.
Ártemis(Ἄρτεμις) deu um passo à frente e estendeu a mão direita sobre a moça.
— Que seja para sempre a depositária da graça e da leveza.
Voltou para seu lugar, sendo substituída por Athena(Ἀθάνα).
— Eu lhe confiro a inteligência e o dom da arte da tecelagem.
Cobriu-a com sua manta e ofereceu-lhe o próprio cinto adornado de pedrarias.
Afrodite(Αφροδίτη) se aproximou.
— Eu lhe ofereço a beleza e. mais que a beleza, o desejo que atormenta os sentidos.
Um a um, os deuses foram se aproximando e dotando a jovem com todos os dons. E, por último, chegou Hermes(Ἑρμής). Aproximou-se dela com um sorriso matreiro nos lábios. Estendeu a mão direita e falou:
— Eu encho o seu coração com a mentira, com a astúcia, com as artimanhas, com o fingimento e com o cinismo.
Por fim, Zeus tomou-a pela mão e fez com que se levantasse.
— Erga-se e ingresse no mundo dos deuses. Seu nome é Pandora(Πανδώρα).
Pandora levantou-se e colocou-se no círculo, entre os deuses. A vibração continuava cada vez mais intensa. O ritual ainda não terminara.
De frente para o altar, Zeus abriu os braços em cruz.
— Neste momento e com o poder de que estou investido, faço adormecer em sono profundo todos os seres humanos, geração de Prometeus.
Prometeus, atado à pedra, ouviu o chamado de seu nome. Abriu os olhos e viu os homens caírem ao solo, profundamente adormecidos. Sua divina intuição lhe disse que algo os ameaçava. Tornou a fechar os olhos e procurou relaxar. Em sua tela mental foi surgindo a silhueta dos deuses, reunidos no ritual. Respirou fundo e, mentalmente, foi separando seu corpo espiritual do físico, dolorido, sofrido, amarrado à pedra escarpada. Leve, flutuou no espaço e, rapidamente, dirigiu-se a Santuário dos Santuários. Ficou parado, no alto, procurando compreender o significado da cerimônia. Zeus continuava a falar, mergulhado em meio a uma energia dourada.
— Deste momento em diante, divido os seres humanos em duas partes. Numa delas, torno inibido o aspecto masculino e, na outra, o aspecto feminino. Ao despertarem não serão mais andróginos, mas serão machos ou fêmeas.
Com um gesto, chamou Pandora e colocou a mão sobre sua cabeça. Continuou:
— Às fêmeas, transmito todos os dons que lhe foram legados, Pandora.
Fechou os olhos, por instantes, em concentração. Depois voltou a abrir os braços em cruz.
— E aos homens e às mulheres determino que jamais voltem a encontrar seu oposto complementar, dentro de si. Deste momento em diante estão os seres humanos condenados a só procurarem o oposto que os complementará fora de si.
Neste instante, o espírito de Prometeu flutuou no ar e pousou, muito leve, em frente a Zeus.
— Por favor, Zeus, eu lhe suplico! Não condene os seres humanso a tão duro sofrimento. Eles não têm culpa de serem como são. O erro foi meu, que os criei cheios de imperfeições e já estou sendo punido por isto. Ao criá-los, pretendi que evoluíssem em inteligência e espírito, até transformarem-se em deuses. Por favor, Zeus, dê a eles ao menos uma chance.
Zeus olhou a figura etérea à sua frente e teve pena da tristeza que viu estampada em seu rosto.
— Está bem, — disse por fim — não mudarei o que já foi feito, mas determino que somente o ser humano que for capaz de encontrar seu oposto complementar dentro de si mesmo, terá a oportunidade de evoluir até transformar-se em um deus. E assim deixo gravada a minha Vontade.
A imagem fluídica de Prometeu sumiu por completo, a vibração do local foi se tornado mais suave. O ritual terminara.
No céu, Selene já procurava a linha do horizonte para recolher seu carro de prata e Hélio partiu, apressado, pois os dedos rosados de Aurora já tinham aberto as cortinas da noite para deixar sair sua carruagem de fogo.
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| Pandora(Πανδώρα) liberta os males sobre a humanidade. Por Emmanuel Mourão. |


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