Capítulo 1 — O Rei dos Titãs — Chronos (Χρόνος)
Olimpo, a Saga dos Deuses
Chronos (Χρόνος). Por Emmanuel Mourão
Gaia (Γαῖα) contemplou, inebriada, as constantes alterações que sofria em seu mundo físico. A matéria primeira explodira em milhares de glóbulos que se espalharam pelo universo, aglomerando-se em torno de centros ígneos, onde Hélio (Ἥλιος) se projetava, incansável. Alguns desses glóbulos eram tão tórridos que nem mesmo Oceano (Ὠκεανός) conseguia umedecê-los. Outros, porém, mais amenos, aceitavam a dádiva líquida que se espalhava pela Terra.
O universo, antes vazio, acolhia agora em suas dobras as células físicas de Gaia, a mãe, a mulher. E ela, perdida em profunda contemplação, meditava ante toda aquela vastidão.
— Sei que sou jovem, mas sinto-me tão velha… Ante esta imensidão sou pequena; no entanto, sou enorme e existo em todos os recantos do universo. Sou mãe dos céus e das águas, do fogo e da memória, mas tenho também um organismo físico que ainda não foi fecundado. Sou mãe e sou virgem, sou mulher e sou criança, e vago pelo espaço, pelas células do meu corpo, sem saber, contudo, para onde vou nem de onde vim. Quem sou?… Sou Gaia, sou mãe, sou virgem, sou mulher, sou criança… sou Terra!
Sobressaltou-se ao pressentir a chegada de Urano (Οὐρανός). Sua presença sempre a perturbava. Havia algo nele que a oprimia e prejudicava sua livre expansão. Não compreendia seus anseios de mulher, nem aceitava seus cuidados de mãe.
— Então, Gaia — chamou Urano, com sua voz alta e sonora. — Novamente contemplando a sua criação? Não fique tão orgulhosa de seu organismo físico, nem das prendas de seus filhos etéreos. Antes disso, deveria estar prostrada em eterna adoração a mim, seu esposo, que ocupo os mais sutis espaços do universo.
Gaia sorriu com tristeza.
— Meu senhor, sou sua esposa e o amo. Mas também sou mãe. Tenho filhos nossos a zelar, e sinto que meu organismo físico anseia por gerar. Sinto que ainda terei imensa prole para cuidar e amar.
Urano explodiu em descargas de energia.
— Nunca! Que filhos pensa em ter em tão rígida forma, em tão grosseira matéria? Povoar o mundo físico com o quê? Jamais! Somente os espaços podem ter vida, e somente a vida sutil deve ocupar a imensidão. Veja os filhos que já tivemos! São luzes, são calor e frio; têm seu lugar em todo o universo, e não somente num pobre e ínfimo organismo físico. Olhe para o alto, mulher! Olhe para mim, e não se perca contemplando a inutilidade que é o organismo com que preenche o mundo físico.
Gaia entristeceu-se. Como falar da necessidade que tinham suas entranhas de gerar vida naqueles mundos que se afastavam cada vez mais em redor de seus sóis, rumo a um futuro que ainda não havia começado a acontecer? Coisas de mulher… tristezas que o homem ainda não conhecia, nem mesmo o seu homem — o firmamento sem fim que envolvia todo o seu ser.
Urano aproximou-se mais.
— Vamos, minha querida, não se entristeça. Não deixe que preocupações inúteis escureçam seu rosto. Venha…
Envolveu-a em seus braços etéreos e amou-a. Gaia entregou-se, passiva, mergulhada em tristeza. E novamente concebeu.
Dessa união nasceram os Cíclopes (Κύκλωπες), que ela chamou de Arges (Ἄργης), Estéropes (Στερόπης) e Brontes (Βρόντης). Tornaram-se a luz do relâmpago, as pesadas nuvens de tempestade e o rugir do trovão. Criaturas grotescas, lançavam sobre o mundo um olhar penetrante, emanado de um único olho no centro da testa.
Urano sentiu-se ameaçado por esses novos filhos, nascidos da tristeza de Gaia. Percebeu que, de alguma forma que ainda desconhecia, poderiam auxiliá-la a fecundar seu organismo físico. E algo em seu íntimo lhe dizia que, se isso acontecesse, ela se afastaria ainda mais dele.
Tentou nova aproximação, mas foi rejeitado. Vagou pelos espaços, observando-a de longe, vendo-a contemplar, agora com alegria, o desenvolvimento dos mundos físicos.
Chegou-se novamente e atraiu-a para si. Gaia tentou se esquivar, mas o abraço de Urano não a deixou mais fugir.
— Por favor, meu esposo, não me queira sempre em seus braços, pois não fui feita para os céus. Sou Terra; preciso sentir a vida física correr em minhas entranhas!
Urano não conseguia compreender os lamentos de Gaia. Queria içá-la ao seu mundo etéreo, mas ela já pertencia ao mundo físico. E mais uma vez, Gaia concebeu, em meio à revolta.
Nasceram os Hecatônquiros (Ἑκατόγχειρες) — monstros de cem braços — imensos e violentos, e se chamaram Cotos (Κόττος), Briareu (Βριάρεως) e Giges (Γύγης). Eram terríveis e temíveis. Faziam o mundo estremecer ao lançar rochas gigantescas como brinquedos de criança.
Urano, temeroso da força colossal desses filhos mais novos, prendeu-os para sempre nas profundezas da Terra, do mundo físico. Gaia, mãe, entristecida por ver seus caçulas encarcerados em seu próprio organismo físico, sem poderem ver ao menos a claridade do dia, suplicou:
— Por favor, Urano, compadeça-se de nossos filhos! Deixe que participem da vida, da luz, da natureza! Solte-os, eu lhe suplico!
Mas Urano, implacável, esbravejou:
— Como posso compreendê-la, mulher? Deixo que seus filhos fiquem para sempre no seio do seu corpo e você não quer que seja assim? Não sente a necessidade da vida em suas entranhas físicas? Não foi isso o que disse? Pois agora terá essa vida que tanto anseia, para sempre, agitando-se em seu ventre!
Gaia fugiu, chorando, e buscou auxílio entre seus filhos mais velhos. Chamou um por um, mas nenhum quis auxiliá-la, temendo a ira paterna.
Já ia desistindo, quando viu Chronos (Χρόνος), que a observava em fixamente em silêncio.
— Estarei sempre ao seu lado, mãe. O que deseja que eu faça?
O pranto desapareceu dos olhos de Gaia e ela se aproximou do filho lentamente.
— Está mesmo disposto a me auxiliar, mesmo que, com isso, fique contra seu próprio pai?
Chronos apenas sorriu. Nem precisou dizer nada, pois através daquele sorriso deixou filtrar todo o ódio que nutria por Urano, ódio que nascera e crescera ao testemunhar, pela primeira vez, o desespero da mãe. E recebeu das mãos de Gaia uma foice extremamente afiada.
Naquela noite, foi Gaia quem chamou o marido ao leito. Surpreso, Urano cobriu-a com seu corpo diáfano e preparou-se para amá-la. Nem viu quando Chronos chegou e, com um único golpe de foice, decepou-lhe os testículos, lançando-os ao mar.
O sangue da ferida caiu sobre Gaia, Terra e Mãe, os relâmpagos riscaram os céus, os trovões ecoaram nos quatro cantos do universo, e as pesadas nuvens de chuva verteram um pranto pesado e sentido. E Gaia concebeu novamente.
Viu, maravilhada, seu organismo físico também conceber e encher-se de vida e de verde, de plantas, de frutos, da alegria de existir. E dela, mãe, engendrados pela violência daquele ato, nasceram também fertilizados pelo sangue de Urano os Gigantes (Γίγαντες), as Erínias (Ἐρινύες) e as Melíades (Μελιάδες).
Os Gigantes surgiram brandindo aos céus e as mão imensas, emitindo urros que se confundiam com os trovões. Através da farta e espessa cabeleira que, misturada a barba cerrada, cobria-lhes quase que totalmente o rosto, o brilho dos pequenos olhos filtrava-se e detinha-se, ora em Gaia, ora em Chronos. Os seus corpos horrendos terminavam em serpentes, que logo se lançaram, céleres, em direção ao mundo físico, fazendo com que aqueles seres imensos desaparecessem em meio às florestas recém-formadas.
Gaia, com sua sensibilidade de mãe, percebeu que eram mortais. Com piedade, semeou uma erva mágica, capaz de curá-los quando se ferissem, pois sabia que eram mortais. E quedou-se, pensativa, vendo os gigantes arrancarem as árvores, em meio a grande ruído, e lançá-las aos céus, como se pretendessem agredir a todos os deuses.
As Erínias nasceram violentas e furiosas. Eram forças primitivas, que nem aos deuses obedecem, ergueram-se. Guardiãs das leis primitivas da natureza, seguiram para os céus em suas imensas asas, as longas cabeleiras entremeadas de serpentes agitando-se em torno dos seus corpos monstruosos.
As Melíades logo se esconderam atrás dos enormes freixos, eternas defensoras das grandes árvores de qualquer possível ataque. Gaia pressentiu que seriam para sempre adversárias dos gigantes, uma vez que eles só apreciavam a destruição.
Surpreso, Chronos que observava tudo em silêncio, observou o nascimento desses últimos filhos de Gaia e do sangue de seu próprio pai. Logo, depois, abraçou a mãe e disse:
— Mãe, reinarei agora sobre todo este universo, e minha vontade será a vontade dos deuses.
Gaia, ainda atordoada, olhou a sua volta e procurou Urano, mas não mais o encontrou pois seu corpo etéreo já havia se dissolvido e se misturado ao azul do firmamento. A intuição lhe disse que, de longe, ele estaria para sempre acompanhando os seus passos, os passos de seus filhos e de todos aqueles que ainda estavam por vir.
Entre o céu e a Terra, formaram-se camadas de ar que circulavam livremente, dançando no éter. Subitamente, o mar agitou-se. No local onde mergulharam os testículos de Urano, formava-se uma espuma espessa, que começou a girar sem cessar. O ar parou, tudo silenciou. As águas tornaram-se lisas como um imenso espelho. Tudo parou. Somente a espuma girava, girava sem cessar.
E então, em meio a toda aquela espuma, nascida do esperma do deus vencido, surgiu uma jovem de beleza incomparável. A brisa voltou a correr e beijou seu corpo nu, de uma clareza diáfana que brilhava como coberto por milhares de minúsculas estrelas. Seus longos cabelos dourados agitavam-se leves ao redor de seus ombros. Ela sorriu e estendeu os braços para o alto, procurando o infinito. Uma brisa ergueu-a aos céus, enquanto a voz distante de Urano ecoava:
— Esta é Afrodite (Αφροδίτη), a filha da minha dor. É o pranto convertido em luz, é o sofrimento transformado em amor. É a deusa do amor.— A brisa tornou-se mais agitada e um sopro forte elevou a deusa aos céus, num turbilhão
.
Gaia permaneceu imóvel, contemplando o infinito. Com os olhos presos no ponto onde Afrodite desaparecera, não percebia mais nada à sua volta. O rosto imóvel extasiada contemplava o infinito. Depois virou a cabeça e voltou-se para Chronos.
— Filho meu, posso ver agora o que está por vir. Escute sua mãe. Seu reinado um dia terá fim. Tempos virão em que será destronado por um de seus filhos, que reinará sobre céus e terra, do alto de um monte oculto nas brumas do amanhecer.
Chronos estremeceu ante aquela profecia. segurou a mãe entre os ombros e sacudiu-a.
— O que está dizendo? Como posso ser vencido por meu próprio sangue? Que filho? Mãe, diga mais alguma coisa para que eu saiba que filho será o meu próprio traidor!
Gaia, atordoada, mal saindo do transe em que se encontrava, olhou para o filho surpresa, mas não soube o que responder.
— Não sei.. Não posso lhe dizer mais nada. Minha visão interna mostrou-me apenas o que lhe falei. Nada mais…
Chronos largou-a, afastou-se e quedou-se pensativo. Pouco depois e murmurou baixinho:
— Pois jamais terei filhos…
Mas suas palavras dissolveram-se na brisa e diluiram-se em meio aos respingos do mar.







Nenhum comentário:
Postar um comentário