Capitulo 12 — A deusa da Sabedoria e das Guerras — Athena(Ἀθάνα)

 

    

Capítulo 12 — A deusa da Sabedoria e das Guerras — Athena(Ἀθάνα)

Olimpo, a Saga dos Deuses  

Athena(Ἀθάνα). Por Emmanuel Mourão.



Athena(Ἀθάνα) era observava Zeus(Ζεύς), discretamente. Percebia que algo interno acontecera recentemente com o deus, algo que o deixara com uma expressão pensativa, os olhos iluminados e nos lábios um sorriso cheio de paz.  


E tudo começou no dia em que Méthis(μῆτις), sem que ninguém soubesse o porquê, abandonara seu corpo físico. Mas o que havia acontecido afinal? Zeus nada falava, mas Hera(Ἥρα) intuia que ele guardava algum segredo.

E Zeus, distraído, não reparava no olhar perscrutante da esposa. Mergulhado em suas recordações, procurava reviver mentalmente o último dia em que estivera junto com Méthis, sua primeira amante, aquela que, com ele, fizera a maravilhosa descoberta das sensações do amor físico.

Era uma manhã muito fria. Zeus entrou nos aposentos de Méthis e encontrou-a recostada na cabeceira do leito, enrolada em uma grossa manta. Sentou-se a seu lado e acariciou seus longos cabelos.  

— Méthis, meu amor, quase não a tenho visitado ultimamente. Sinto muita falta sua, mas ando tão ocupado, resolvendo tantos problemas... 

Ela sorriu palidamente. 

— Não se desculpe, meu senhor. Sei que enfrenta sérias dificuldades. Escuto dizer que os homens, criação de Prometeus, estão causando sérios danos no mundo de Gaia. 

— É verdade, — concordou Zeus, em meio a um suspiro profundo — eu sabia que não ia dar certo. Eles são irresponsáveis, não respeitam a vida nem a Criação. Os espíritos da natureza se sentem agredidos, a terra ferida, os animais são mortos sem necessidade. Os gigantes também eram grandes destruidores, porém já foram quase todos exterminados. Mas os homens são imortais e se multiplicam com uma incrível rapidez! 

Méthis ajeitou-se melhor e segurou a mão forte de Zeus. 

— Estou certa de que encontrará um meio de resolver este problema com sabedoria. 

— Tenho pensado muito, mas não quero me precipitar. Sei que não sou tão prudente com você, minha amada. 

Beijou-a carinhosamente. 

— Seus lábios estão tão frios quanto suas mãos. O que há, Méthis? Não se sente bem? 

Ela esboçou um sorriso triste. 

— Estou apenas um pouco preocupada. Nada de mais... 

— E não vai me contar o motivo de sua preocupação? Pretende esconder algo de mim?           

— Nunca, Zeus! — exclamou Méthis, mas sem muita veemência — Apenas não quero passar-lhe meus temores. 

Zeus segurou-lhe a ponta do queixo delicado e fez com que olhasse em seus olhos. 

— Vamos, agora diga-me o que a aflige. 

Méthis custou um pouco a responder, mas não desviou o olhar. 

— Vou ter um filho — falou, afinal. Ela sabia que aquela revelação iria abalar profundamente o supremo deus do Olimpo. Todos conheciam a profecia que Gaia(Γαῖα) fizera, logo que o amor dos dois tornou-se sabido pelos deuses. "Se um dia Méthis tiver uma filha sua, Zeus, em seguida terá um filho que irá destroná-lo". 

Na época, Zeus estremeceu ante aquelas palavras. Ser substituído? Jamais. Lembrou-se de como usurpara o poder de Chronos(Χρόνος), seu pai. 

— Não deixarei que um filho meu faça o mesmo comigo. Nunca! 

Mas logo esquecera-se da profecia, em meio a outro amores e a tantos filhos. Mas agora, ali estava a realidade a lembrar-lhe, novamente, as palavras de Gaia. 

Zeus levantou-se, nervoso, e começou a caminhar de um lado para outro, enquanto Méthis procurava adivinhar sues pensamentos, vasculhando-lhe o rosto com o olhar aflito. Quando percebeu a agonia da moça, Zeus procurou tranqüilizá-la. 

— Não fique assim, minha querida. Havemos de encontrar uma solução. 

— Não vejo outra senão afastar-me para sempre do Olimpo. Desta forma, não terei o segundo filho seu, aquele que irá destroná-lo. 

Zeus sentou-se novamente a seu lado e enlaçou-a com suavidade. 

— Como poderia viver longe de você, Méthis? Preciso de seus conselhos, de sua sabedoria e de sua prudência. Preciso de seu amor, de seu corpo e de seus carinhos. Mas, confesso, não posso deixar vir ao mundo aquele que me substituirá. E este filho que traz no ventre, se for uma mulher, sem dúvida dará início a este destino irreversível. 

Méthis encostou a cabeça no ombro forte do senhor do Olimpo. 

— Zeus, compreendo sua apreensão e estou pronta a cumprir aquilo que me determinar. Eu o amo muito e não quero prejudicá-lo. 

Zeus olhou-a nos ombros, procurando neles alguma solução. Um forte magnetismo brotou, envolveu-os e não deixou que seus olhos se desviassem um do outro. E foi o mesmo magnetismo que uniu seus lábios e fez com que seus corpos se juntassem com ardor. Desapareceram a preocupação, o frio, as mantas, as vestes, e só ficou o calor daquele contato. Pele na pele, a energia circulava pelos dois, como que seguindo caminhos em um único ser e fez surgir pequenas cintilações em volta de seus corpos nus. E um estranho torpor começou a tomar conta da mente de Méthis, amortecendo-lhe a consciência. Como num sonho, sentia o corpo estremecer de prazer e a alma esvair-se pelo plexo solar. Houve um momento em que quis gritar, mas Zeus calou-a com a pressão de sua boca. 

De repente, Méthis perdeu a consciência de si mesma e deixou-se tombar para trás, docemente. Zeus, no rito de um orgasmo intenso, segurou-a ainda contra si, os ventres colados, sentindo que junto com aquele êxtase, absorvia para si o espírito de Méthis. E, quando abriu os olhos, viu o corpo inerte da moça frouxo em seus braços, a cabeça caída e os cabelos espalhados sobre o leito. Mas, dentro de si, pulsava a alma de Méthis. Consigo e para sempre estava sua sabedoria, sua prudência e seu amor. 

Quando os deuses chegaram, encontraram apenas o corpo inanimado de Méthis. Surpresos, entreolharam-se. 

— Os deuses são imortais! Como pôde acontecer isto! 

Zeus respondeu tranqüilamente. 

— Méthis não morreu. Apenas resolveu abandonar o corpo físico para levar uma vida puramente astral. Foi a opção que achou melhor para si e que devemos respeitar. 

— E o que fará com seu corpo? — perguntou Hera. — Vai transformá-lo em constelação? 

— Não — respondeu Zeus, pensativo — Ardente como sempre foi, será entregue ao fogo e suas cinzas o vento levará e depositará nos quatro cantos do mundo. 

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Hera continuava com os olhos pregados no rosto de Zeus. Sem dúvida, algo acontecera ao senhor do Olimpo. Mas o que poderia ser? 

Zeus, perdido em suas recordações, nem via o olhar de Hera. Apenas procurava adaptar-se às recentes sensações que a existência astral de Méthis, em seu interior, provocavam. Era algo indescritível. Nos primeiros dias, podia senti-la perfeitamente distinta de sua própria consciência. Mas com o tempo houve uma fusão, como se a existência de Méthis tivesse se integrado totalmente ao seu ser interior. 

— Um dia descubro o que aconteceu — pensava Hera, cheia de curiosidade. — Ou talvez ele mesmo acabe por me contar. 

De repente, Zeus fez uma careta de dor e segurou a cabeça entre as mãos. Hera esqueceu-se de tudo e aproximou-se dele. Mas, antes que o tocasse, ele deu um grito e levantou-se, cambaleante. 

— O que houve, Zeus! — perguntou ela, aflita — Sente alguma dor? 

— Minha cabeça! — urrava ele — Minha cabeça! Que dor insuportável! Parece que vai explodir! 

E a dor piorava a cada instante. Nervosa, Hera não sabia como ajudá-lo, se é que cabia alguma ajuda, naquele momento. 

Zeus gritava e batia com a cabeça nas paredes de pedra, procurando inultimente um alívio. Até que, com uma pancada mais forte, sua cabeça rachou-se ao meio. Dela saiu uma jovem, incrivelmente vestida de guerreira e lançou aos ares um grito de guerra. 

Zeus caiu, desacordado. Hera encostou-se a um canto do aposento e, estupefata, viu a jovem realizar no quarto uma dança de guerra. 

Por magia dos deuses ou por capricho de um universo ainda em organização, havia momentos em que o futuro e o passado coexistiam a Athena, guerreira que era, foi imediatamente lançada num turbilhão e viu-se lutando ao lado de seu pai, na guerra dos Titãs(Τιτάν). Abateu o gigante Palas(Παλλάς) e esmagou um outro, Encélado(Ἐγκέλαδος), jogando sobre ele um imenso rochedo. Em seguida, arrastou o imenso corpo inerte até a Ilha da Sicília, onde o sepultou. E lá a terra tremia, cada vez que o gigante se movia no fundo de seu túmulo. Depois então Athena retomou sua dança bélica no quarto onde Zeus, desacordado no chão, nem sabia ainda do seu nascimento. 

A cabeça de Zeus foi se recompondo e, tão logo a jovem teminou sua dança, ele retomou a consciência e levantou-se com dificuldade. 

— Céus! — exclamou, olhando surpreso para a jovem guerreira — É a filha de Méthis! Desenvolveu-se em mim e nasceu das minhas meninges! 

Aproximou-se da moça e tocou-lhe a fronte. 

— Athena! Seu nome é Athena, minha filha muito amada! Será a deusa das guerras e protegerá as cidades. Mas cuidará também da fertilidade do solo e insuflará a inteligência e a razão em todos os que evocarem o seu nome. Olhará pelas artes, pela filosofia, e por todas as atividades do espírito. Filha querida, eu a protegerei sempre, sob o manto do amor. 

E houve momentos em que os deuses se exasperavam ante a complacência de Zeus para com Athena. 

— Como pode ele ceder a seus pedidos caprichoso? Para ela, nunca tem uma palavra ou gesto de censura. 

Mas Zeus apenas sorria e afagava a cabeça altiva da jovem guerreira. 

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O nascimento de Athena(Ἀθάνα). Por Emmanuel Mourão.

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