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sábado, 17 de janeiro de 2026

Capítulo 11 — O Arauto mensageiro dos deuses — Hermes(Ἑρμῆς)

Capítulo 11 — O Arauto mensageiro dos deuses — Hermes(Ἑρμῆς)

Olimpo, a Saga dos Deuses  

Hermes(Ἑρμῆς). Por Emmanuel Mourão,


Atlas(Ἄτλας), o gigante filho de Japeto(Ἰαπετός) e Climene(Κλυμένη), havia se unido a Pelione(Πήλιον), filha de Oceano(Ὠκεανὸς) e Tétis(Τηθύς). Dessa união nasceram as sete Plêiades(Πλειάδες): Taigeta(Ταϋγέτη), Electra(Ηλέκτρα), Alcione(Ἁλκυόνη), Astérope(Στερόπη), Cilene(Κελαινώ), Maia(Μαῖα) e Mérope(Μερόπη).

Lindas e alegres, logo promoveram a criação de coros de dança e festas noturnas. Sua graça e leveza foi logo percebida pelo terrível gigante caçador Órion(Ὠρίων), filho de Poseidon(Ποσειδῶν), que se pôs a persegui-las.

A princípio, as jovens não se importaram com a insistente presença do gigante, mas logo se assustaram, quando compreenderam que Órion havia se apaixonado por Mérope. 

Fugiam, assustadas, sempre que o caçador se aproxima, expressando seu desejo através de tenebrosos rugidos. A alegria das jovens Plêiades começou a murchar a sua música se transformou em gritos de susto. 

E foi assim que Zeus(Ζεύς) as encontrou. De longe, observou as jovens que se escondiam por trás de arvoredos cerrados, à passagem de Órion. Não quis interferir. Distraído, apenas contemplava a beleza das moças. 

E Maia tocou seu coração. Um amor terno alegrou sua alma e um desejo morno impregnou seus sentidos. Aproximou-se devagar,  ofereceu proteção e segurança às Plêiades assustadas. Comoveu Maia com seu amor, fascinou-a com seu desejo ardente e, num dia de lua cheia, amou-a sobre a relva úmida e prateada. 

Algum tempo depois, Maia tornou-se mãe. Hermes(Ἑρμῆς) nasceu na Arcádia, numa gruta úmida e profunda, que se abria nas encostas do monte Cilene(Κυλλήνη). Maia enrolou o menino em faixas e colocou-o no vão de um salgueiro, árvore sagrada, que tinha as raízes no mundo subterrâneo, a copa no reino divino e o tronco no mundo dos homens.  

Recém-nascido, Hermes mostrou logo ser uma criança precoce e astuta. Livrou-se das faixas que o enrolavam e saiu para um passeio nas montanhas. Locomovia-se com rapidez e, em pouco tempo, chegou à Tessália(Θεσσαλία)

Naquela época, Apolo(Ἀπόλλων) ainda estava por lá, purificando-se do sangue de Píton(Πύθων) e trabalhava pastoreando o rebanho do rei Admetos(Ἄδμητος)

Oculto atrás de uma árvore, viu Apolo juntando alguns bois. Aproveitou um momento de descuido do deus-pastor e roubou algumas cabeças de gado. Às suas caudas amarrou galhos folhudos de árvore, para que fossem apagando os próprios rastros, ao caminharem. Escondeu-se com o gado roubado numa caverna, em Pilos, e lá sacrificou duas novilhas. Num altar improvisado, empilhou as carnes dos animais abatidos e ateou-lhes fogo. 

— Deuses do Olimpo, forças da natureza, eu vos ofereço este sacrifício cruento. Que seja ele agradável a vós e que me traga forças para que me desenvolva rapidamente, que me torne adulto e possa trabalhar entre vós, deuses, como deus que sou também. 

Após o sacrifício, deixou o resto do rebanho oculto na caverna e saiu. Pouco adiante, encontrou uma grande tartaruga. Matou-a, separou as carnes do casco, limpou-o bem e voltou à caverna. Com as tripas das novilhas sacrificadas fez cordas e assim fabricou a primeira lira. E voltou, então, para o monte Cilene. Embrulhou-se nas faixas e deitou-se no vão do salgueiro. 

Apolo logo deu por falta de parte de seu gado e, usando a intuição que tinha aguçada, como dom divino, logo chegou a Hermes. A criança dormia tranqüilamente e Apolo queixou-se a Maia. Mas ela, que nada sabia sobre as aventuras do filho, protestou veementemente. 

— Como pode lançar tais acusações sobre uma criança que mal nasceu? Veja só como dorme, ainda toda enrolada em faixas! 

Tão serena era a expressão do menino e tão calorosos eram os protestos de Maia, que Apolo chegou a duvidar a própria intuição. Pensou: 

— Não é possível. Sei que não tenho como comprovar a veracidade de minha intuição e até sinto-me tentado a ignorá-la, ante tão clara evidência. Mas preciso acreditar em mim mesmo, nos dons divinos que possuo, ou acabarei por afastá-los de mim, por minha própria descrença. Vou seguir, portanto, os ditames de minha intuição, aconteça o que acontecer. 

Partiu e foi se queixar a Zeus. Depois de ouvir todo o relato de Apolo, o supremo deus do Olimpo resolveu conhecer este seu novo filho e dirigiu-se ao Monte Cilene. Com muita habilidade, interrogou a criança e acabou por arrancar-lhe a verdade. 

— Sim, fui eu — confessou o menino. — Mas que mal fiz eu em separar alguns exemplares de um rebanho tão grande? Quis oferecer um sacrifício os deuses. 

Zeus sorriu e afagou a cabeça do filho. 

— Está bem, compreendo sua intenção. Mas vai me prometer que jamais mentirá novamente e que dirá sempre a verdade. 

— Prometo — respondeu Hermes prontamente. — Jamais mentirei outra vez, mas também jamais direi a verdade totalmente. A verdade completa nunca pode ser revelada. Ela deve nascer no fundo do coração e calar-se antes que chegue aos lábios, pois poucos são aqueles que têm a capacidade de compreendê-la.

— Os deuses conhecem a verdade, Hermes — retrucou Zeus. 

— Os deuses só conhecem parte da verdade — respondeu o menino — aquela parte que diz respeito a cada um deles. Nem mesmo sei se o grande Espírito conhece a Verdade total. Ele é a Verdade. Mas terá plena consciência de todas as nuances que compõem a Verdade plena? Ou somente existe, portando toda esta Verdade e esperando que os deuses mergulhem em sua consciência e possam, então, absorver a Verdade, ou melhor, parte dela, a parte que lhes interessa saber, no momento? E é por isso que lhe digo, pai, a Verdade que os deuses possuem só interessa a eles mesmos. Portanto, jamais revelarei a minha verdade totalmente a ninguém. 

Zeus não respondeu. Apenas observou o filho, admirado com a inteligência sagaz que já demonstrava possuir. 

Enquanto Zeus e Hermes conversavam, Apolo admirava a lira fabricada pelo menino. Com os dedos habilidosos, fez soar suas cordas, arrancando sons melodiosos. Aproximou-se de Hermes. 

— Se estiver de acordo, Hermes, troco o rebanho que está com você por este instrumento mágico. Aceita?

Hermes sorriu, satisfeito, e aceitou imediatamente. Tempos depois, a habilidosa criança criou a flauta, que trocou com Apolo pelo cajado de ouro com que tocava o gado do rei Admeto. 

Hermes aperfeiçou-se na arte da adivinhação e, trabalhando sem cessar, aprendeu rapidamente o meio de se deslocar entre o céu, a terra e os infernos com rapidez e segurança. E então Zeus, que o observava, presenteou-o com sandálias de ouro e aladas, e transformou-se no mensageiro dos deuses. 

Maia, sua mãe, voltou a procurar as irmãs, que sofriam as perseguições cada vez mais ousadas e perigosas do caçador Órion. Já cansadas de tanto fugir, procuraram Zeus. 

— Doces Plêiades — disse ele — poderia simplesmente eliminar o caçador com um dos meus raios. Mas acho que a terra é um local muito rude para vocês, que são tão suaves como as luzes do céu.  

E transformou-as em uma linda constelação, que passou a enfeitar as noites agora mais estreladas. 

Órion, irado, lançou-se pelas florestas, arrancando árvores, chutando as pedras enormes que rolavam, arrancando a vegetação. Vendo isto, Artêmis, a irmã gêmea de Apolo, que protegia as plantas, ficou furiosa. Mais zangada ficou quando Órion tentou violentar uma da ninfas de seu cortejo. Artêmis, então, enviou contra ele um escorpião, que o picou no calcanhar, matando-o. Em agradecimento ao escorpião pelo grande serviço prestado, Artêmis transformou-o em constelação. 

Mais tarde, passeando pela floresta, Zeus encontrou o corpo inerte do gigante Órion, caído entre as ervas rasteiras. Parou e falou baixinho: 

— Suas maldades acabaram, Órion. Mas onde estará o seu espírito? Não gostaria que vagasse em mundos astrais grosseiros, impregnando-se cada vez mais de maldade e desejos de vingança. Vou lhe dar uma oportunidade. Pode ser que, ao ver seu corpo num local sutil e harmonioso, seu espírito também procure a regeneração. 

E plantou-o também no céu, entre as estrelas. 

                                                                                ...
    
Hermes(Ἑρμῆς). Por Emmanuel Mourão.



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