Capítulo 41 — O rei de Tebas — Laios(Λάϊος)
| Laios(Λάϊος). Por Emmanuel Mourão. |
Laios(Λάιος) chegou à corte de Pélops(Πέλοψ) assustado e arrasado com a invasão de Tebas pelos gêmeos Anfião(Ἀμφίων) e Zetos(Ζῆθος). A morte brutal de Licos(Λύκος) e Dirce(Δίρκη), a quem amava como se fossem seus pais, abrira um rombo em sua alma e seus sentimentos se colocaram todos à flor da pele.
Pélops se comoveu com a desdita do rapaz e aproximou-o de seus filhos, na tentativa de dar a ele uma nova família. Atreus(Ἀτρεύς) e Tiestes(Θυέστης), no entanto, eram agressivos e viviam envolvidos em constantes e tumultuadas brigas, o que consternava profundamente o rei Pélops.
— Temo que a maldição do cocheiro traga alguma desgraça a nossa família — dizia ele a Hipodâmia(Ιπποδάμεια). — Meus filhos estão sempre empenhados em estúpidas discussões e receio que um dia venham a se destruir mutuamente.
— Não pense assim, Pélops — retrucava ela, procurando dissolver a ruga de preocupação que vincava a testa do esposo — Atreus e Tiestes têm um gênio forte, mas Crísipo(Χρύσιππος) é calmo e educado. Este, com certeza, nos dará muitas alegrias.
Laios logo se tornou amigo de Crísipo e, juntos, passeavam pelos jardins do palácio, trocando confidências, divertindo-se com os jogos tão comuns nas cortes da Grécia.
Pélops e Hipodâmia, pouco a pouco, mostraram indisfarçada preferência pelos dois amigos, despertando o ciúme e o despeito na alma de Atreus e Tiestes.
— Sabe, Hipodâmia, meu coração agora está mais tranquilo. Laios é um rapaz ponderado e inteligente e chegou em boa hora, justamente quando Crísipo se encontrava tão deslocado em meio às brigas furiosas dos irmãos. Sei que posso deixar meu trono com Crísipo que, com os conselhos sábios de Laios , saberá reinar com dignidade. Não poderia morrer em paz, sabendo que a Élida ficaria nas mãos de dois desordeiros como Atreus e Tiestes.
— Não fale em morrer! — reprovou Hipodâmia. — Não acha que é muito jovem para se preocupar com a sucessão do trono?
— Minha querida esposa, aprendi que a morte espreita a cada passo que damos na estrada da vida, e não sabemos nunca quando ela irá dar o seu bote fatal.
Hipodâmia abraçou o marido com carinho.
— Você está certo. Sua preocupação tem fundamento. Mas agora tranquilize sua alma. Crísipo será um bom rei, corajoso e justo, e certamente contará com Laios como seu conselheiro.
A alegria voltou ao coração de Pélops e, nos anos que se seguiram, consolidou-se a amizade de Crísipo e Laios e a confiança que o rei depositava em ambos, mas também aumentou a discórdia entre Atreu e Tiestes e o despeito que nutriam pelo irmão.
...
Pélops acordou sobressalto. Passos furtivos ecoavam no corredor e risadas abafadas cascateavam com jeito de cumplicidade.
O rei se levantou e saiu do quarto. Seguiu pisando de leve, olhando em volta, procurando de onde vinham aqueles ruídos estranhos na noite quieta.
Logo achou Atreu e Tiestes que conversavam em surdina e espremiam as bocas com as mãos, segurando gargalhadas. Aproximou-se, curioso.
— O que fazem aqui a essas horas? Por que não estão dormindo?
Os rostos se contorceram em caretas tensas, contendo o riso iminente.
— Nada de mais, meu pai — conseguiu dizer Tiestes. — Apenas conversávamos sobre o futuro do nosso reino.
— Mas o que há de tão hilariante com o futuro da Élida?
Atreu respirou fundo para conseguir falar.
— Imaginávamos como seria o destino de um reino nas mãos de um rei frágil como uma moça.
Pélops o olhou com espanto.
— Não entendo o que diz, Atreu. Gostaria que se explicasse melhor.
Atreu fez uma reverência, com um ar maroto no rosto sorridente.
— Já que insiste, senhor meu pai, queira me seguir e veja com seus próprios olhos.
Houve uma época em sua vida em que Pélops se arrependeu de ter seguido Atreu e Tiestes. Talvez fosse melhor continuar na ilusão em que vivia. Mas ele foi atrás dos filhos. Deslizaram pelos corredores, silenciosamente, e pararam em frente ao quarto de Crísipo. Num movimento rápido e único, Tiestes abriu a porta. Pélops ficou lívido com uma vela. Sobre a cama, despidos e enlaçados, estavam Laio e Crísipo.
— Veja o futuro rei da Élida, meu pai! — exclamou Atreu, apontando para os dois num gesto dramático. E acrescentou, soltando uma risadinha sarcástica — Parece que prefere ficar de quatro na cama, que de pé em meio aos campos de batalha.
Crísipo se enrolou nas cobertas. Quis gritar, mas a voz não saiu. Laio continuou de costas para a porta, sem se atrever a olhar para trás.
Pélops se voltou e chamou os filhos.
— Vamos! Já vi o suficiente.
No dia seguinte, Crísipo se suicidou.
...
Do Olimpo, Hera e Dionísio a tudo assistiam.
— Ora, mas que idiota! — exclamou Dionísio — Matou-se por tão pouco!
Hera olhou para o jovem deus, indignada.
— Por tão pouco, Dionísio? Laio e Crísipo ofenderam o rei, cometeram um crime contra a natureza!
— E por quê? — insistiu Dionísio. — Por que condena o amor, Hera?
— Chama aquilo de amor?
Dionísio deu uma gargalhada.
— Ora essa, Hera! Não seja rígida em suas opiniões. Deixe que cada um ame quem bem entender. O amor deve ser livre, solto como um pássaro, e não preso em gaiolas de preconceitos.
Hera ficou vermelha de raiva e apontou para Laio.
— Pois eu amaldiçoo o filho de Labdaco e toda a sua descendência!
Dionísio sacudiu a cabeça, penalizado.
— Não faça isso, Hera. Como pode ficar em paz, sabendo que Laio irá carregar para todo o sempre o peso deste anátema?
Mas ela não respondeu. Deixou-o só, contemplando cheio de dó o rapaz que chorava a morte do amigo.
...
O encontro do corpo de Crísipo(Χρύσιππος) por Laios(Λάϊος). Por emmanuel Mouão.
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