Capítulo 17 — A paixão secreta de Pã — Daphnis (Δάφνις)

  

Capítulo 17 — A paixão secreta de Pã — Daphnis (Δάφνις)

Olimpo, a Saga dos Deuses 

Daphnis(Δάφνις). Por Emmanuel Mourão



— Aprendem as ciências, mas usam-nas para o mal! — esbravejou Zeus(Ζεύς) — E olhem a expressão grosseira de sua Arte! Será que os homens não possuem nem um pouco de sensibilidade? 

Afrodite(Αφροδίτη) aproximou-se, linda e terna. 

— Também não sabem amar — disse ela. — Unem-se como animais no cio.
 

E continuam com a sede de sangue! As guerras são cada vez mais frequentes! — exclamou Thêmis(Θέμις)

Calaram-se todos, à chegada de Hermes(Ἑρμής). Vinha cabisbaixo e triste. 

— Meu filho morreu — disse ele, num sopro de voz. — Caiu de cima de um rochedo. 

Os deuses fizeram silêncio ante a dor de Hermes. Todos sabiam do amor que dispensava a Daphnis(Δάφνις). 

Antes de Daphnis, fora pai de Pã(Πᾶν), gerado por uma jovem ninfa. Pã nasceu com pés e cauda de cabra. Da cabeça, em meio a uma cabeleira dura e espessa, apontavam dois cornos de carneiro. As orelhas pontudas e a barbicha davam a ele um aspecto selvagem. Gostava de assustar as pessoas e os animais, caminhando pela noite e provocando ruídos estranhos na mata. Mas sua música era divina. O som de sua flauta fazia dançar as Ninfas e acalmava os rebanhos. 

Houve uma vez em que Pã auxiliou o pai na luta sangrenta que travaram com o monstro Tifão(Τυφῶν). Tifão, filho de Gaia(Γαῖα) e Tártaro(Τάρταρος), era um ser meio homem, meio fera. Gigantesco, sua cabeça tocava as estrelas e, quando abria os braços horrendos, alcançava o Oriente e o Ocidente. Suas mãos, no lugar de dedos, possuíam cabeças de cem dragões. Tinha imensas asas, cuspia fogo pelos olhos e seu corpo era recoberto de víboras. 

Um dia, Tifão aproximou-se do Olimpo. Os deuses, horrorizados, foram se esconder no Egito, metamorfoseados em animais. Zeus(Ζεύς) e Athena(Ἀθάνα) foram os únicos que ficaram, prontos a enfrentar o monstro. Zeus lançou lhe seus raios e perseguiu-o com uma foice de sílex. Tifão correu, então, para os confins do Egito e lá enfrentou um combate com Zeus, que foi desarmado e ferido pela própria foice. Tifão cortou os tendões dos braços e das pernas do Senhor do Olimpo, colocou-o sobre os ombros e levou-o para a Gruta Corícia(Κωρύκιον ἄντρον), na Sicília. Escondeu os tendões numa pele de urso e confiou-os à guarda de Delfine(δελφίς), um dragão-fêmea. 

Sabendo de tudo isso, Hermes correu para salvar o pai. Chamou Pã que, com seus gritos de pânico, espantou Delfine. Conseguiram, então, recuperar os tendões e restauraram as forças de Zeus que recomeçou a luta, atirando sobre Tifão uma chuva de raios. 

O monstro, então, pediu abrigo às Moiras que, fingindo auxiliá-lo, ofereceram a ele uns frutos que tiraram todas as suas forças. Tifão fugiu para a Trácia, de onde passou a atirar as montanhas sobre Zeus. Do imenso corpo, ferido pelos raios, corriam rios de sangue. 

Tifão continuou sua fuga, sangrando pelos caminhos, até a Sicília, onde foi finalmente esmagado por Zeus, sob o monte Etna, que começou então a vomitar as chamas que vinham dos raios que Zeus havia cravado no corpo de Tifão.   

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Outra Ninfa deu a Hermes mais um filho, que nasceu à sombra dos loureiros. Por este motivo, recebeu o nome de Daphnis, em homenagem à ninfa Daphne.

Daphnis cresceu muito belo e amado. Seu irmão, Pã, ensinou-lhe a tocar sua flauta maravilhosa, com que divertia as Ninfas, enquanto cuidava de seu rebanho. Uma delas, Leuce(Λευκή), conquistou seu coração. 

— Vamos, jure, Daphnis, jure que me ama! 

O rapaz sorriu e acariciou seus cabelos louros. 

— Juro! Eu a amo muito, Leuce. 

Ela aconchegou-se entre seus braços com ternura. 

— Jure que jamais olhará para outra mulher — sussurrou ela. 

Ele permaneceu calado, com os olhos parados no rebanho que pastava. 

— Vamos, jure! — insistiu Leuce. 

— Juro! — afirmou Daphnis. 

Ela afastou-se um pouco e olhou-o nos olhos. 

— Pois se um dia quebrar seu juramento, eu o cegarei, tirarei para sempre sua visão, para que nunca mais possa olhar para outra mulher. 

Os pastos foram se tornando escassos e Daphnis precisou afastar-se com seu rebanho. E um dia avistou um castelo, que se escondia além da última das montanhas. Cansado, pediu hospedagem por uma noite. A própria filha do rei o recebeu e o levou aos aposentos de hóspedes. 

O rapaz se lavou e se arrumou para o jantar. Surpreso, viu-se sozinho com a princesa, na mesa enorme. 

— Meu pai está viajando — explicou ela. — Levará alguns meses fora.

Os criados serviram um vinho delicioso e inebriante. Com a vista turva, Daphnis viu a moça segurar sua mão, murmurando com paixão: 

— Fique comigo, pastor. Faça-me companhia. Sinto-me só neste castelo tão grande! 

Delicadamente, Daphnis retirou a mão e contou tudo sobre Leuce, seu único amor. Uma palidez mortal cobriu o rosto da moça. 

— Então seu coração já pertence a uma Ninfa? — perguntou, procurando aparentar indiferença. 

— Sim — disse ele, — e Leuce me aguarda. Deve estar mesmo bem preocupada com a minha demora. 

Depois do jantar, Daphnis pediu licença e retirou-se para seu quarto. A filha do rei, no entanto, trancou-se em seus aposentos reais e, nas trevas da noite que mal começava, invocou as entidades infernais. Misturou diversas plantas e com elas fez uma bebida escura e mal-cheirosa. A esta mistura acrescentou o aroma das flores, o sabor das frutas e a cor do sol. Despejou-a num cálice de metal e levou-a ao quarto onde Daphnis já dormia. 

Ele acordou, sobressaltado, ao toque suave da mão da moça sobre seu braço. 

— Perdoe-me se o desperto, mas a noite será muito fria e é preciso que tome esta bebida, que o aquecerá. 

Agradecido, Daphnis bebeu o elixir encantado. Mal acabou de sorver o último gole, um desejo forte de amar tomou conta de seus sentidos. A imagem de Leuce apagou-se de sua mente e nada mais restou, a não ser a sensação de intenso prazer que o corpo quente da moça transmitia.

Amou-a durante toda a noite e, quando o dia surgiu, adormeceu, exausto. Quando acordou, a cabeça doía, o corpo pesava. Levantou-se com um gemido, sem conseguir coordenar os pensamentos. Ao escutar ruídos em seu quarto, a princesa entrou, com outro cálice na mão. 

— Tome, meu amado. Isto o fará sentir-se muito bem. 

Ele obedeceu e logo uma alegria intensa invadiu-lhe a alma. 

— Como é bom estar aqui! — exclamou, aproximando-se da janela à procura de ar puro. 

Lá fora, viu seu rebanho pastando. 

— Que belos animais! São seus? — perguntou à moça. 

— São de meu pai — mentiu ela. 

— Engraçado — disse ele, apertando a cabeça com as mãos. — Não consigo me lembrar quem sou, nem de onde vim. 

— E isto faz diferença? — perguntou ela, atraindo-o novamente para si. 

Quando a noite chegou, ela veio com outra taça, mas Daphnis não quis tomar. Preocupada, insistiu. 

— Não me sinto muito bem. Tomarei mais tarde. Deixe-me sentir sede e então irei me deliciar com esta bebida que, com tanto carinho, preparou para mim. 

Deitaram-se e, no ardor da paixão, ele se esqueceu da bebida. 

Quando acordou, viu a princesa ainda adormecida a seu lado e, subitamente, a lembrança de Leuce voltou à sua mente. Pulou da cama, aflito. 

— O que foi, amor? — perguntou ela, sonolenta.

— Você me enganou! Com suas bebidas encantadas, fez com que me esquecesse da minha amada Ninfa! Preciso voltar com urgência! Já me demorei demais em seus braços ardilosos. 

E, apesar dos protestos da moça, juntou o rebanho e partiu. 

Mas Leuce, ao vê-lo chegar, logo pressentiu o que acontecera. Olhou-o nos olhos. 

— Você me traiu! — murmurou, raivosa. — Você me trocou pela primeira mulher que encontrou em suas caminhadas! 

Daphnis quis se justificar, mas não conseguiu afastar os olhos do olhar incandescente da ninfa. Sentiu a vista queimar-se e tudo começou a escurecer. Em minutos estava cego. 

Vagou ao acaso durante vários dias, sem conseguir encontrar um caminho seguro em meio à escuridão que o cercava. Depois de muito caminhar, escorregou e caiu do alto de um rochedo sobre o vale coberto de ervas rasteiras. 

E foi lá que Hermes o encontrou. Deixou que as Ninfas chorosas levassem seu corpo e, no local onde o filho tombara, fez correr uma fonte da águas puras.   

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Hermes levantou a cabeça e fitou nos deuses um olhar cheio de ódio. 

— Ele foi enganado por uma humana! Ela o enfeitiçou com suas bebidas mágicas! 

Os deuses entreolharam-se, preocupados.

— Isto significa que os homens estão de posse de conhecimentos perigosos! — comentou Hera. 

— Aprenderam a arte da Magia! Isto não poderia ter acontecido!— resmungou Thêmis. 

— Maldição! — esbravejou Zeus.   

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Daphnis (Δάφνις),defende o seu rebanho. Por Emmanuel Mourão



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