Capítulo 36 — O nascido do próprio solo — Erictônio(Ἐριχθόνιος)

 

Capítulo 36 — O nascido do próprio solo — Erictônio(Ἐριχθόνιος)

Olimpo, a Saga dos Deuses 


Erictônio(Ἐριχθόνιος). Por Emmanuel Mourão.



Hefesto(Ἥφαιστος) enxugou a testa com a costa da mão. O calor do fogo queimava sua pele e seu corpo nu brilhava de suor. Escutou passos, olhou e para sua surpresa naquele momento adentrava em sua forja Athena(Ἀθάνα).

— Como vai, deusa? A que devo a honra desta visita? 

Athena aproximou-se, hesitante. O calor era insuportável. 


— Hefesto, você é um ourives e, sobretudo, um artista. Quero que faça um cálice de ouro, com cachos de uva desenhados em relevo. 

— Um cálice de ouro adornado, Athena? Posso fazê-lo em poucas horas. 

— Ótimo, — disse a deusa, sentando-se em um banco tosco. — eu espero. Prometi este cálice a Dionísio(Διονυσος) e não quero voltar ao Olimpo sem ele.

Hefesto começou seu trabalho. Enquanto o ouro derretia, fabricou as fôrmas necessárias. Suas mãos hábeis trabalhavam o metal, mas seus olhos teimavam em procurar a deusa. O fogo da caldeira queimava sua pele e o desejo que chegava aos poucos queimava seu coração e suas entranhas.

Em seu canto, Athena pensava em Palas(Παλλάς). A saudade da amiga foi invadindo sua alma e seus pensamentos e ela não sentiu o tempo passar e nem percebeu a volúpia que se instalara em Hefesto, tomando conta de seus sentidos e de seus movimentos. 

Foi somente quando sentiu no ombro o peso da mão do deus, que retornou à consciência do momento e do lugar onde estava. À frente de seus olhos brilhava um magnífico cálice de ouro, com cachos de uva entrelaçados, em relevo. Levantou-se e tomou-o entre as mãos. 

— Que trabalho esplêndido, Hefesto! Nem sei como recompensá-lo!

— Fiz este trabalho por amor.

Athena não entendeu bem o significado dessas palavras, já que desconhecia os dons de Eros(Ἔρως). Acabou por concluir que o deus Hefesto amava o seu trabalho. Porém, o deus-ferreiro colocou-se-lhe na frente e quis dar os passos necessários. O ferreiro, apesar da sua feiura, foi o marido da bela entre as belas, de Afrodite(Ἀφροδίτ), e embora o seu casamento não tenha resultado tão satisfatório e nobre como devia ter sido, pois a mesma o havia abandonado, a presença de Athena o fez pensar de novo na possível felicidade de estar com uma mulher tão maravilhosa como aquela que tinha diante de si. Então pegou o cálice e colocou-o sobre o banco. Depois acariciou o rosto de Athena e, inflado de desejo pela deusa virgem, atraiu-a com firmeza. 

— Quero somente o seu amor — disse ele, procurando os lábios da deusa com a boca aflita.

Atena quis virar o rosto, mas as mãos fortes de Hefesto comprimiram sua cabeça, obrigando-a a receber o beijo sôfrego. 

Ela debateu-se furiosamente, sentindo na pele a pressão do corpo do deus. Num movimento rápido, ele a empurrou contra a bancada de pedra, suspendeu sua veste fina e tentou afastar suas pernas. Mas a filha de Zeus se defendeu e a musculatura forte de Atena não cedeu. A virginal Athena recebeu em muitas ocasiões o requerimento amoroso dos seus pais, mas sempre se manteve fiel à sua ideia inicial de ser virgem por vocação. Ao fim e ao cabo, essa era a petição mais importante da sua vida e estava claro que não o tinha feito por capricho, mas porque compreendia que o seu nascimento marcava o seu destino, separada absolutamente do sexo que nem sequer tinha existido na sua concepção.

— Nunca! Athena é e sempre será virgem! E esse é o seu nobre desejo.

Cega de raiva, ela esmurrou inutilmente os ombros de Hefesto, que se comprimia nervosamente contra seu corpo, procurando uma brecha entre as coxas cerradas. De repente, o rosto de Hefesto se torceu num esgar de prazer e Athena sentiu o líquido quente escorrer por sua perna, contrariada e enojada pela desagradável experiência, retirou-o com um floco de algodão que encontrou por ali e lançou o pingo ao chão, pensando que assim dava o incidente por resolvido, e não chegou a pensar no que ia suceder imediatamente com esse pingo encharcado com o esperma do agora desfalecido Hefesto. Irritada a deusa empurrou com facilidade o corpo mais relaxado de Hefesto, que respirava ofegantemente. 

— Você enlouqueceu, Hefesto? — gritou Athena, vermelha de ódio — Como pôde forçar-me desta maneira?

Hefesto não respondeu, apenas torceu a boca num sorriso e ficou olhando para a deusa que limpava a perna com a barra da veste. 

Nisto, uma névoa clara e brilhante começou a sair da terra, no lugar onde caíra o sêmen de Hefesto. Athena parou de reclamar e olhou, surpresa, o chão que crescia e avolumava-se, formando um pequeno monte coberto por uma luz azulada. E a névoa foi se tornando mais densa, até esconder a terra estufada em meio a círculos de luz que se expandiam e coloriam a cratera do vulcão. E, no meio de toda aquela explosão de cores,uma criança chorou. Depois a luz foi se misturando à névoa, que começou a se tornar menos densa, até desaparecer por completo, deixando ver um recém nascido que esperneava e gritava, deitado na terra. E Então ouviu-se a voz de Gaia(Γαῖα).

— Não estou disposta a carregar esse produto da brincadeira de indubitável mal gosto de vocês e  não aceitarei o filho resultante da estupidez dos outros. — Vociferou Gaia, a Terra, que recebeu o esperma e ficou automaticamente grávida, por azar, por essas coisas do destino. — Athena, esta criança é sua, menina! Era você e não eu que Hefesto queria como esposa. Portanto, cuide dela você mesma!

Athena, sentindo-se em parte responsável pelo incidente, tomou a decisão de encarregar-se da criatura assim que foi parido por Gaia. Então se curvou e apertou-o contra o peito.

— Pobrezinho... — sussurrou ela, beijando a face rosada do bebê que logo se acalmou. — Vou levá-lo comigo.

E saiu sem ao menos olhar para Hefesto que, ainda exibindo o mesmo riso nos lábios, acompanhou com os olhos a deusa que se afastava, levando consigo a criança e o cálice de ouro.

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Athena, a fim de evitar que os outros deuses descobrissem o ocorrido, não quis voltar ao Olimpo com o bebê. Abrigou-se numa pequena gruta e deitou a criança sobre um monte de capim macio. Estendeu a mão sobre ele. 

— Seu nome será Erictônio(Ἐριχθόνιος), que quer dizer, "filho da Terra".. Transmito-lhe a força e a coragem necessárias a um rei. Seu reino será a cidade que traz meu nome, Atenas.

O ruído sibilante de uma serpente chamou-lhe a atenção. Pegou a cobra ecolocou-a ao lado do menino. 

— Você será sua guardiã e o protegerá contra todos os perigos — disse a deusa, apontando para a serpente.

Depois encerrou o bebê e a cobra num cofre e partiu com passos determinados para a antiga cidade de Ática. Pelo caminho, deixou que as imagens do passado voltassem à sua mente e lembrou-se de Cécrope(Κέκροπας), o filho de Gaia(Γαῖα), metade homem e metade serpente.

Cécrope fora o fundador de Ática. Depois de construída a cidade, ele ensinou aos homens a enterrar os mortos, inventou a escrita, organizou recenseamentos e quis entregar a cidade à proteção de um deus. Resolveu escolher aquele que produzisse a coisa mais útil. Poseidon(Ποσειδῶν),  que acompanhara o nascimento da cidade, deu o cavalo aos homens e fez surgir uma fonte de águas límpidas. Mas Athena, que também se interessara pela Ática, domou o cavalo e criou a oliveira carregada de frutos. 

Cécrope reuniu o povo e deixou a seu cargo a escolha do protetor da cidade. Athena foi a escolhida e a cidade passou a se chamar Athenas.

O primeiro rei de Atenas, Acteus(Ακταίος), também foi eleito pelo povo. Sua filha, Aglauro, casou-se com Cécrope e lhe deu três filhas: Aglauro(Ἄγραυλος), Herse(Ἕρση) e Pândroso(Πάνδροσος).

Estavam as três irmãs brincando longe do castelo, quando foram vistas por Ares, que logo se enamorou de Aglauro. Atraiu-a com seus encantos de deus e deu-lhe uma filha, Alcipe(Ἀλκίππη)

Era Alcipe muito jovem ainda quando foi percebida por Halirrócio(αλιρόθιο), filho de Poseidon e da ninfa Êurite(ευρήτη). Halirrócio passou a vigiar os passos de Alcipe, fascinado por sua beleza e sua juventude. Um dia, vendo que a menina se afastava para o meio da floresta, correndo atrás de uma borboleta, atacou-a, cobriu-lhe a boca para que não gritasse e violentou-a. 

Quando Ares(Ἄρης) soube dessa agressão contra sua filha, matou o sedutor sem piedade. Poseidon fez com que Ares se submetesse ao julgamento de doze deuses do Olimpo. Reuniram-se todos numa colina, situada em frente à Acrópole de Atenas. Ares foi absolvido e, depois daquilo, a colina recebeu o nome de Aerópago.   

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Quando Atena chegou a Atenas, foi recebida festivamente pelas três irmãs, Aglauro, Herse e Pândroso. 

— Fazemos questão que repouse em nossa casa — disseram. — Parece tão cansada! 

Atena aceitou o convite, aliviada. Realmente aquela caminhda, carregando o cofre que continha Erictônio e a serpente, não fora das mais fáceis. Seria bom descansar um pouco e depois prosseguir na procura de um lugar seguro onde deixar a criança. 

As irmãs não despregavam os olhos do cofre. 

— Que haverá aí dentro? — perguntou Herse, num sussurro. 

— Ouvi dizer que Atena veio da forja de Hefesto — respondeu Pâdroso, com ares cobiçosos. — Na certa trouxe belas jóias. Quem sabe nos presenteará com algumas, como pagamento de nossa hospitalidade? 

— Não sejam tão curiosas — respondeu Aglauro, espiando para ver se Atena as escutava. — Curiosidade em excesso nunca acabou bem. Calaram-se ao ouvirem os passos de Atena, que se aproximava. 

— Minhas amigas, — disse a deusa — agradeço tanta gentileza e vou me deitar um pouco. Peço que cuidem bem deste cofre, mas não permito que vejam o que ele contém. 

— Não se preocupe, deusa — respondeu prontamente Pândroso. — Ninguém abrirá esta arca. 

Atena se deitou e logo adormeceu. Herse e Pândroso não conseguiam conter sua curiosidade. E, num momento em que Aglauro se retirou, abriram o cofre. 

Gritaram, assustadas, ao verem a criança e a enorme serpente.

Atena acordou, sobressaltada, e logo viu que tinha sido desobedecida. Uma fúria incontida escapou de seus solhos e alcançou as duas irmãs, ferindo-as com a loucura. Gritando sempre, correram alucinadas e se jogaram do alto de um rochedo. 

— A você, Aglauro, — disse atena — que soube acatar minha vontade, entrego Erictônio. Cuide dele e transforme-o num rei. 

Aglauro recebeu o menino com alegria e deu a ele a educação digna de um príncipe. Tinha saudade de Pândroso, mas Herse não deixara nenhuma recordação doce em seu coração. Aglauro tinha ciúmes de Herse, pois sabia que ela recebera o amor de Hermes, por quem nutria secreta paixão. E mesmo depois da morte de Herse, continuava a moer-se de ciúmes. Imaginava a irmã nos braços de Hermes e não se conformava em jamais ter conseguido a atenção do deus mensageiro. Com o tempo, seus ciúmes aumentaram tanto que Hermes começou a sentir, de longe, as agulhadas do despeito de Aglauro. Um dia perdeu a paciência, voou até Atenas em suas sandálias de ouro e transformou a moça numa estátua de pedra. 

Erictônio cresceu, casou-se com a náiade Praxitéia e ocupou o trono de Atenas, até ser substituído por seu filho Pandion.   

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Athena(Ἀθάνα) carrega Erictônio(Ἐριχθόνιος). Por Emmanuel Mourão.


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