Melampo(Μελάμπους), o homem dos pés negros, tinha sido colocado à sombra ao nascer. Cansada do parto duplo, sua mãe logo adormeceu e não viu o sol deitar-se sobre os pés do bebê, escurecendo-os para sempre.
Muito tempo já havia passado, desde a partida de Bias(Βίας). Melampo, preocupado, resolveu partir à procura do irmão. Mal chegou à Filácia, soube pela voz do povo que Bias estava preso, respondendo pelo crime de furto. Já havia marcado uma audiência com Fílaco(Φύλακος), quando ouviu de dois mercadores uma interessante conversa:
— Fílaco aumentou os impostos, novamente. Se continuar assim, em pouco estaremos trabalhando somente para pagar as taxas.
O outro coçou a cabeça.
— O rei está velho... Por que o príncipe Íficles(Ἰφικλῆς) não assume logo o trono?
— Você não sabe por quê? — espantou-se o primeiro — Fílaco não quer deixar em seu lugar um filho impotente, que jamais dará herdeiros para o trono da Filácia.
Quando Melampo foi levado à presença de Fílaco, já tinha planejado um meio de tirar Bias da cadeia.
— Rei, — disse ele — sou Melampo, da Tessália, e tenho o dom de prever o futuro e de curar. Soube que seu filho é impotente e desejo livrá-lo desse mal.
Fílaco se curvou para a frente, interessado.
— Cure meu filho e lhe concederei o que me pedir.
Levou Melampo aos aposentos do príncipe, um rapaz magro e pálido, de olhar assustado.
Melampo segurou as mãos do moço, respirou fundo e se concentrou. Logo o brilho de seus olhos se tornou mais intenso e sua voz mais grave e vibrante. Voltou-se para Fílaco e disse:
— Rei, providencie dois touros para serem sacrificados aos deuses.
Fílaco mandou que separassem os dois melhores touros de seu rebanho. Depois de sacrificá-los, Melampo despedaçou-os e atirou os pedaços no campo, para os abutres. Oculto pelas árvores, ficou escutando a conversa das aves.
— Olhem só, quanta fartura! — exclamou o abutre, lançando olhares gulosos para os pedaços de carne.
— Que belo presente! — gritou outro — Quem terá se preocupado assim conosco?
— Foi o rei! Foi o rei! — grasnou um terceiro, segurando um pedaço enorme no bico curvo.
— Pobre rei! — resmungou o mais velho. — Tão triste com seu filho doente!
— Ficou doente por ignorância do próprio rei! — gritou um abutre muito grande que chegou, segurando nas garras o seu naco de carne. — Sacrificou um carneiro e deixou a faca ensanguentada junto do filho.
O abutre mais velho se aproximou, cheio de curiosidade.
— E daí? O que tem a doença do príncipe com isso?
— O príncipe teve medo da faca ensanguentada e a enfiou num carvalho sagrado. A casca cresceu em torno da faca até escondê-la por completo e o medo jamais deixou o coração de Íficlo. No íntimo, ele sabe que a faca está lá, enfiada no carvalho e coberta de sangue, e esta lembrança corrói sua alma de pavor. Para ficar bom, terá que preparar uma beberagem com a casca da árvore e tomá-la por dez dias seguidos.
— E qual é a árvore? — perguntou o mais velho dos abutres.
O outro esticou o bico na direção de um carvalho enorme, que coroava o alto de uma colina.
— É aquele ali... O carvalho sagrado!
Melampo não quis ouvir mais nada. Partiu rapidamente em direção à colina, colheu uma boa porção de casca do carvalho e preparou a tal beberagem. Íficlo ficou curado.
Como pagamento, Melampo pediu a liberdade de Bias. Acompanhado por dois soldados, dirigiu-se para o cárcere e escutou os gritos do irmão, agarrado às grades:
— Tirem-me daqui! O teto vai ruir! As vigas estão podres!
Mal saiu da prisão, a casa toda ruiu. Impressionado com o acontecido, Fílaco reconheceu que havia aprisionado um adivinho e cedeu o rebanho que ele tanto queria, e que havia sido a causa de sua prisão.
Bias retornou à cidade de Pilos, na Messênia, e obteve de Neleu(Νηλεύς) a mão de sua amada Pero.
E foi lá que os emissários de Preto(Προῖτος), o rei de Tirinto, foram buscar Melampo, para curar as filhas do rei que, atacadas de loucura, erravam através do Peloponeso, mugindo tristemente, julgando serem vacas.
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| Irmãos em fuga do Colapso. Por. Emmanuel Mourão. |
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