Capítulo 51 — O meio-irmão gêmeo de Héracles — Íficles(Ἰφικλῆς)

 

Capítulo 51 — O meio-irmão gêmeo de Héracles — Íficles(Ἰφικλῆς)

Olimpo, a Saga dos Deuses 

Íficles(Ἰφικλῆς). Por Emmanuel Mourão.


Melampo(Μελάμπους), o homem dos pés negros, tinha sido colocado à sombra ao nascer. Cansada do parto duplo, sua mãe logo adormeceu e não viu o sol deitar-se sobre os pés do bebê, escurecendo-os para sempre.


Muito tempo já havia passado, desde a partida de Bias(Βίας). Melampo, preocupado, resolveu partir à procura do irmão. Mal chegou à Filácia, soube pela voz do povo que Bias estava preso, respondendo pelo crime de furto. Já havia marcado uma audiência com Fílaco(Φύλακος), quando ouviu de dois mercadores uma interessante conversa:



— Fílaco aumentou os impostos, novamente. Se continuar assim, em pouco estaremos trabalhando somente para pagar as taxas.


O outro coçou a cabeça.


— O rei está velho... Por que o príncipe Íficles(Ἰφικλῆς) não assume logo o trono?


— Você não sabe por quê? — espantou-se o primeiro — Fílaco não quer deixar em seu lugar um filho impotente, que jamais dará herdeiros para o trono da Filácia.


Quando Melampo foi levado à presença de Fílaco, já tinha planejado um meio de tirar Bias da cadeia.


— Rei, — disse ele — sou Melampo, da Tessália, e tenho o dom de prever o futuro e de curar. Soube que seu filho é impotente e desejo livrá-lo desse mal.


Fílaco se curvou para a frente, interessado.


— Cure meu filho e lhe concederei o que me pedir.


Levou Melampo aos aposentos do príncipe, um rapaz magro e pálido, de olhar assustado.


Melampo segurou as mãos do moço, respirou fundo e se concentrou. Logo o brilho de seus olhos se tornou mais intenso e sua voz mais grave e vibrante. Voltou-se para Fílaco e disse:


— Rei, providencie dois touros para serem sacrificados aos deuses.


Fílaco mandou que separassem os dois melhores touros de seu rebanho. Depois de sacrificá-los, Melampo despedaçou-os e atirou os pedaços no campo, para os abutres. Oculto pelas árvores, ficou escutando a conversa das aves.


— Olhem só, quanta fartura! — exclamou o abutre, lançando olhares gulosos para os pedaços de carne.


— Que belo presente! — gritou outro — Quem terá se preocupado assim conosco?


— Foi o rei! Foi o rei! — grasnou um terceiro, segurando um pedaço enorme no bico curvo.


— Pobre rei! — resmungou o mais velho. — Tão triste com seu filho doente!


— Ficou doente por ignorância do próprio rei! — gritou um abutre muito grande que chegou, segurando nas garras o seu naco de carne. — Sacrificou um carneiro e deixou a faca ensanguentada junto do filho.


O abutre mais velho se aproximou, cheio de curiosidade.


— E daí? O que tem a doença do príncipe com isso?


— O príncipe teve medo da faca ensanguentada e a enfiou num carvalho sagrado. A casca cresceu em torno da faca até escondê-la por completo e o medo jamais deixou o coração de Íficlo. No íntimo, ele sabe que a faca está lá, enfiada no carvalho e coberta de sangue, e esta lembrança corrói sua alma de pavor. Para ficar bom, terá que preparar uma beberagem com a casca da árvore e tomá-la por dez dias seguidos.


— E qual é a árvore? — perguntou o mais velho dos abutres.


O outro esticou o bico na direção de um carvalho enorme, que coroava o alto de uma colina.


— É aquele ali... O carvalho sagrado!


Melampo não quis ouvir mais nada. Partiu rapidamente em direção à colina, colheu uma boa porção de casca do carvalho e preparou a tal beberagem. Íficlo ficou curado.


Como pagamento, Melampo pediu a liberdade de Bias. Acompanhado por dois soldados, dirigiu-se para o cárcere e escutou os gritos do irmão, agarrado às grades:


— Tirem-me daqui! O teto vai ruir! As vigas estão podres!


Mal saiu da prisão, a casa toda ruiu. Impressionado com o acontecido, Fílaco reconheceu que havia aprisionado um adivinho e cedeu o rebanho que ele tanto queria, e que havia sido a causa de sua prisão.


Bias retornou à cidade de Pilos, na Messênia, e obteve de Neleu(Νηλεύς) a mão de sua amada Pero.


E foi lá que os emissários de Preto(Προῖτος), o rei de Tirinto, foram buscar Melampo, para curar as filhas do rei que, atacadas de loucura, erravam através do Peloponeso, mugindo tristemente, julgando serem vacas.



                                                                                


Irmãos em fuga do Colapso. Por. Emmanuel Mourão.





                                                                                


Comentários