Capítulo 50 — O curandeiro e o homem dos pés pretos — Bias(Βίας) e Melampo(Μελάμπους)


Capítulo 50 — O curandeiro e o homem dos pés pretos — Bias(Βίας) e Melampo(Μελάμπους)

Olimpo, a Saga dos Deuses 


Bias(Βίας) e Melampo(Μελάμπους). Por Emmanuel Mourão.


Melampo(Μελάμπους), o homem dos pés negros, tinha sido colocado à sombra ao nascer. Cansada do parto duplo, sua mãe logo adormeceu e não viu o sol deitar-se sobre os pés do bebê, escurecendo-os para sempre.


Melampo, retraído e introspectivo, sempre se afastava do convívio da família e embrenhava-se na mata, procurando o contato com a natureza. E foi assim que encontrou uma serpente morta, rodeada de filhotes. Com pena, criou as pequenas serpentes e elas, agradecidas, purificaram seus ouvidos com as línguas longas e finas. Melampo, então, passou a compreender a linguagem de todos os animais e a dos espíritos da natureza.



Um dia, estava ele em profunda contemplação, quando viu surgir à sua frente um pequeno duende. Não se espantou e nem se surpreendeu com a forte vibração que fez parar até mesmo o farfalhar das folhas das árvores. O duende se aproximou e fez uma reverência engraçada.


— Melampo, filho de Amitáon(Ἀμυθάων) e Idomeneia(Ἰδομένεια), chegou o momento de ser iniciado na ciência das curas e do uso de ervas mágicas. Queira me acompanhar.


Entraram numa caverna oculta por folhagens pesadas e passaram por um túnel escuro, que se abriu numa gruta iluminada por fracos raios de sol, que se infiltravam pelas frestas das pedras. Foi recebido por um velho gnomo de barbas brancas e olhos amendoados, que pareciam sempre sorrir. Bebeu uma poção encantada que aguçou sua percepção e fez com que captasse aquilo que estava além do alcance dos seus sentidos.


O gnomo mandou que se despisse, esfregou sal em seu corpo e o banhou com um chá escuro e mal cheiroso. Sentiu um formigamento na pele e leves choques correram por suas costas. Entoando estranhos cânticos, o velho ateou fogo às ervas aromáticas e envolveu com a fumaça o corpo de Melampo. Uma dor forte, com uma intensa queimadura, começou a subir-lhe pela coluna e ele mordeu os lábios para não gritar.


O gnomo tocou em sua testa e uma explosão de luz clareou sua mente. A dor passou como que por encanto. O gnomo sorria.


Melampo se tornou adivinho, sacerdote, purificador, médico e conhecedor do uso das ervas mágicas. Deixou a Tessália, acompanhado de seu irmão Bias(Βίας), e foram para a cidade de Pilos, na Messânia. Lá pousaram na suntuosa casa de seu tio, Neleu(Νηλεύς).


O encanto e a beleza de Pero(Πηρώ), filha de Neleu e Clóris(Χλωρίς), logo atraiu a atenção de Bias, que se tomou de paixão pela prima. Encheu-se de coragem e pediu a Neleu a mão da moça em casamento. Apanhado de surpresa pelo pedido inesperado, Neleu não teve argumentos para negar. Mas a ideia de ceder a filha era um tormento para seu espírito possessivo.


— Muito bem — disse ele, afinal — permito que se case com Pero, mas somente depois que me trouxer alguns bois do rebanho de Fílaco(Φύλακος).


Bias, então, se preparou para ir à Fílácia, na Tessália, e trazer de lá os bois de Fílaco, a qualquer preço. Já se punha a caminho, quando Melampo o deteve com um gesto.


— Um momento, meu irmão! Estou prevendo o seu destino!


Bias olhou-o, cheio de aflição.


— Diga-me, Melampo, terei êxito em minha missão?


O olhar profundo de Melampo parecia perdido além do tempo. A respiração foi se tornando mais lenta, até quase desaparecer.


— Vejo — disse ele baixinho — que conseguirá o que deseja, mas antes permanecerá na prisão, por longo tempo. Sinto que esse período de reclusão será necessário, para que aprenda a ouvir as vozes que seus ouvidos não ouvem e a ver aquilo que seus olhos não veem.


Bias partiu, impressionado com a profecia, mas logo se esqueceu dela e tratou de encontrar o caminho mais rápido para a Tessália, levando consigo oferendas valiosas, com as quais pretendia adquirir os cobiçados bois. Mas Fílaco não lhe cedeu nenhuma das cabeças de seu rebanho. Desiludido e furioso com Fílaco, Bias esperou a noite chegar e tentou roubar o gado. Mas foi surpreendido e aprisionado.


Esquecido na masmorra, Bias definhou, quase morreu. O parco alimento que recebia apenas uma vez por dia, não mantinha suas forças e, quando a fraqueza alcançou o limite de sua tolerância, ele desmaiou. Viu-se flutuando sobre seu corpo inerte e um ser luminoso se aproximou e o puxou pelas mãos. Seguiu-o docilmente, sem se preocupar em descobrir quem o conduzia. De mãos dadas, subiram ao espaço infinito, misturaram-se às estrelas, flutuaram na imensidão. Sons magníficos preenchiam o nada, vindos de algum lugar perdido nas curvas da imaginação e luzes intensas explodiram à sua frente, numa festa de cores. Tudo era som; tudo era luz.


E a figura luminosa deslizava pelo espaço, conduzindo o deslumbrado Bias através daquele mundo que nem mesmo a mais rica fantasia poderia conceber.


Longe, muito longe, apareceu o vulto radiante de um castelo que se erguia das nuvens claras e brilhantes.


— Que lugar é aquele? — perguntou Bias, e sua voz lhe pareceu estranha, longínqua.


— É o Olimpo, a morada dos deuses — respondeu o ser que o acompanhava.


Pela primeira vez, Bias procurou o rosto de seu guia, mas nada conseguiu ver, além de uma intensa luminosidade.


— Olimpo? — exclamou, surpreso. — Mas sempre pensei que a morada dos deuses fosse no alto de uma montanha!


— O Olimpo está em toda a parte — respondeu seu guia, com uma voz profunda e cálida. — Está no alto da montanha, está nas estrelas, está dentro de seu coração.


— E os deuses, onde estão?


— Estão ao alcance de sua mente e de seus sentimentos.


— Gostaria de conhecê-los...


— Pois então deseje isto, com todo o poder de sua Vontade.


Bias parou, suspenso no espaço negro. Fechou os olhos, mas continuou a enxergar através das pálpebras etéreas. Pensou, e seus pensamentos ecoaram com a mesma intensidade de sua voz:


— Deuses, quero vê-los, quero senti-los junto a mim, para sempre!


Houve algo em seus desejos que o impulsionou além do espaço e imediatamente se viu nos jardins suntuosos do Olimpo, em meio a mil flores exóticas. Sua mão continuava presa à mão de seu luminoso acompanhante. Um pouco adiante, alguns deuses passeavam, sem se importarem com sua presença.


— Veja! — exclamou Bias, estupefato — É Apolo(Ἀπόλλων)! E também vejo Hermes(Ἑρμής), Hera(Ἥρα) e o próprio Zeus(Ζεύς)! Fantástico... Não tenho dúvidas agora. Ou estou sonhando, ou estou morto!


A intensidade da luz que envolvia seu guia aumentou, à medida que ele respondia:


— E o que é o sonho e o que é a morte senão o adormecer dos sentidos e o despertar para os mundos que existem, além do alcance da percepção sensorial? O que é o sonho e o que é a morte, senão o entorpecimento do ser humano e o acordar do ser divino?


A figura graciosa de Afrodite(Αφροδίτη) se aproximou deles e a vibração de sua voz fez com que ele estremecesse.


— Afrodite! — sussurrou Bias — Não posso acreditar no que vejo!


— E por que não? — perguntou ela. — Estou sempre esperando por todos aqueles que amam. Não se esqueça de que sou a deusa do Amor. A paixão que despertou em sua alma o trouxe para mim.


— Sim, é verdade, deusa! Amo Pero com todas as minhas forças!


— Ame, Bias — continuou a deusa — pois foi o próprio Zeus quem determinou que somente os homens que amam podem se tornar divinos. Ame, Bias, e acorde o ser divino que mora em seu coração.


Estendeu-lhe as mãos. Bias soltou seu guia e segurou as mãos da deusa. Um calor intenso escorreu por seus braços e invadiu todo o seu ser. Os centros energéticos pulsaram, ante o impacto daquela energia, e começaram a girar velozmente, espirrando luzes que corriam por todo o seu corpo. E Afrodite foi se chegando lentamente. Até que seus corpos se uniram e se transformaram em um só ser, andrógino, perfeito, divino.


Bias nunca soube dizer por quanto tempo permaneceu naquele estado, uno com a deusa do Amor. Depois, bem devagar, seu corpo andrógino se dividiu em dois, novamente, e ele viu Afrodite se afastar, sorrindo e acenando.


Sentiu outra vez o contato da mão de seu guia na sua.


— Venha, Bias, chegou a hora de voltar.


Ainda atônito, Bias se voltou para seu companheiro. Pela primeira vez, conseguiu ver o seu rosto.


— Melampo! — exclamou, emocionado. — É você, meu irmão?


Uma tonteira súbita, um mergulho no nada e Bias despertou ao som de sua própria voz.


— Melampo! Melampo! Onde está você, meu irmão?


O corpo dorido custou a se erguer do chão do cárcere, mas uma energia estranha fluía por todo o seu organismo, enchendo-o de forças. Olhou em volta, procurando compreender onde estava.


— Céus! Que sonho lindo! Queria jamais ter acordado novamente.


Vozes finas começaram a sussurrar, vindas de algum lugar de sua cela. Procurou com os olhos, mas nada viu.


— Acho que estou enlouquecendo. A fraqueza me traz alucinações.


Aos poucos, começou a compreender o que as vozes cochichavam.


— As madeiras estão podres!


— As vigas vão ruir!


— Cuidado!... Cuidado!...


Olhou novamente, e a única coisa que viu foram os carunchos da madeira.


— Vejam, os troncos apodreceram!


— Vai tudo desmoronar!


Sacudiu a cabeça, procurando ajeitar os pensamentos.


— Estou louco, realmente... — sussurrou. — Escuto os bichos da madeira conversando entre si! Como pode ser isto?


As palavras de Afrodite voltaram à sua mente:


— “Ame, Bias, e acorde o ser divino que mora em seu coração”.


E se lembrou de todo o sonho, com um arrepio de emoção. As vozes continuavam a zumbir, vindas do telhado.


— Cuidado!... As vigas estão podres!


— Céus! — exclamou Bias — Estou mesmo escutando a conversa dos bichos da madeira!


Correu para a janela e agarrou-se às grades.


— Socorro! — gritou para fora — Alguém me tire daqui! As vigas estão podres! O telhado todo vai ruir!


Mas ninguém o escutou...


                                                                                


O Guardião e o sábio no Templo. Bias(Βίας) e Melampo(Μελάμπους). Por Emmanuel Mourão.




                                                                                



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