Era sempre com muita emoção que o povo de Pilos, na Messênia, contava a história de Neleu(Νηλεύς), o fundador de sua cidade.
Diziam que Éolo(Αἴολος), o rei dos ventos, em seus passeios pela Terra, foi o pai de Creteu(Κρηθεύς), Salmoneu(Σαλμονεύς) e Sísifo(Σίσυφος). Salmoneu(Σαλμονεύς) se tornou rei da Élida e se casou com Alcídice(Ἀλκιδίκη), que lhe deu uma filha, Tiro (Τυρώ).
Alcídice morreu, deixando Tiro ainda muito pequena, e Salmoneu se casou pela segunda vez com Sídero(Σιδηρώ), esperando que a nova esposa pudesse dar à filha órfã os carinhos da mãe que havia perdido. Mas Sídero era cruel e maltratava a enteada, que, com medo das ameaças e castigos ainda maiores, não tinha coragem de se queixar a seu pai.
Quando Tiro começou a sair da infância, percebeu que Sídero, além dos maltratos habituais, passou a puni-la também pela beleza que começava a definir seu corpo, mal despertando para a adolescência.
Tiro, para fugir da madrasta, passava seus dias caminhando sozinha às margens do rio Enípeu. Com tristeza, olhava-se no espelho das águas cristalinas e ficava imaginando se seu sofrimento um dia teria fim. Seus cabelos louros, que Sídero cortara rentes à cabeça com um facão, começavam a crescer e já tocavam os ombros.
— Será que ela vai cortá-los novamente? — pensava a menina, alisando os cabelos macios. A lembrança daquela tarde voltou à sua mente.
Saíra do banho e secava os cabelos, esfregando-os com um pano grosso. Não viu a madrasta chegar.
— Menina! — exclamou Sídero, fazendo com que Tiro estremecesse de pavor — Vista-se imediatamente, antes que algum criado a veja!
Tiro largou a toalha e já ia vestindo sua veste curta, quando Sídero interrompeu-a com um gesto.
— Espere! — e abriu uma arca, de onde tirou umas tiras de pano, com que enfaixou o peito da enteada, espremendo os seios pequenos que começavam a crescer. Tiro fez uma careta de dor.
— Você é uma menina ainda! Não deixe que os homens vejam os contornos de seu corpo. E estes cabelos, tão longos! Vamos dar um jeito nisto, também.
E, com o facão, tosou-os como os de um rapaz.
Tiro, todos os dias, procurava sentir com as mãos se os cabelos cresciam. E depois que passou a caminhar pela beira do rio, olhava-os nos reflexos da água.
— Rio, amado rio Enípeu! — dizia ela, molhando os pés descalços — Somente você me escuta e me compreende. Tenho tanta vergonha de meus cabelos, assim, tão curtos! Daria tudo para vê-los longos e belos, como antes.
O tempo passou e os cabelos começaram a roçar seus ombros.
— Meu amado rio, não permita que ela os corte novamente. Eu o amo muito, rio Enípeu, e sei que pode me ocultar em suas águas.
Arrancou as vestes e as faixas que lhe comprimiam os seios, já mais crescidos. Mergulhou. As águas frias fecharam-se em torno de seu corpo, mas ela as sentiu mornas e acariciantes.
— Rio, meu amado rio! Daria tudo para que pudesse falar comigo! Sinto-me tão só!...
E todos os dias Tiro mergulhava no rio Enípeu(Σαλμωνεύς), fechava os olhos, e as águas que envolviam seu corpo tinham o cálido aconchego dos braços de um amante imaginário.
Poseidon(Ποσειδῶν), que de seu castelo marinho se harmonizava com todo o reino aquático, logo percebeu a paixão de Tiro pelo rio Enípeu. Tomou a aparência de um belo moço de corpo esguio, mas forte, e de pele bronzeada pelo sol. Calado ao leito do rio, viu quando Tiro chegou, soltou os cabelos já crescidos que prendia na nuca, para ocultá-los da madrasta, tirou a veste e as faixas e mergulhou nas águas cristalinas. Aproximou-se e emergiu à frente da moça. Ela deu um grito de susto e se escondeu atrás de um tufo de plantas aquáticas. Ele sorriu, deixando ver os dentes, que brilhavam como pérolas.
— Por que tem medo de mim, se diz que me ama?
Ela arregalou os olhos.
— Quem é você? — gaguejou.
— Sou o deus-rio Enípeu. Todos os dias a abraço com minhas águas e sinto o calor de seu corpo. Não se esconda de mim!
Desconfiada, ela não saiu de seu esconderijo.
— Não acredito em você... — disse ela, num tom de queixa.
— Pois vou provar que não minto! — e repetiu todas as palavras que ouvira de Tiro, durante todo aquele tempo.
À medida que falava, ia se aproximando das plantas que escondiam Tiro que, surpresa, reconhecia tudo o que ele dizia. Quando chegou junto dela, estendeu as mãos e atraiu-a docemente. Tiro se deixou envolver pelos braços do moço e o amou com paixão.
Quando descobriu que ia ser mãe, quase enlouqueceu de desespero. Escondeu a gravidez até o final, apertando o ventre com as faixas que lhe atavam os seios e usando as vestes mais largas que possuía. Quando sentiu as primeiras dores, fugiu para a beira do rio.
Deu à luz a dois gêmeos, Pélias e Neleu.
Com medo das maldades da madrasta, deitou as crianças sobre as plantas que ladeavam o rio e disse, chorando:
— Deus-rio Enípeu! Confio-lhe os filhos que me deu. Não posso tê-los comigo, pois certamente serão mortos por Sídero. Cuide deles, eu lhe suplico!
Poseidon escutou suas palavras e enviou uma jumenta, para proteger e alimentar as crianças.
Aflita e preocupada com o destino dos filhos, Tiro chorava pelos cantos do palácio. Desconfiada, a madrasta colocou soldados para vigiarem seus passos, e a moça não pôde mais voltar às margens do rio Enípeu.
Resolvida a ter as crianças de volta, Tiro foi procurar seu pai, disposta a lhe revelar tudo. Encontrou-o sozinho, num dos salões nobres do palácio. Parecia distraído, olhando o céu azul pela janela ampla.
— Meu pai! — foi dizendo ela, enchendo-se de coragem — Preciso muito lhe falar!...
Ele se voltou rapidamente e pousou na filha um olhar desvairado. Esticou um dedo nos lábios, pedindo silêncio.
— Pss! Os deuses falam comigo! Deixem-me ouvir o que dizem!
E voltou a olhar o céu fixamente. Tiro esperou, até que o pai se afastou da janela. Um sorriso estranho retorcia sua boca.
— Filha querida! — disse ele, em tom sigiloso — descobri que posso ouvir a voz dos deuses. E, se assim é, certamente também possuo dons divinos. Sinto que conseguirei ser como o próprio Zeus!
Desnorteada, Tiro se retirou, percebendo que o pai nada poderia fazer por ela. A insanidade envenenava a mente do rei da Élida.
Daquele dia em diante, Salmoneu resolveu imitar Zeus. Mandou construir uma estrada pavimentada de bronze e passava por ela num carro de rodas de cobre, enquanto lançava aos ares tochas de fogo, para que parecessem relâmpagos. Indignados, Zeus o fulminou e o lançou ao Tártaro.
Em meio à confusão que se estabeleceu, Tiro conseguiu fugir e correu para a beira do rio. Logo encontrou as crianças. Ao vê-la, a jumenta partiu em disparada. Tiro pegou os filhos nos braços e fugiu para a cidade de Iolco, na Tessália, onde reinava seu tio Creteu, irmão de Salmoneu.
Creteu recebeu a sobrinha e seus filhos com ternura. Logo se apaixonou e fez dela sua esposa. E foi pai de Mirina, Aeson, Feres e Amitão.
Foi somente depois de crescidos, que os gêmeos Neleu e Pélias, filhos de Poseidon, souberam da história de seu nascimento e de todo o sofrimento por que a mãe passara, nas mãos da madrasta Sídero. Indignados, partiram em busca de vingança.
A chegada dos gêmeos se tornou logo conhecida de todo o povo da Élida e Sídero, com medo da revolta dos dois jovens, fugiu e se refugiou no santuário de Hera. E foi lá que Pélias a encontrou e a matou.
Retornaram à Tessália e Pélias se apossou do trono de Iolco.
Neleu se retirou, então, para a Messênia, onde fundou a cidade de Pilos e se casou com Clóris, a verde, filha de Anfião, aquela única filha de Anfião e Níobe, que sobrevivera ao massacre dos irmãos. Da união de Neleu e Clóris, nasceu Pero, uma jovem de rara beleza.
Amitão, filho do casamento de Tiro com seu tio, escolheu para si uma mulher do povo, Idomeneia, que lhe deu dois filhos. Deu a eles os nomes de Bias e Melampo.
…
| Enfrentando ondas tempestuosas — Tiro (Τυρώ). Por Emmanuel mourão. |
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