Capítulo 47 — O pacto de morte — Linceu(Λυγκεύς) e Hipermnestra(Ὑπερμνήστρα)

 


Capítulo 47 — O pacto de morte — Linceu(Λυγκεύς) e Hipermnestra(Ὑπερμνήστρα)

Olimpo, a Saga dos Deuses 


Linceu(Λυγκεύς) e Hipermnestra(Ὑπερμνήστρα). Por Emmanuel Mourão.


A cidade de Argos(Άργος) preparou a maior festa jamais acontecida antes, em toda a Argólida.


O povo enfeitou as portas de todas as casas e cobriu de flores as ruas por onde os noivos passariam, a caminho do santuário de Apolo Lício(Ἀπόλλων Λύκειος).

Depois da cerimônia, houve fartura de vinhos e frutas e todos, alegres, cantavam e dançavam pelas ruas, louvando os deuses e dando vivas aos noivos.


E, em meio àquela euforia toda, somente Hipermnestra(Ὑπερμνήστρα) não sorria. Os olhos fixos no pai não escondiam o ódio que lhe corroía a alma. A lâmina fria do punhal, comprimido entre seus seios, não deixava que se esquecesse das ordens que recebera e aumentava a revolta de ser obrigada a fazer aquilo que não queria e considerava monstruoso e ilícito. Linceu(Λυγκεύς), seu noivo, estendeu-lhe uma taça de vinho. Ela tentou sorrir.


— Obrigada, Linceu, mas não tenho vontade de beber.


Ele percebeu a nuvem de tristeza que encobria as feições de Hipermnestra.


— O que houve, prima? Não está feliz? Conseguimos a aproximação de nossos pais. Não acha isso maravilhoso?


Ela concordou com a cabeça, mas sentiu que, se falasse alguma coisa, iria explodir em lágrimas. Apenas segurou a mão de Linceu e apertou-as entre as suas.


Um rumor mais adiante chamou sua atenção. O primeiro casal se despedia de todos, em meio a risos e festejos. Depois, de mãos dadas, os noivos seguiram em direção a sua nova casa, na colina. O olhar de Hipermnestra encontrou, por instantes, os olhos da irmã que partia. Eles fugiram, assustados, e a mão da moça apertou, aflita, o decote franzido da veste muito branca.


— Ela traz o punhal — pensou Hipermnestra — e irá matá-lo.


Olhou rapidamente as irmãs que também já se despediam dos convidados. Viu em todas elas o mesmo olhar medroso, o mesmo jeito de quem esconde alguma coisa.


— Céus! — pensou ela novamente. — Todas elas vão fazer exatamente o que papai mandou!


Segurou com força o braço do noivo.


— Vamos, Linceu, a festa já acabou...


                                                                                


Entraram na casa da colina, uma das cinquenta que foram construídas especialmente para as filhas do rei da Argólida, que o povo chamava carinhosamente de danaides. Pelo caminho, passaram por Dânao(Δαναός), e Linceu não deixou de perceber o olhar raivoso que ele despejou na filha.


— O que houve com seu pai, Hipermnestra? Parece aborrecido com você.


— Talvez esteja mesmo, Linceu. Eu não sou como minhas irmãs que morrem de medo dele e não discutem suas ordens.


Linceu acendeu as lamparinas e a luz trêmula e avermelhada deu ao quarto um aspecto lúgubre. Um arrepio sacudiu o corpo de Hipermnestra e ela procurou afastar da mente a lembrança de que suas irmãs, naquele momento, estariam usando em silêncio o frio punhal.


A mão de Linceu pousou em seu ombro. A moça recuou rapidamente.


— O que houve, Hipermnestra? Por que foge de mim?


Ela não respondeu. Apenas se colou à parede e ficou, de longe, olhando para o noivo perplexo. A lâmina do punhal queimava sua pele. Enfiou a mão pelo decote e soltou os cordões que o prendiam. O punhal caiu sobre o chão de pedra com um ruído de sino e a veste frouxa escorregou de seus ombros até a cintura. Sentiu os olhos do noivo percorrerem seus seios nus e um calor suave foi chegando e aquecendo seu corpo gelado. As palavras de Dânao ecoaram em sua mente:


— “Não quero que nenhuma das minhas filhas chegue a pertencer a um filho de Egito!”


Deu um passo à frente e soltou os cordões da cintura. A veste caiu no chão e escondeu o brilho do punhal. Linceu puxou-a para si e percorreu com as mãos todas as curvas de seu corpo. Depois suspendeu-a como quem carrega uma criança e deitou-a suavemente no leito macio.


Hipermnestra se esqueceu do pai, das irmãs, dos crimes monstruosos que estariam sendo cometidos naquele momento e deixou o amor chegar com todo o impacto daquele primeiro encontro.


No dia seguinte, antes do sol raiar, acordou Linceu, colocou o dedo nos lábios pedindo silêncio e fugiu, puxando-o pela mão.


                                                                                


Muito tempo depois, Linceu e Hipermnestra voltaram à Argólida. Chegaram quietos, no meio da noite. Cego de ódio pela morte de seus irmãos, Linceu deslizou através da escuridão e liquidou Dânao e as quarenta e nove danaides, que foram condenadas a permanecer no Hades(Άδης), por toda a eternidade, enchendo de água um tonel sem fundos.

                                                                                

                                                                                


Ato de coragem e luz divina. Linceu(Λυγκεύς) e Hipermnestra(Ὑπερμνήστρα). Por Emmanuel Mourão.



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