Capítulo 46 — Conflito em família — Dânao(Δαναός) e Egito(Αίγυπτος)



Capítulo 46 — Conflito em família — Dânao(Δαναός) e Egito(Ἰσμήνη)

Olimpo, a Saga dos Deuses 


Dânao(Δαναός) e Egito(Αίγυπτος). Por Emmanuel Mourão.




Adrasto(Δαναός) descendia de Belo(Βήλος), tio de Cadmos(Κάδμος), que se casara com Anquínoe(Ἀγχινόη), filha do rio Nilo.

Anquínoe deu a Belo os gêmeos Dânao(Δαναός) e Egito(Αίγυπτος), que cresceram em meio a um ódio mútuo e inexplicável. Por mais que fizessem, seus pais jamais conseguiram que os meninos se tolerassem um ao outro e sua maior preocupação era que um dia viessem a se destruir.


Dânao teve cinquenta filhas, com várias mulheres e, curiosamente, Egito teve cinquenta filhos, também com inúmeras mães. Com medo que o ódio de Egito pudesse prejudicar suas indefesas filhas, Dânao fugiu com elas para a Argólida, onde reinava Gelanor(Γελάνωρ).

Ao saber da chegada de Dânao com aquele exército de filhas, Gelanor o chamou imediatamente à sua presença. Nunca ninguém soube sobre o que conversaram, durante as longas horas em que ficaram fechados a sós, na sala de audiências.

Enquanto isso, o povo reuniu-se em volta do castelo, curioso com a chegada daquele misterioso viajante, que viera trazendo consigo cinquenta belas moças, que mais se pareciam com as ninfas dos rios e das florestas. Entre sussurros e cochichos, procuravam saciar sua curiosidade.

— Quem será ele?

— De onde veio?

— Por que trouxe consigo as ninfas das florestas?

— Acho que é um deus...

— Um deles? Qual deles?

— Talvez o filho de um deus. Quem sabe de Apolo(Ἀπόλλων)?

— O filho de Apolo chegou, trazendo as ninfas das florestas!

— Estará ele querendo para si o trono da Argólida?

— Nosso futuro rei é filho de Apolo!

— Que sinal Apolo nos dará, para sabermos se realmente enviou seu filho para nos governar?

— Pobre criança — resmungou ele, vendo a moça desaparecer numa curva da estrada.

Preocupada com o forasteiro, a multidão não viu que um lobo invadiu a cidade e atacou um rebanho, matando o touro. Vendo nisso o sinal pedido a Apolo, o povo destronou Gelanor e entregou a coroa a Dânao.


Quando o chamavam de filho de Apolo, Dânao apenas sorria.


— Afinal de contas — disse ele às filhas, em tom maroto — para que desapontar o povo que me escolheu com tanto calor?


Dânao fundou a cidade de Argos, onde fez um santuário para Apolo Lício, ou seja, Apolo, deus-lobo.


Os cinquenta filhos de Egito, com saudades das primas com quem conviviam pacificamente, apesar do ódio dos pais, logo se mostraram aflitos com a partida das moças. Reuniram-se todos em volta do pai.


— Pai — disse um deles — crescemos ao lado de nossas primas e agora, que elas se foram, sentimos uma falta imensa e uma dor insuportável.


Egito ergueu as sobrancelhas.


— Ora essa! Que culpa tenho eu se o idiota do meu irmão resolveu levá-las embora? Também lastimo, pois apesar de filhas de Dânao, são moças encantadoras e dignas do meu afeto.


— Pai, — pediu outro filho — gostaríamos que procurasse Dânao para um acordo de paz.


— Paz! — explodiu Egito — Como poderá haver paz entre Dânao e eu?


— Calma, pai! Não acha que chegou a hora de pôr um fim a essa desavença ridícula? Pense um pouco em nós, por favor!


— Pai, escute nossa sugestão. Envie um mensageiro à Argólida com uma proposta de paz, pedindo, em seu nome, a mão de suas sobrinhas em casamento para seus filhos. Se Dânao aceitar, haverá uma grande oportunidade de iniciarmos um relacionamento amistoso e merecido, depois de tantos anos de brigas. Se ele não aceitar, prometemos nunca mais insistir num pedido desta natureza.


Egito pensou muito, antes de resolver. Mas acabou cedendo à pressão dos cinquenta filhos e enviou um mensageiro à cidade de Argos.


                                                                                


Dânao ouviu a proposta do mensageiro com atenção. Depois pediu-lhe que esperasse, enquanto consultava as filhas.


Fechou-se com elas num dos salões do castelo e falou:


— Minhas filhas, todas vocês sabem que fugi para a Argólida com medo que seu tio, Egito, pudesse prejudicá-las de alguma maneira, aproveitando-se de sua fraqueza feminina. O ódio mútuo que nutrimos, desde crianças, um pelo outro, não pode ter desaparecido assim, sem mais nem menos. Egito enviou um mensageiro com uma proposta de paz e um pedido de casamento, para unir nossas famílias. Não acredito nesta proposta de paz. Egito sabe que ocupo o trono da Argólida, na certa, quer ocupar o meu lugar. Pretendo acabar com isto de uma vez. Ele mesmo preparou seu próprio destino e o de seus cinquenta filhos. Vou aceitar o pedido de casamento e ceder vocês a seus primos.


Um rumor de espanto encheu o salão. Dânao estendeu as mãos, pedindo silêncio.


— Ouçam bem o que vou dizer agora: Todas receberão um punhal e, na noite de núpcias, antes que seus esposos as toquem, irão assassiná-los sem misericórdia.


Outro zum-zum pelo ar, misturado aos olhares atônitos das moças. Uma delas se adiantou.


— Pai, — disse ela — por que devemos matar nossos primos, que nunca nos fizeram nenhum mal? Eles não têm culpa do ódio que você e nosso tio nutrem um pelo outro, desde crianças.


O rosto de Dânao se tingiu de púrpura.


— Como se atreve a contestar uma ordem de seu pai, Hipermnestra(Ὑπερμνήστρα)? As filhas devem apenas obedecer. Aos pais cabem as decisões!


— Mas, pai, isto é um absurdo! Não liquidaremos nossos primos! Não podemos fazer isso!


— Cale-se Hipermnestra! Vocês vão fazer o que mandei e não admito contestações! Espero que tenham compreendido bem minhas instruções. Vocês eliminarão seus esposos, antes que eles as toquem. Não quero que nenhuma das minhas filhas chegue a pertencer a um filho de Egito!


E, pouco depois, o mensageiro retornava com as boas novas:


Dânao aceitara o acordo de paz e concedia a mão de suas cinquenta filhas aos cinquenta filhos de Egito.


                                                                                

Conflito em família — Dânao(Δαναός) e Egito(Αίγυπτος). Por Emmanuel Mourão.


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