Preocupada com o forasteiro, a multidão não viu que um lobo invadiu a cidade e atacou um rebanho, matando o touro. Vendo nisso o sinal pedido a Apolo, o povo destronou Gelanor e entregou a coroa a Dânao.
Quando o chamavam de filho de Apolo, Dânao apenas sorria.
— Afinal de contas — disse ele às filhas, em tom maroto — para que desapontar o povo que me escolheu com tanto calor?
Dânao fundou a cidade de Argos, onde fez um santuário para Apolo Lício, ou seja, Apolo, deus-lobo.
Os cinquenta filhos de Egito, com saudades das primas com quem conviviam pacificamente, apesar do ódio dos pais, logo se mostraram aflitos com a partida das moças. Reuniram-se todos em volta do pai.
— Pai — disse um deles — crescemos ao lado de nossas primas e agora, que elas se foram, sentimos uma falta imensa e uma dor insuportável.
Egito ergueu as sobrancelhas.
— Ora essa! Que culpa tenho eu se o idiota do meu irmão resolveu levá-las embora? Também lastimo, pois apesar de filhas de Dânao, são moças encantadoras e dignas do meu afeto.
— Pai, — pediu outro filho — gostaríamos que procurasse Dânao para um acordo de paz.
— Paz! — explodiu Egito — Como poderá haver paz entre Dânao e eu?
— Calma, pai! Não acha que chegou a hora de pôr um fim a essa desavença ridícula? Pense um pouco em nós, por favor!
— Pai, escute nossa sugestão. Envie um mensageiro à Argólida com uma proposta de paz, pedindo, em seu nome, a mão de suas sobrinhas em casamento para seus filhos. Se Dânao aceitar, haverá uma grande oportunidade de iniciarmos um relacionamento amistoso e merecido, depois de tantos anos de brigas. Se ele não aceitar, prometemos nunca mais insistir num pedido desta natureza.
Egito pensou muito, antes de resolver. Mas acabou cedendo à pressão dos cinquenta filhos e enviou um mensageiro à cidade de Argos.
…
Dânao ouviu a proposta do mensageiro com atenção. Depois pediu-lhe que esperasse, enquanto consultava as filhas.
Fechou-se com elas num dos salões do castelo e falou:
— Minhas filhas, todas vocês sabem que fugi para a Argólida com medo que seu tio, Egito, pudesse prejudicá-las de alguma maneira, aproveitando-se de sua fraqueza feminina. O ódio mútuo que nutrimos, desde crianças, um pelo outro, não pode ter desaparecido assim, sem mais nem menos. Egito enviou um mensageiro com uma proposta de paz e um pedido de casamento, para unir nossas famílias. Não acredito nesta proposta de paz. Egito sabe que ocupo o trono da Argólida, na certa, quer ocupar o meu lugar. Pretendo acabar com isto de uma vez. Ele mesmo preparou seu próprio destino e o de seus cinquenta filhos. Vou aceitar o pedido de casamento e ceder vocês a seus primos.
Um rumor de espanto encheu o salão. Dânao estendeu as mãos, pedindo silêncio.
— Ouçam bem o que vou dizer agora: Todas receberão um punhal e, na noite de núpcias, antes que seus esposos as toquem, irão assassiná-los sem misericórdia.
Outro zum-zum pelo ar, misturado aos olhares atônitos das moças. Uma delas se adiantou.
— Pai, — disse ela — por que devemos matar nossos primos, que nunca nos fizeram nenhum mal? Eles não têm culpa do ódio que você e nosso tio nutrem um pelo outro, desde crianças.
O rosto de Dânao se tingiu de púrpura.
— Como se atreve a contestar uma ordem de seu pai, Hipermnestra(Ὑπερμνήστρα)? As filhas devem apenas obedecer. Aos pais cabem as decisões!
— Mas, pai, isto é um absurdo! Não liquidaremos nossos primos! Não podemos fazer isso!
— Cale-se Hipermnestra! Vocês vão fazer o que mandei e não admito contestações! Espero que tenham compreendido bem minhas instruções. Vocês eliminarão seus esposos, antes que eles as toquem. Não quero que nenhuma das minhas filhas chegue a pertencer a um filho de Egito!
E, pouco depois, o mensageiro retornava com as boas novas:
Dânao aceitara o acordo de paz e concedia a mão de suas cinquenta filhas aos cinquenta filhos de Egito.
…
| Conflito em família — Dânao(Δαναός) e Egito(Αίγυπτος). Por Emmanuel Mourão. |
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