Capítulo 20 — O Mestre das Águas/Senhor dos Mares — Poseidon(Ποσειδῶν)
Olimpo, a Saga dos Deuses
As divindades marinhas não conseguiam esconder sua curiosidade. Por que teria Zeus(Ζεύς) chamado Poseidon(Ποσειδῶν) ao Olimpo?
Ao chamado do Senhor do Olimpo, o rei dos oceanos deixou seu palácio encantado que se erguia sobre colunas de corais, no meio do magnífico jardim ornado de plantas marítimas e, segurando o pesado tridente, subiu em sua carruagem puxada por quatro imponentes corcéis e partiu através das águas, seguindo por uma incrível escolta de golfinhos e monstros marinhos.
As três mil Oceânides(Ὠκεανίδες), filhas de Oceano(Ὠκεανὸς) e Tétis(Τηθύς), aproximaram-se alvoroçadas. À frente, vinham Electra(Ηλέκτρα), Dóris(Δωρίς), Calírroe(Καλλιρρόη), Dione(Διώνη), Plutó(Πλουτώ), Europa(Εὐρώπη), Climene(Κλυμένη), Eurínome(Εὐρυνόμη), Calipso(Καλυψώ) e Estige(Στύξ).
Pontos, o mar filho de Gaia(Γαῖα), espirrou suas alvas espumas para o alto, procurando seguir Poseidon em sua corrida para o Olimpo, mas elas apenas deram uma volta no ar e caíram na praia, formando pequenos flocos brancos que logo foram absorvidos pela areia.
Houve uma época muito remota em que Pontos(Πόντος) gerou sozinho Nereu(Νηρεύς), o velho do mar e depois, encharcando Gaia(Γαῖα) com sua espuma branca, engendrou outras divindades — Taumas(Θαύμας), Fórcis(Φόρκυς), Ceto(Κητώ) e Euríbia(Ευρυβία),. Da união de Fórcis e Ceto nasceram as Greias(Γραῖαι) e as Górgonas(Γοργών). As Greias, Ênio(Ἐνυώ), Pefredo(Πεφρηδώ) e Dino(Δεινώ), já nasceram velhas e pavorosas e só tinham um olho e um dente para as três. Logo fugiram para o País da Noite, onde Hélios(Ἥλιος) jamais chegava e, ocultas numa gruta imunda, disputavam aos gritos o único olho e o único dente que possuíam.
As Górgonas(Γοργών) também eram três: Esteno(Σθενώ), Euríale(Εὐρυάλη) e Medusa(Μέδουσα). As duas primeiras eram seres monstruosos; tinham serpentes em lugar de cabelos, presas afiadas, mãos de bronze e asas de ouro. Seus olhos lançavam chamas e transformavam em pedra aquele que as olhasse nem que fosse apenas por um segundo. Mas a Medusa era bela. Seus cabelos longos e lisos eram admirados e invejados por suas repelentes irmãs, que procuravam escondê-la de todos. Mas Poseidon a viu e logo enamorou-se. Vendo que não conseguiria aproximar-se de sua amada, metamorfoseou-se em um pássaro, carregou-a e ocultou-a no Templo de Athena e lá cobriu com seu amor.
Athena(Ἀθάνα), vendo a linda moça cantarolando, feliz, em seu Templo, transformou-se em uma anciã e aproximou-se dela.
— Quem é você, menina? — perguntou a velha.
— Sou Medusa, — respondeu ela, empertigando-se toda — a preferida de Poseidon. E o que faz aqui, bondosa anciã?
— O Templo de Athena é a minha morada — respondeu a deusa. Medusa olhou em volta.
— E onde está Athena? Ainda não a vi em seu Templo. Estará ela se descuidando de sua divina morada, talvez à procura de alguém que lhe aqueça o leito?
A anciã apertou os olhos, indignada.
— Athena jamais se esqueceria de seus deveres. É guerreira, mas também é deusa.
Medusa deu uma risada.
— Não discuto isto, minha boa velhinha. Ela é guerreira, é deusa e é virgem. Não será bela o suficiente para encontrar quem a ame? Olhe para mim! Minha beleza atraiu Poseidon quando me viu pela primeira vez. Isto acontece sempre às mulheres belas. Sua deusa, portanto, não deve possuir muito encantos.
Furiosa, Athena deixou ver sua real aparência. Medusa arregalou os olhos, mas nada pode fazer. Um gesto da deusa paralisou-a por instantes e uma transformação rápida modificou seu rosto e seu corpo. Em poucos momentos, Medusa se tornou igual às suas duas irmãs. Horrorizada, fugiu do Templo de Athena e foi para o extremo ocidente, à procura das duas outras Górgonas que moravam perto do Jardim das Hesperídes(Ἑσπερίδες) — as Filhas da Noite -, que tinham a missão de cuidar das maçãs de ouro, com que Gaia presenteara Hera(Ἥρα), no dia de seu casamento com Zeus.
Taumas, outra divindade, filho de Pontos e Gaia, uniu-se à Oceânida Electra e foi o pai de Iris(Ἶρις), a mensageira alada dos deuses, que se vestia com as cores do arco-íris, e das três Harpias(Άρπυιες) — Celeno(Κελαινώ), a Obscuridade, Aelo(Ἀελλώ), a Tempestade e Ocitopete(Ὠκυπέτη), a Veloz. Eram velhas e horrorosas. Do corpo de abutre pendiam peitos murchos, o bico e as unhas imensas e aduncas davam a elas um aspecto monstruoso. Pousavam nas iguarias dos banquetes, espalhando por tudo um cheiro tão infecto que ninguém mais conseguia comer. Escolheram por morada o vestíbulo dos Infernos, embora algumas vezes fossem vistas esvoaçando com estardalhaço sobre as Ilhas Estrófades, no Mar Egeu.
Nereu(Νηρεύς), o velho do mar, casou-se com a Oceânida Dóris(Δωρίς) e desta união nasceram as nereidas Anfitrite(Ἀμφιτρίτη), Tétis(Τηθύς), Galatéia(Γαλάτεια), Dinâmene(Δuvαμένη), Psâmate(Ψαμάθη) e Nérites(Νηρίτης).
Gaia, amada por Poseidon, gerou Anteu(Ἀνταῖος), gigante monstruoso que tinha o dom de recuperar suas forças sempre que tocava com os pés a Terra, sua mãe.
Poseidon amou também a ninfa Toossa(Θόωσα), filha de Fórcis(Φόρκυς), e com ela gerou o Cíclope Polifemo(Πολύφημος), que se apaixonou pela linda nereida Galatéia(Γαλάτεια). Ela, porém, morria de amores por Acis(Ἀκίς), o pastor. Repudiado, Polifemo começou a perseguir implacavelmente o jovem pastor, atirando-lhe rochedos. Para fugir do Cíclope, Acis se transformou em rio e Galatéia procurou abrigo entre suas irmãs, as nereidas.
Um dia, estavam elas dançando e cantando, despreocupadamente, quando foram vistas por Poseidon. Seu olhar se deteve em Anfitrite e seu coração foi tomado por ânsias de amor. Procurou-a, mas a nereida, assustada, fugiu e se escondeu nas profundezas do oceano. Inconformado, Poseidon ordenou aos golfinhos que a procurassem. Pouco depois, os golfinhos a trouxeram para os braços do senhor dos mares. Deste dia em diante, Anfitrite passou a governar o povo marinho, ao lado de seu esposo. Desse amor nasceu Tritão(Τρίτων). Meio jovem, meio peixe, tomou para si o encargo de serenar as vagas agitadas do mar. Reproduziu-se e em pouco eram muitos os tritões que viajavam sobre as ondas em carros atrelados por estranhos cavalos, cujas patas terminavam em pinças de caranguejo. Nas mãos, levavam tridentes que faiscavam ao toque dos raios do sol.
...
As nereidas, curiosas, cochichavam entre si:
— Zeus chamou Poseidon às pressas!
— Por que será?
Sacudiam as cabeleiras coloridas.
— Ninguém sabe!... Ninguém sabe!
Chamaram a oceânide Eurínome que, distraída, prendia conchas no cinto largo que segurava suas vestes frouxas. Ela se aproximou com uma interrogação nos olhos muito azuis.
— Por que Zeus chamou Poseidon? — perguntaram as nereidas, quase ao mesmo tempo.
Eurínome sacudiu os ombros.
— Não sei... Assuntos de rei, creio.
Outras oceânidas foram se chegando, lentamente.
— Por que não esperam Poseidon voltar? — perguntou Dione — Certamente irá nos contar alguma coisa.
— E como pode ter tanta certeza? — retrucou a nereida Galatéia — Talvez não nos conte nada.
— Já sei! — exclamou outra nereida, que até então se mantivera calada
— Vamos perguntar a Proteu(Πρωτέας). Ele tem o dom da adivinhação, poderá nos adiantar alguma coisa. —
Proteu? — falou Dione — Aquele velho rabugento? Sabe muito bem que ele não gosta de usar seus poderes para nada.
— Mesmo assim, não custa tentar.
Encontraram Proteu recolhendo as focas de Poseidon. Tão distraído estava que nem viu as moças chegarem.
— Proteu! — chamou Eurínome — Precisamos de seus favores.
O velho fixou nela os olhinhos muito redondos.
— Diga-nos, Proteu, o que foi Poseidon fazer no Olimpo?
Proteu fez uma careta, encolheu-se todo e se transformou numa foca.
Dione deu uma gargalhada.
— Viram? Bem disse que de nada adiantaria falar com ele! Proteu detesta interrogatórios e sempre se livra deles se metamorfoseando em algum animal.
As moças se entreolharam, desapontadas.
— E agora?
— O jeito é esperar Poseidon chegar.
A foca sacudiu-se toda e voltou a ser o velho Proteu, que despejou nas jovens um olhar cheio de censuras. Depois voltou a reunir seu inusitado rebanho.
Eidoteia(Ειδοθέα), filha de Proteu, chegou naquele momento. Ao ver as nereidas e as oceânidas reunidas em torno de seu pai, logo adivinhou que procuravam com ele alguma informação. Ao vê-la, as moças se animaram.
— Vá, Eidoteia, fale com seu pai! Peça a ele para nos dizer o que é que Zeus quer com o nosso rei. Você é a única pessoa que Proteu escuta. Por favor, Eidoteia!
Eidoteia suspirou.
— Pai — disse ela, tocando de leve o ombro de Proteu. — Por que não atende ao pedido delas?
Imediatamente Proteu metamorfoseou-se em um leão.
— Pare com isso, papai! Vamos, responda!
E o velho foi se transformando sucessivamente em serpente, pantera e javali.
— Papai! — estrilou Eidoteia— Não faça mais isto! Ficarei furiosa se não der sua resposta.
Desta vez ele apareceu como uma árvore.
— Que coisa feia, meu pai! Vamos, fale comigo ou irei embora para sempre.
Por fim, o velho capitulou. Transformou-se ainda em água, mas logo voltou à sua aparência real. Fungou e pigarreou. Depois fechou os olhos e vasculhou sua tela mental. Resmungou, afinal:
— Zeus fala em purificação. Purificação pela água!
— E o que mais diz ele, meu pai? — insistiu Eidoteia — Quem vai ser purificado?
— O mundo! — disse ele, enrolando as palavras — O mundo será purificado pelas águas. Muitas águas, muitas chuvas e toda a ira de Poseidon!
— Não pode ser! — exclamou a oceânida Climene, mãe de Prometeu — Se isto acontecer, os homens serão todos destruídos! Meu pobre filho irá sofrer tanto!
Dione olhou-a, espantada.
— Será mesmo? Irão destruir os homens?
A nereida Calipso aproximou-se, lânguida e linda.
— Que pena!... Os homens são tão interessantes, tão belos, tão diferentes dos feios seres do mar. Que pena!
...
Quando Poseidon chegou, encontrou seus súditos agitados. As palavras de Proteu já tinham chegado aos ouvidos de todos.
Poseidon os reuniu numa imensa clareira iluminada pelos raios de sol que, atravessando a água cristalina, faziam com que os grãos de areia do fundo brilhassem como minúsculas pedras preciosas. A seu lado, Anfitrite, esbelta e altiva, deixava transparecer no rosto belo uma sombra de apreensão. Poseidon estendeu os braços e todos ficaram em silêncio.
— Povo do mar! As instruções de Zeus foram bem claras. Dentro de sete luas os relâmpagos riscarão os céus. Esse será o sinal! Junto com as chuvas torrenciais que cairão sobre a Terra, faremos crescer e transbordar toda a água dos ocenos e dos rios e apenas os picos das mais altas montanhas ficarão descobertos. Somente quando a chuva cessar e Hélio surgir outra vez em sua carruagem de fogo, poderemos fazer descer as águas e deixar surgir a Terra. Esta é a vontade de Zeus, o supremo Senhor do Olimpo!
...
Deucalião dava os últimos retoques na imensa barca que construíra, em pouco tempo, contando apenas com o auxílio de Pirra. As instruções haviam chegado na primeira noite após a chegada da moça. Pela manhã, ela o procurara, nervosa.
— Deucalião, tive outro sonho com Gaia! Ela me disse que você deve construir uma grande embarcação, capaz de levar um casal de animais de cada espécie. E disse também que você precisa se apressar. Deucalião não pensou duas vezes. Alguma coisa em seu íntimo mostrou que ela tinha razão.
Agora, com a barca pronta, aguardavam um novo aviso. Este chegou também em sonhos.
— Deucalião — disse Pirra — chegou a hora. Reúna os animais. Gaia me falou que os relâmpagos serão o sinal de que tudo começou.
Olhou para o alto, onde negras e ameaçadoras nuvens já cobriam quase todo o azul do firmamento.
Deucalião, aflito, procurou a mãe.
— Venha conosco, minha mãe! — pediu, quase chorando — Entre em nossa barca, por favor!
Ela abraçou-o com ternura.
— Não, meu filho. Meu lugar é aqui e não em meio às suas loucas fantasias.
— Não é fantasia! — insistiu ele — Gaia falou à Pirra! Acredite em nós!
Ela balançou a cabeça e desprendeu-se dos braços do filho.
— Não, Deucalião! Fiquem vocês com a barca, que eu vou procurar alimentos para nossa refeição de hoje. Fantasias não matam a fome, rapaz!
Deucalião ainda tentou chamá-la. Com os olhos turvos, viu sua silhueta magra e alquebrada desaparecer atrás de uma colina. Ficou com o olhar pregado onde vira a mãe pela última vez, até que o chamado de Pirra o trouxe à realidade.
— Deucalião! Ajude-me com os animais! O céu está negro!
Deucalião secou as lágrimas com as costas da mão e correu para a barca. No céu, o primeiro relâmpago riscou a escuridão com um imenso e sinuoso traço de fogo.
...
Prometeu, horrorizado, viu os relâmpagos de Zeus varando as nuvens de chuva, fazendo jorrar sobre a terra uma densa cortina de água. O fundo do mar tremeu, tangindo violentamente pelo pesado tridente de Poseidon. E as águas começaram a subir.
— Eles vão todos morrer! — gemeu Prometeu — É o fim de tudo!
Podia ver os homens correndo como formigas assustadas, procurando escapar das vagas encapeladas que se erguiam assustadoramente e desabavam sobre as casas mais próximas das praias.
— Subam para as montanhas! — gritava Prometeu, inutilmente.
Os homens não o ouviam. Acostumados às planícies, acreditavam que os montes eram habitados pelos deuses e toda a sua corte celestial, e o peso de seus erros era tanto que não os deixava subir às divinas moradas. Vendo a ameaça das águas, alguns chegaram a tentar uma escalada, mas uma força imperiosa os trouxe de volta ao solo molhado.
A noite se confundiu com o dia e Prometeu não pode mais contar as luas. O mar rugia estrondosamente, a água do oceano misturou-se com a dos rios e as mais altas árvores já estavam cobertas.
Prometeu sacudiu debilmente a cabeça e olhou a águia que se aproximava.
— Por que não devora meus olhos e poupa-me da visão deste espetáculo horrendo?
As águas subiam lentamente e Prometeu sentia na pele os respingos gelados das ondas mais fortes. As lágrimas jorravam de seus olhos e mergulhavam no mar já próximo de seus pés.
O corpo de uma criança veio chegando, trazido pela correnteza, esbarrou em suas pernas, desviou-se e seguiu seu caminho através de seu infinito túmulo de um azul profundo. Prometeu deu um grito de agonia e fechou os olhos.
— Não quero ver mais nada!
Deixou a cabeça tombar sobre o peito e procurou o alívio da inconsciência.
Não viu quando a barca passou ao longe, arrastada pelas águas, e os chamados aflitos do filho que não conhecia foram abafadas pelo ronco furioso do mar.
Quando abriu os olhos, os tritões passeavam pelas águas, acalmando-as com seus tridentes dourados, e o primeiro raio de sol se espremia entre as nuvens densas, deixando na escura superfície líquida uma resplandecente gota de ouro.
...
Comentários
Postar um comentário