Capitulo 6 — O benfeitor da humanidade — Prometeus(Προμηθεύς)

 

Capitulo 6 — O benfeitor da humanidade — Prometeus(Προμηθεύς)

Olimpo, a Saga dos Deuses 


 Prometeus(Προμηθεύς). Por Emmanuel Mourão.



Os deuses se perguntavam porque Prometeus(Προμηθεύς) vivia escondido naquela gruta e, quando raramente aparecia, vinha sempre pensativo e distraído, como que procurando a solução para algum difícil problema.


Um dia, Zeus(Ζεύς) não suportou mais a curiosidade e seguiu-o. Ficou algum tempo do lado de fora da gruta, procurando perceber os movimentos de Prometeus. Nada, silêncio total. 

Resolveu entrar. Viu, Prometeus, no fundo da gruta misturava materiais, viu quando o mesmo tomou um pouco de argila e, misturando-a com água, fez uma perfeita figura masculina à imagem e semelhança dos deuses. Deu-lhe o porte ereto, de maneira que, enquanto os outros animais têm o resto voltado para baixo, olhando a terra, aquele ser podia levantar a cabeça para o céu e olha as estrelas.

Ajoelhado a seu lado, Prometeus contemplava a figura, embevecido. Tão distraído estava que nem percebeu a chegada de Zeus. Só o viu quando o supremo senhor do Olimpo chegou a seu lado. 

Estremeceu e voltou de sua abstração. Levantou-se, confuso.

— Zeus!... O que o traz aqui?

Zeus não despregava os olhos do boneco de argila.

— Quis saber em que ocupa todos os seus dias. O que é isto?

E apontou para a figura.

— Zeus, não sei se aprovará meus atos ou não. Mas preciso tentar. Desde criança, sempre tive um sonho, que pretendo realizar. Gostaria de criar um ser material, capaz de assumir o comando do mundo físico. Consegui dar forma a este ser. Provi-o de todo um equipamento, bastante perfeito, capaz de captar todas as informações do mundo material, e também capaz de fazê-lo agir, de acordo com a informação recebida. Mas não consigo dar-lhe vida. E aí jaz um ser material perfeito, completamente inerte e inútil.

Zeus olhou-o fixamente.

— Como ousou iniciar este empreendimento sem me consultar? Jamais permitiria a criação de um ser físico! O mundo material também pertence aos deuses!

Prometeus abaixou a cabeça, constrangido. Zeus calou-se e pensou um pouco. A expressão irritada de seu rosto logo se dissolveu.

— Prometeus — disse ele, desta vez com brandura — sua ideia não é de todo má. Nasci e fui criado no mundo físico, e sempre desejei ter também um corpo material, capaz de trabalhar com as plantas, com a terra e com as pedras. Nosso corpo etéreo limita muito as nossas ações, no mundo físico. Sempre senti essa dificuldade, desde criança, em contato com a cabra Amaltéia, que me aleitou.

Prometeus olhava-o com curiosidade, procurando compreender onde ele pretendia chegar.

— Bem — continuou Zeus — agora tive uma ideia  E se conseguíssemos usar um corpo como este, que você construiu? Poderíamos usá-lo como um veículo de manifestação no plano físico, e abandoná-lo à vontade, sempre que quiséssemos atuar somente no mundo astral. Você acha isto possível?

Prometeus sacudiu a cabeça, desnorteado.

— Não sei... Não havia pensado nisto. Não foi para esta finalidade que construí minha criatura. Mas se é este o seu desejo, poderemos experimentar.

Zeus abriu um largo sorriso.

— E como vamos fazer?

Prometeus pensou um pouco. Depois respondeu, aflito:

— Não faço ideia. Talvez Thêmis(Θέμις) possa nos dizer alguma coisa. Ela conhece o futuro e a magia.

— Você teve uma ótima ideia — concordou Zeus. — Vamos procurar Thêmis e consultar sua sabedoria.

                                                                                    ...

Thêmis, filha de Gaia(Γαῖα) e Urano, era respeitada por todos, graças aos seus conhecimentos mágicos. Diziam que ela os adquirira com as ninfas dos bosques, durante a guerra dos Titãs quando, fugindo dos rumores da batalha, ia ocultar-se sob as árvores frondosas. Agora, no Olimpo, consultava o oráculo e preparava os rituais mágicos.

Zeus e Prometeus foram encontrá-la sentada, em profunda meditação. Mas sua sensibilidade fez com que abrisse os olhos, logo que eles se aproximaram.

— Thêmis — disse Zeus — precisamos de seus sábios conselhos.

— E quem sou eu para aconselhar o supremo senhor do Olimpo?

Zeus sorriu levemente.

— Existem coisas que só são reveladas àqueles que podem ver além do alcance da visão. Por favor, aconselhe-nos.

Thêmis ouviu-o com atenção. Depois fechou os olhos e concentrou-se. 

Algum tempo depois, estremeceu e falou:

— Sua pretensão não só é possível, como necessária. Os deuses precisam atuar em todos os planos. Chegou o momento de um contato mais íntimo com o mundo físico. Prometeus , você e seu irmão Epimeteu(Ἐπιμηθεύς) deverão preparar o mundo para nossa chegada. Primeiramente você deverá criar os mais variados tipos de animais para que possam interagir conosco. Seu irmão Epimeteu deverá assegurar-lhes todas as faculdades necessárias à sua preservação. Por fim você irá moldar tantos corpos quantos forem os deuses do Olimpo. Depois disto, num único ritual, iremos ocupar estes veículos físicos. Vá, Prometeus , faça seu trabalho e depois então volte a me procurar.

                                                                                    ...

Prometeus lançou-se tenazmente à missão que lhe foi confiada. Trabalhava dia e noite, sempre observado por Zeus, que não conseguia esconder sua ansiedade. 

— Vamos Prometeus, só terá este trabalho uma vez. Daí para a frente, esses organismos que usaremos poderão se reproduzir e os novos deuses que nascerem já terão seu corpo material, além do astral.

Prometeus apenas suspirava. Nada dizia, somente trabalhava. Depois de trabalhar por vários dias, deu enfim por concluída a tarefa e quando o último organismo material ficou pronto, voltaram a procurar Thêmis. 

Ela reuniu todos os deuses na gruta de Prometeus, no dia propício, na hora em que Selene, a lua, aparecia enorme e redonda no meio do céu.

Em silêncio, observavam a deusa preparar o ritual. Ela encheu uma cabaça com a água da nascente, reuniu a terra e as cinzas, ateou fogo à madeira seca. Logo a gruta se impregnou do aroma suave das ervas queimadas.

E Thêmis começou a entoar um cântico monótono. Uma vibração forte tomou conta do local e fez estremecer o tom de sua voz. Estendeu os braços para o alto.

— Eu vos convoco, forças dos céus e das águas, da terra e do ar! Seres mágicos que governam a natureza, que se escondem muito além da abóboda do céu, eu vos chamo à minha presença!

Uma brisa correu mais rápida e espalhou a fumaça das ervas. As labaredas dançaram sobre a madeira seca e retorcida e depois, novamente, se acalmaram. A fumaça reorganizou-se e elevou-se numa coluna firme, indo desmanchar-se ao contato com o teto úmido da gruta. E Thêmis continuou:

— Seres dos bosques e das árvores, das pedras e das montanhas, seres que animam a matéria ao suave toque de suas mãos, cheguem-se à presença dos deuses!

Pouco a pouco, foram surgindo seres de formas diversas, pequeninos e imensos, envoltos em luz e opacos, translúcidos e densos. Com respeito, foram formando uma roda em torno dos deuses e dos corpos de argila, enfileirados no chão de terra, um ao lado do outro. Prometeus conseguira reproduzir, na argila, com suas mãos de artista, a figura astral dos deuses e deusas.

— Seres da natureza — continuou Thêmis — aqui estamos reunidos para darmos uma forma física a cada um dos senhores do Olimpo. É da vontade dos deus supremo, Zeus, que os deuses se manifestem em corpos materiais, para melhor atuarem no mundo físico. Unam sua magia aquela que me foi conferida, que o barro se anime, encha-se de vida, torne-se capaz de transformar-se na morada dos deuses, no templo vivo de suas existências astrais!

Os seres da natureza entoaram seus cantos, liberaram a energia com que mantinham a vida vegetal e animal. Em dado momento, os raios surgiram nos céus, os trovões estouraram fazendo tremer a gruta, que se encheu de uma densa nuvem azulada, que tudo ocultou, por instantes. E quando a nuvem azul se desvaneceu, os deuses entreolharam-se, surpresos. Os bonecos de argila haviam desaparecido do chão e seus corpos etéreos abrigavam-se agora em veículos de carne animal, quente e vibrante.

— Como conseguiu isto, Thêmis? — balbuciou Prometeus.

Mas ela não o ouviu, mergulhada ainda em profundo transe. Ergueu novamente suas
mãos, agora humanas.

— Espíritos do ar e da terra, do fogo e da água, sejam os eternos protetores de nossos veículos físicos e velem também por toda a nossa descendência. Deuses do Olimpo, sejam deuses e sejam humanos!

Um a um, os seres da natureza reverenciaram os deuses e partiram silenciosamente. Foi somente depois que o último deles se afastou, que Zeus falou:

— Eis que enfim vejo meu desejo realizado! Podemos agora desfrutar do mundo de matéria, do organismo físico de Gaia.

Acariciou um arbusto esguio que saía da terra úmida e pendia para a saída da gruta, procurando a luz do sol.

— Que maravilha!... Como é diferente a sensação que meus dedos agora me transmitem! Incrível!

E os deuses, curiosos, tocavam as pedras, cheiravam as avencas que brotavam das pedras. E, lá fora, pararam extasiados, sentindo na pele o beijo quente dos raios do sol.

— Sensações! Sensações!... É o que o mundo físico nos transmite!... Sensações!— exclamou Hera, passando de leve o dedo ao longo do braço.

— Olhem! — exclamou Métis, a filha de Oceano(Ὠκεανὸς) e Tétis, cheirando uma flor. — Como é mais intenso o aroma, quando sentido através deste veículo físico! Que coisa espantosa!

Zeus segurou uma rosa e retirou a mão subitamente. Olhou, surpreso, a gota vermelha que se formava no local onde o espinho o ferira. Intuitivamente, levou o dedo à boca e sugou-o. Espantou-se, ao sentir o gosto acre do sangue. Um pássaro voou rasteiro e emitiu um grito agudo. Os deuses estremeceram.

— É ...— disse Zeus, pensativo. — Acredito que teremos que nos adaptar a este novo corpo. Até lá, tudo será apenas uma maravilhosa aprendizagem!

                                                                            ...



Homem(άνθρωπος). Por Emmanuel Mourão.

Comentários