Capítulo 45 — A aflição — Ismênia(Ἰσμήνη)
Antígona(Αντιγόνη) voltou para Tebas sozinha. O tecelão lamentou a morte de Édipo(Οἰδίπους) e, mais ainda, a partida de sua eficiente auxiliar.
— Pobre criança — resmungou ele, vendo a moça desaparecer numa curva da estrada, levando somente uma sacola com mantimentos. — Nunca me disse de onde veio, mas sinto que nasceu em berço de ouro. Terá outros parentes, além do pai que morreu? Que os deuses a protejam!...
Suspirou e voltou para sua casa vazia.
Ismênia(Ισμήνη) recebeu a irmã entre risos e abraços nervosos. Mas, quando ouviu o relato sobre a iluminação e morte de Édipo, o pranto sacudiu seu corpo magro. Correu para o quarto e somente no dia seguinte conseguiu deixar o leito.
Encontrou Antígona no jardim e só então percebeu a lividez do rosto da irmã.
— Antígona, como você está pálida! Está doente, minha irmã?
Antígona sorriu de leve e afagou as mãos de Ismênia.
— Não, querida, estou bem. Apenas cansada da longa e solitária viagem.
Os olhos de Ismênia se encheram de lágrimas.
— Ele sofreu muito? — perguntou debilmente.
— Não... Acho até que ele descobriu a felicidade, Ismênia. Era tão grande a paz que vi em seu rosto, que acredito que ele alcançou os deuses, de alguma maneira.
— Os deuses... — fungou Ismênica — Às vezes nem acredito que existam, realmente. Quem sabe se tudo é apenas uma lenda?
— Eu acredito nos deuses, Ismênia. Naquele instante em que papai se levantou e caminhou firme, sem o bastão, senti uma coisa muito forte, uma espécie de presença que vibrava e modificava até o ar que eu respirava. E, quando ele disse “caminho ao encontro dos deuses”, tenho a certeza de que via alguém, ou algum lugar. Ele viu, Ismênia! Papai viu os deuses!
— Se assim foi, por que então os deuses não restituíram sua visão, em lugar de tirarem sua vida? Papai era um homem maravilhoso, não mereceu sofrer tanto!
— Minha irmã, não acredito que a recuperação da visão física seja um prêmio para aquele que abriu os olhos do espírito para um mundo que nem mesmo nossa imaginação pode conceber. Papai morreu feliz, mas não sei se viveria feliz, retornando à vida de antes e tendo que conviver com lembranças tão dolorosas.
Ismênia ia dizer mais alguma coisa, mas a chegada de Creonte(Κρέων) desviou seus pensamentos.
— Minha querida sobrinha, — disse ele, abraçando Antígona com carinho — espero que fique comigo. Tebas precisa que os filhos de Édipo e Jocasta permaneçam unidos.
Antígona olhou o tio com surpresa. Voltara ao lar, aos irmãos, à família, mas ainda não havia se conscientizado de seu retorno a Tebas, ao reino que o rei abandonara para seguir sua própria dor.
— Tio — balbuciou ela, assumindo aquela realidade — e Tebas? E a peste? E o trono?
— Tebas está bem, recuperando-se da peste já quase toda debelada. Seu pai me confiou o trono, ao partir, mas achei que seus irmãos tinham mais direito a ele do que eu. Entreguei a coroa a Etéocles(Ετεοκλης) por ser o mais velho, mas impus a condição de que, de ano em ano, houvesse um revezamento entre ele e Polínices(Πολυνείκης). E ambos prometeram cumprir o trato.
Antígona franziu o nariz.
— Perdoe-me, tio, mas não acredito que isso vá dar certo. Conheço bem Etéocles e tenho a certeza que ele seria capaz de prometer qualquer coisa para ficar com o trono. Mas não sei se cumprirá a promessa... Acho que terá sérios problemas, meu tio...
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As palavras de Antígona ribombaram na mente de Creonte no exato momento em que Etéocles se recusou a entregar o trono a Polínice, na época combinada.
— Aquela menina nasceu com o dom da profecia — pensou ele.
Quis intervir, mas o exército de Etéocles já havia banido Polínice da cidade. Preocupado, Creonte partiu pelas estradas, com alguns soldados, à procura do sobrinho expatriado, mas não o encontrou. Foi somente muito tempo depois que alguém lhe disse que encontrara Polínice a caminho da Argólida, decidido a pedir o auxílio do rei Adrasto.
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