Capítulo 44 — Contra a progenitura — Antígona(Ἀντιγόνη)
— Por que não paramos um pouco, pai? — perguntou Antígona(Αντιγόνη), vendo que Édipo(Οἰδίπους), se arrastava pela estrada, mal disfarçando a fadiga que lhe tensionava os músculos do rosto.
— Não estou cansado, filha. Posso caminhar bastante, ainda.
— Tem fome, meu pai? — perguntou ela, novamente, explorando o fundo da sacola quase vazia.
— Não se preocupe comigo, Antígona. Trate você de se alimentar. O que tem ainda para comer?
— Um pouco de pão, que nos deu aquele caminhante que ia para Tebas.
— Tebas... — murmurou Édipo. — Tebas... Nunca mais a verei, Tebas.
Antígona pressionou os dedos do pai com os dedos finos.
— Não fale assim, pai. Procure se esquecer daquilo que passou.
— Esquecer-me, filha? Como posso me esquecer da vida feliz que tive em Tebas, junto com sua mãe, Jocasta(Ἰοκάστη), até que a maldita peste se abateu sobre a cidade e acabou por nos destruir a todos. A peste invadiu minha própria alma...
— Pai, por favor, procure não se lembrar mais daquilo. Faça por mim, pai!
Ele se calou. O sol despejava seus raios luminosos, que forravam a estrada com uma poeira dourada.
— Sabe, minha filha, por vezes escutei uma voz que falava comigo, mas nunca descobri de onde vinha.
— Uma voz, pai? Por que nunca me contou isso antes?
Ele sacudiu os ombros e fez um muxoxo.
— Não falei a ninguém. Para quê? Não iriam mesmo acreditar em mim.
— E o que dizia a voz? — perguntou ela, interessada.
— Coisas difíceis de serem compreendidas. Insistia em que eu devia olhar para meu interior. Dizia que eu deveria procurar o valor simbólico de toda a desgraça por que estava passando.
Antígona esfregou os olhos cheios de areia.
— Com certeza era um deus que lhe falava...
Édipo parou de repente, fazendo com que a filha se desequilibrasse.
— Nunca pensei nisso. Seria um deus, Antígona?
Ela não respondeu logo. Pensou um pouco, antes de dizer:
— Acho que somente um deus iria lhe falar dessa maneira, pai.
Ele ficou calado. Continuou a caminhar, as pernas fracas tropeçando a cada instante, e a mente procurando buscar, nos cantos da memória, as palavras que ouvira da voz misteriosa.
…
— Pai, coragem! Estamos entrando em Colona! Ouça as vozes do povo e a arenga dos mercadores.
Édipo aguçou a atenção.
— Que bom, Antígona! Nossa caminhada terminou. Agora poderemos repousar.
Ela olhou em volta, desorientada.
— Precisamos descansar… Pedirei pousada em algum lugar.
Encontraram um tecelão que os abrigou em sua própria casa.
— Fiquem por aqui, viajantes. Moro sozinho desde que minha esposa morreu. Assim a moça me ajudará nos serviços da casa e terei mais tempo para apressar minhas encomendas.
Banharam-se numa enorme tina que o mercador encheu com água fresca várias vezes e depois de saciarem a fome com pão e sopa, adormeceram.
Édipo acordou com o toque da mão de Antígona em seu rosto.
— Pai — disse ela — estive pensando sobre o que me contou. Por que não procura escutar a voz, novamente? Talvez agora compreenda melhor o que ela tem a lhe dizer.
Édipo se sentou, com uma careta. Todo o corpo doía.
— Não é má ideia, filha. Apenas não sei como fazer para ouvir a voz outra vez.
Na escuridão de sua cegueira, ouvia os passos da filha no quarto.
— O que está fazendo?
A voz de Antígona veio de longe.
— Estou limpando e arrumando a casa! Logo irei preparar o almoço. O tecelão saiu para vender seus tecidos.
Édipo ficou calado, pensativo.
— Pai — disse Antígona — por que não vai a um Templo? Quem sabe ouvirá novamente a voz do deus num local santificado?
Descobriram o Templo das Eumênides(Εὐμενίδες), no meio de um bosque magnífico, onde coelhos selvagens e esquilos, confiantes na proteção natural do lugar, não fugiam de ninguém.
Édipo passou por eles, guiado por Antígona. Entraram no Templo, levando lenha de cedro, de amieiro e de cipestre. No vaso reservado ao fogo sagrado, atearam fogo à lenha e nele jogaram cardo, sabugueiro e espinheiro selvagem.
O cheiro acre começou a tomar conta do Templo, inebriando-lhes os sentidos.
— Eumênides, deusas benfeitoras que auxiliam os arrependidos, venham em meu socorro — disse Édipo, com voz rouca — Libertem minha alma da culpa e do remorso de um crime que cometi na mais pura ignorância.
Antígona jogou no fogo narciso e açafrão.
— Livrem o povo de Tebas do mal causado por meu erro involuntário! Sinto-me perseguido pelas Erínias(Ερινύες), suas irmãs, ó Eumênides! Elas me atormentam com a culpa e o remorso. Mas agora estou cego e na escuridão da minha cegueira sinto que o arrependimento me mostra o caminho de seu coração, ó Eumênides!
Calou-se. Um assovio fino chegou dentro de seus ouvidos e dedos invisíveis comprimiram seu crânio. Antígona observava o pai que, mergulhado em seu recolhimento, não reparou que as horas passavam. A tranquilidade do rosto de Édipo fez com que a moça pensasse duas vezes antes de chamá-lo de volta. Mas a noite chegava e precisava cuidar do tecelão.
Na hora de dormir, Édipo segredou-lhe:
— Minha filha, acho que toquei a mente dos deuses. Não ouvi a voz, mas senti uma presença a meu lado, um conforto intenso, uma fortaleza interior que jamais senti antes.
Antígona abraçou-o, comovida.
— Amanhã voltaremos lá. E todos os dias, até que você consiga novamente escutar a voz do deus e, desta vez, possa compreender o significado de suas palavras.
E todos os dias, quando Antígona terminava os afazeres da casa e o tecelão saía para entregar tecidos ou receber novas encomendas, voltavam ao Templo das Eumênides. A vibração era cada dia mais intensa, e tão logo Antígona lançava ao fogo as ervas mágicas, Édipo sentia uma pálida tonteira e a percepção dos sentidos diminuía, dando lugar a uma sensibilidade interior mais aguçada.
Quarenta dias se passaram até que, em meio a um transe profundo, Édipo falou:
— Vejo um túnel em forma de espiral à minha frente e sinto que estou sendo sugado por ele. Meu corpo está leve, imponderável, girando através da espiral… Vejo o final do túnel. É uma clareira no topo de um monte. Uma criança chora… Sei que esta criança sou eu. Vejo um escravo com um gancho nas mãos… Ele crava o gancho nos calcanhares da criança.
Édipo gritou de dor e Antígona afagou sua cabeça. O passado e o presente se entrelaçavam e as sensações se confundiam.
— Dê-me forças, minha filha, pois sinto que a energia de suas mãos alivia a dor do gancho cravado em meus pés. O gancho feriu também a minha alma, que se tornou impossibilitada de compreender a verdade. O corpo aleijado e a alma aleijada… Por isso não pude entender aquilo que a voz me dizia…
Grossas lágrimas escorreram por seu rosto e empaparam a túnica que vestia.
— Quis fugir das Moiras(Μοῖραι), mas não consegui. Meu destino se cumpriu, porque a minha alma aleijada não foi capaz de ter forças suficientes para mudá-lo!
Édipo soluçou convulsivamente. Preocupada, Antígona o tirou do transe com delicadeza.
— Vamos, pai, amanhã voltaremos novamente.
Édipo se deixou levar docilmente, mas, no fundo de sua memória, um recém-nascido soluçava cheio de dor e nem o carinho de Antígona fez com que se calasse.
…
Antes que a fumaça das ervas se estendesse a todo o Templo, Édipo já mergulhara em seu interior. Desta vez, não houve a espiral. Foi lançado à frente de uma carruagem de onde saiu a figura de Laios(Λάιος) que, com gestos lentos e pesados, desferiu em seu rosto um golpe com seu aguilhão. Édipo caiu no chão, com um gemido, mas imediatamente percebeu que se não enfrentasse seu agressor, estaria irremediavelmente condenado à repressão implacável, que se serviria de sua deficiência física e de sua debilidade psíquica. Édipo se ergueu, feroz, e abateu o repressor. Sentiu que algo novo e forte despertava em seu interior e uma tonteira, quase um desmaio, arrancou-o da frente da carruagem e colocou-o aos pés da Esfinge(Σφίγξ), que lançou o enigma mortal:
— “Qual é o ser que, de manhã, anda com quatro pernas, ao meio-dia com duas e à tarde com três e que, contrariando a Natureza, quando se apoia em maior número de pernas, a rapidez se enfraquece em seus membros?”
Édipo ouviu a própria voz responder: “O Homem”. Mas, naquele momento, sentiu que o Enigma da Esfinge o reduzia à condição de animal, movido pelos instintos, irracional. E Édipo compreendeu que o Homem só se eleva acima da animalidade quando está de pé, os pés na terra-Mãe e a cabeça apontando para o firmamento, Urano(Οὐρανός), o Pai Primordial.
Novamente sentiu sua limitação física. Viu-se arrastando sobre quatro membros, durante muito tempo, na infância e sentiu sua incapacidade de estar de pé, ereto, sem o auxílio de sua muleta.
Novamente chorou, mas desta vez Antígona não conseguiu tirá-lo do transe.
Outra tonteira, um mergulho mais fundo e se viu nos braços de Jocasta. Mas agora a consciência de que possuía sua própria mãe fez com que prendesse a respiração. Preparou-se para cair nas garras da culpa, mas, em vez disto, uma sensação cálida brotou em seu coração. E sentiu que os corpos unidos se fundiam em um único ser. Sentiu-se forte, com a mulher interior desperta e consciente, forte como o filho que se torna uno com a Mãe-Terra, que nele desperta a força da Natureza.
O rosto de Tirésias(Τειρησίας) surgiu em sua tela mental, falando sobre a peste que se abatera sobre Tebas. “A culpa é do assassino de Laios!” — disse ele, apontando para Édipo. E, em sua visão interna, Tirésias continuou seu discurso: “Culpa do assassino do Rei, que tomou o seu lugar, mas não soube reinar. A mazela do povo nasceu da fraqueza do seu governo, débil como suas pernas!”
Édipo chorava e Antígona, aflita, procurava chamá-lo à realidade exterior. Mas ele estava muito longe, tão longe que não pôde ouvir os chamados da filha.
Na tela negra que seus olhos lhe mostravam, apareceu Jocasta, pendurada a uma corda. Édipo sentiu que junto com ela morriam seus desejos terrenos, sua vaidade. Rasgou os olhos para não mais ver o mundo físico que o cercava. Cegou os olhos da carne, mas abriu os olhos do espírito. E estes olhos, abertos para o Infinito, lhe mostraram a imagem de Prometeus(Προμηθεύς), amarrado a um rochedo. E a voz conhecida ressoou em seus ouvidos:
— “Venha, Édipo, deixe seus valores terrenos e eleve-se aos céus. Dia virá em que poderá retornar a um corpo físico perfeito e então sua visão interior, agora desperta, lhe ensinará a ser também um deus.”
Antígona viu, surpresa, Édipo levantar-se sem o auxílio do bastão. Caminhou ereto, até a porta do Templo, onde um raio de luz fez brilhar seu rosto molhado de lágrimas. Seus olhos mortos fitaram o céu e uma expressão de intensa alegria se estampou em sua face iluminada.
E ouviu quando ele disse:
— Caminho ao encontro dos deuses e um dia serei um deus, como eles. Receberei então um reinado de glórias, o reinado sobre mim mesmo e sobre o mundo em que viver, esteja ele onde estiver!
Deu mais uns passos e caiu. Antígona curvou-se sobre ele, mas nem conseguiu chorar, porque o vulto de luz que se desprendeu do corpo sem vida do pai emanou uma paz intensa que invadiu sua alma, enchendo-a de uma tranquilidade inebriante. E acompanhou com os olhos a silhueta de luz que se afastava para o Infinito, sumindo atrás de um rochedo enorme que crescia no horizonte.
…
| O lamento pelo irmão caído de Antígona(Ἀντιγόνη). Por Emmanuel Mourão. |
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