Capítulo 43 — O de Pés inchados — Édipo(Οἰδίπους)
Olimpo, a Saga dos Deuses
| Édipo(Οἰδίπους). Por Emmanuel Mourão. |
Laios(Λάιος) tomou por esposa a linda Epicasta, filha de Meneceu(Μενοικεύς), neto de Penteu(Πενθεύς). Em criança, Epicasta recebera o apelido de Jocasta e assim passou a ser chamada pelo povo.
Quando Jocasta(Ἰοκάστη) lhe disse, toda contente, que ia ser mãe, Laios foi a Delfos consultar o oráculo, para saber que destino os deuses haviam reservado para a criança. A sacerdotisa Apolo(Ἀπόλλων) o recebeu em transe profundo, com os braços magros estendidos num vaso enorme, de onde saía a fumaça densa das ervas aromáticas.
Laios a saudou e fez a pergunta:
— Minha esposa, a rainha de Tebas, espera uma criança. Qual o presságio dos deuses?
A mulher ficou calada por instantes e depois respirou fundo. Sua voz se tornou grave e profunda.
— Terás um filho que matará o seu pai e se casará com a própria mãe.
Laios estremeceu. Um frio gelado correu por sua coluna. Esperou um pouco e, como ela nada mais lhe dissesse, voltou-se e partiu.
Quando Jocasta soube da profecia, chorou. Mas era uma rainha as rainhas tinham que ser fortes.
— Meu filho terá que morrer — disse ela, procurando aparentar uma coragem que não tinha. — As parteiras conhecem algumas ervas que interrompem a gravidez.
— Não! — exclamou Laios, abraçando Jocasta com força. — Não tome essas ervas enfeitiçadas. Tenho medo que elas lhe façam mal e jamais venha a conceber outro filho. Talvez o oráculo tenha se enganado e nada de ruim nos aguarde.
O parto foi difícil. Jocasta ajoelhou as forças quando, finalmente, a criança emitiu o primeiro vagido. Laios empurrou as parteiras e pegou o recém-nascido, ainda todo sujo de sangue. Depois fechou os olhos e, com um gemido, devolveu-o às mulheres. Era um menino.
Não deixou que Jocasta visse o filho. Enrolou-o em panos de couro cru. Depois chamou um escravo e entregou-lhe o cesto, dizendo:
— Os presságios dos deuses não são bons para esta criança. Leve-o daqui e liquide-o.
Depois que o escravo partiu, voltou para junto de Jocasta, que repousava sobre cobertas limpas e perfumadas. Ela abriu os olhos e fitou-o, ansiosa.
— Laios, onde está a criança?
Ele segurou suas mãos geladas e beijou-as.
— Era um menino, você já sabia?
Ela assentiu debilmente com a cabeça. Não perguntou mais nada, apenas fechou os olhos e ficou imóvel. Foi somente depois que Laios saiu do quarto, que as lágrimas começaram a escorrer, aos borbotões, pelo rosto belo e cansado.
O escravo levou o cesto para o monte Citéron. Seus pés descalços chutavam os gravetos, pelo caminho, e distraído, resmungava, como se falasse com algum companheiro invisível:
— Não estou gostando nada desta tarefa. Pobre criança, por que precisou nascer?
De vez em quando parava, pousava o cesto no chão e colhia alguns frutos maduros.
— Como pode o rei saber, com certeza, o destino do menino? Não acredito nessas histórias de oráculos...
Quando chegou ao topo do monte, abriu o cesto. Afastou as cobertas e envolveu o bebê que, ávido de fome, agarrou seu dedo e levou-o à boca, sugando com força.
— Pobrezinho... Está com fome, não? Você é tão bonito... Como poderei matá-lo, simplesmente, como quem mata uma ovelha para o almoço? Aliás, nunca matei nenhuma, e hoje, nunca tive coragem...
Olhou de novo para o bebê.
— Acho que vou deixá-lo por aqui mesmo... Pode ser que alguém o encontre e o pegue para criar.
Já ia se afastando, quando se lembrou de alguma coisa e voltou.
— Não posso fazer isto! Se alguém resolver levá-lo de volta para o palácio? Na certa, serei um homem morto... Não tenho coragem de matá-lo, mas também não posso abandoná-lo, simplesmente. Não sei o que fazer!
Uma ideia acendeu em sua mente.
— Já sei... É uma grande maldade, mas é o único meio que encontro de salvar a sua vida.
Arrancou um grande prego que servia de alça para a cesta, afiou uma das pontas numa pedra áspera e segurou os pés rosados do bebê.
— Minha criança, perdoe-me, mas tenho que aleijá-lo. Desta forma, ninguém terá coragem de levá-lo ao palácio e ficará para sempre às vistas do rei.
Perfurou os calcanhares da criança com o gancho e atou seus pés com uma corrente. Depois desceu o monte correndo, respirando fundo para aliviar-se da náusea que sentia no estômago.
Nunca chegara a saber que, amarrado no alto de um rochedo, alguém assistia a tudo.
— Homens... Ah, os homens — suspirou Prometeu(Προμηθεύς). — Eles destroem minha criação e pretendem criar um senhor, mas não vejo grande diferença. São todos ignorantes, não sabem compreender as palavras dos deuses. Pobre criança, ferida e entregue à própria sorte, no entanto, será um excelente rei para Tebas. Quando os homens compreenderem que as profecias existem como um aviso e não como um fardo? Quando irão entender que sua Vontade pode modificar o futuro que foi vaticinado? As vezes penso que os deuses jamais permitiram aos homens compreender esta Verdade e jamais ensinarão a eles a modificarem os desígnios divinos. Preferem que sua Vontade seja acatada e nunca discutida, é muito menos, interferida pelos humanos.
Voltou-se de um pastor surgia ao longe, por trás de umas árvores que ladeavam a descida do monte Citéron. O pastor parou, procurando localizar de onde vinha o choro convulsivo de um recém-nascido.
Prometeu se calou e ficou acompanhando os passos indecisos do homem. Prendeu sua atenção à mente do pastor e mostrou-lhe a direção certa. E sorriu, quando o homem achou o cesto, levantou a criança, apertou-a contra o peito e desceu o monte, correndo como uma lebre assustada.
— Veja, mulher, o que encontrei no alto do monte! Uma criança abandonada! Veja como chora! Deve ter fome...
A mulher acabou de ajeitar os panos que envolviam seu bebê e desemburrou a criança que o marido lhe entregava.
— Pelos deuses! — exclamou ela. — Quem teria feito tamanha maldade com um recém-nascido? Veja, Forbas(Φόρβας), o que fizeram com os pezinhos dele!
Forbas se curvou e arregalou os olhos. Depois, com cuidado, retirou os corvos que atuavam nos pés pequeninos e tortos e arrancou com muito jeito o gancho enferrujado nos calcanhares. Depois colocou ervas maceradas nas feridas e envolveu tudo com panos limpos.
A mulher pegou o bebê que esperneava e berrava, às vezes sem fôlego, abriu a roupa e aproximou-o do seio turgido e rosado. Apertou um pouco o peito, até que um grosso fio de leite jorrou, sujou o rosto do bebê. Segurou-lhe a cabeça com firmeza e introduziu o bico escuro entre os pequeninos lábios rosados. A criança se acalmou imediatamente e, no silêncio da choupana, só se ouviam os estalos da boa gula. Depois regurgitou e dormiu.
A mulher afastou os panos que envolviam os pés feridos da criança e soprou.
— Forbas, nunca vi tanta maldade. Quem teria feito isto? — beijou de leve o rosto do bebê. — Vou chamá-lo de Édipo.
Forbas sorriu. Sua esposa não poderia ter encontrado um nome melhor para o menino, uma vez que aquele nome servia para designar todos aqueles que tinham os pés inchados.
— Não sei para que pegarmos esta criança — exclamou a sogra de Forbas, vendo Édipo brincar com seu neto — Aleijado, mal se mantém de pé! Será sempre um fardo inútil em sua vida, Forbas.
Forbas sabia que ela tinha razão. Ninguém recolhia crianças defeituosas. Somente os meninos fortes e as meninas belas tinham chance de encontrar um lar adotivo.
— Tive que recolhê-lo — explicou ele com que se desculpando. — Alguém o criou sem ter tanta pena daqueles pobres crianças, ferida e abandonada! Na certa iria morrer... Eu precisei escutar uma voz que me dizia: Leve-o consigo, Forbas! Não o deixe morrer!
A sogra sacudiu a cabeça. No íntimo, gostava de Édipo. Depois disse:
— Ouvi dizer que os reis de Corinto não têm filhos. Quem sabe ficariam com ele?
O pastor olhou-a, pensativo.
— Não é má ideia... Podemos tentar.
Forbas conseguiu uma audiência com Pólibo, o rei de Corinto. Humildemente explicou como havia encontrado Édipo e falou sobre a dificuldade que teria em ensinar a criança as artes do pastoreio, uma vez que mal andava, devido ao ferimento que sofrera, ao nascer.
Pólibo nunca contou para ninguém porque ficou com aquela criança defeituosa e criou como se fosse seu próprio filho. Somente a Mérope, sua esposa, confidenciou seus sigilosos:
— Não pense que estou louco, Mérope. Mas escutei claramente uma voz que me disse: Cuide dele como se fosse seu filho, Pólibo.
Mérope arregalou os olhos, admirada.
— Quem sabe foi a voz de algum deus, Pólibo? Foi muito bem em aceitar o menino. Os médicos da corte saberão curar o defeito dos seus pés. Vamos criá-lo e amá-lo, pois na certa ele não foi enviado pelos deuses.
Os médicos conseguiram, com exercícios, massagens e aplicação de ervas, fazer com que o menino andasse melhor. Mas não o livraram do apoio de um bastão.
Édipo cresceu, amado por seus pais e adorado pelo povo.
Um dia, soube que haviam roubado alguns cavalos de seu pai, que lhe pediu para tentar encontrá-los. Partiu pela estrada, perguntando aqui e ali. As pistas o levaram a Delfos e, estando lá, resolveu consultar o oráculo. A sacerdotisa, mergulhada em transe profundo, falou por entre a fumaça das ervas:
— Você está condenado a matar o próprio pai e unir-se à sua mãe.
Édipo empalideceu. Ficou muito tempo em Delfos, sem coragem para voltar para casa.
— Como pode tal destino estar reservado para mim? Se assim for, jamais voltarei a Corinto, para não correr o risco de assassinar Pólibo e me casar com minha mãe, Mérope.
Foi então que ouviu, pela primeira vez, uma voz que lhe disse:
— Édipo, não creia tanto nos oráculos. Volte para Corinto! Você tem o poder de mudar o seu destino.
Édipo voltou, procurando quem lhe falara. Não viu ninguém. Sacudiu a cabeça e mergulhou novamente em suas dúvidas.
— Não posso voltar para Corinto. Ficarei aqui, até encontrar um mensageiro que possa levar minha decisão a meus pais.
Pouco depois, a voz voltou a dizer:
— Édipo, você pode mudar seu destino. Volte a Corinto e fuja por lá. Nada irá acontecer.
Desta vez, Édipo se irritou.
— Acho que estou enlouquecendo! Que voz idiota é esta, que me aconselha justamente o contrário daquilo que sei que tenho que fazer? Espero poder mudar meu futuro, e para isso mesmo não retornarei a Corinto!
No dia seguinte, esperando um mensageiro, surgiu Édipo pediu que avisasse aos pais que partiria em uma longa viagem. Com dificuldade, montou em seu cavalo e seguiu seu destino.
Já caminhava há algum tempo, quando viu uma carruagem que se aproximava. Saiu do meio da estrada, para deixar o carro passar, mas, na encruzilhada de Potnias, marco de separação entre Delfos e Daulis, seu bastão caiu no chão e precisou apeá-lo. Desceu com custo, pois sempre lhe era penoso apoiar-se sobre os pés fracos.
A carruagem parou e o cocheiro gritou, sacudindo o chicote:
— Saia já da estrada, viajante!
Édipo fez um sinal, pedindo que esperasse um pouco. Curvou-se, apanhou o bastão e tentou montar no cavalo, novamente. Mas seus pés doíam. O cocheiro desceu da boleia e quis afastá-lo, com violência. Encolerizado, Édipo brandiu o bastão e feriu-o na cabeça.
O rei Laios, que dentro da carruagem assistia, não pensou duas vezes. Pulou da carruagem, partiu para Édipo e golpeou-o com um aguilhão. E atrás dele veio o resto da comitiva, um arauto e dois escravos.
Édipo, alucinado de ódio, abriu a cabeça de Laios com o bastão e lhe esmagou as costelas. Um escravo, que fugiu, voltou ao castelo e, envergonhado de sua covardia, inventou que a carruagem fora atacada por bandoleiros e pediu que o deixassem como um servo, participando os trabalhos.
Com a morte de Laios, seu cunhado Creonte, irmão de Jocasta, assumiu o trono.
Édipo prosseguiu sua viagem e seu destino fez com que percorresse o caminho de Tebas. Já esteve próximo à entrada da cidade, quando encontrou um velho duas cabeças. Parou e perguntou:
— Que cidade é aquela, que vejo ao longe?
— É Tebas, senhor — respondeu o ancião. — pretende chegar lá?
— Sim — respondeu o rapaz. — Estou cansado, pois viajo há dias. Meu cavalo e eu precisamos repousar.
O velho coçou a cabeça.
— É melhor procurar outro caminho. Nunca ouviu falar na Esfinge?
Édipo sacudiu a cabeça, cheio de curiosidade.
— Esfinge? Mas o que é isto?
— A Esfinge — esclareceu o ancião — é um monstro terrível, metade mulher, metade leão, que vive no planalto de onde se avistam todos os jovens que tentam entrar na cidade. Oferece-lhes um enigma e os que não conseguem decifrá-lo, são devorados. Até hoje, ninguém conseguiu.
Édipo o olhou com desconfiança. O velho parecia maluco. Mesmo assim, perguntou:
— Mas de onde veio esse monstro? Nunca me falaram sobre ele.
O velho sacudiu os ombros.
— Uns dizem que foi Dionísio que o colocou ali, furioso com os tebanos que insistiam em não deixar seu culto penetrar na cidade; outros afirmam que foi enviado por Hera, para castigar o rei Laios por ter sido responsável pela presença de Páris, outro assassino, quando criança; outros sustentam que a Esfinge é filha de dois deuses, metade mulher metade leão e vive nas montanhas que circundam Tebas, rugindo ferozmente quando cruza o caminho do viajante. Mas a verdade é que ninguém sabe ao certo de onde veio. Seja como for, todos falam dela, mas poucos falam do enigma. E este, na entrada de Tebas, propondo aos moços como você um enigma indecifrável. Melhor que mude seu caminho.
Édipo agradeceu, mas não acreditou no aviso do velho. Esperou até que ele se afastasse e seguiu em direção à cidade que apontava no horizonte.
Entrou por atalhos, seguiu por trilhas bem abertas, contornou os muros da cidade e avançou em direção ao rochedo. Quando se aproximou, ouviu o rugido da Esfinge, sentiu que não poderia mais recuar. A voz da Esfinge fez com que seu cavalo empinasse e jogasse no chão. Erguer-se com dificuldade, apoiado no bastão, enquanto ouvia da Esfinge o enigma fatal:
— Diga-me, jovem, qual o ser que, de manhã, anda com quatro pernas, ao meio-dia com duas e à tarde com três e que, contrariando a Natureza, quando se apoia em menos pernas, a rapidez se enfraquece em seus membros?
Édipo pensou rapidamente e respondeu à primeira coisa que lhe passou pela cabeça:
— É o homem, que quando pequeno, engatinha, quando adulto usa duas pernas e, quando velho, caminha apoiado em uma bengala.
O urro da Esfinge sacudiu a cidade toda e foram muitos os que a viram atirar-se de um rochedo e morrer.
Édipo entrou em Tebas aclamado pelo povo e imediatamente foi levado à presença de Creonte, que o recebeu com efusiva alegria.
— Meu rapaz, nosso povo o agradece, emocionado. Livrou Tebas de um pesadelo que dizimava nossos jovens, sem piedade. Quem é você e de onde vem?
— Sou Édipo, filho de Pólibo e Mérope, reis de Corinto.
— Édipo, de Corinto! — disse Creonte, exultante. — Nossa alegria é ainda maior. Prometi a mão de minha irmã, Jocasta, rainha de Tebas, àquele que destruísse a Esfinge. Será excelente aproximar Tebas e Corinto, através de sua união com Jocasta. O que me diz disto, Édipo? Aceita?
Édipo pensou e resolveu aceitar. Seu pai, Pólibo, certamente ficaria satisfeito com a união dos dois reinos.
— Sinto-me honrado com sua oferta, Creonte, e é com imensa satisfação que recebo sua irmandade, em casamento.
A festa foi simples, na sala principal do castelo. A morte de Laios era recente e Jocasta não aceitou as pompas que permeiam os casamentos reais. Quem mais festejou foi o povo que, em volta do palácio, comemorou com danças e bebidas a posse do novo rei tebano.
Édipo mal teve tempo de conhecer Jocasta. Desde o momento em que a pediu em casamento, ela estivera ocupada demais com os preparativos da cerimônia e nem tivera tempo para demonstrar muito carinho. Creonte aproveitou para levá-la para conhecer toda a região.
Houve um momento, durante a festa, em que Édipo ficou só e, de longe, enquanto bebia do vinho delicioso que os escanções serviam a cada instante, ficou a observar Jocasta.
— Melhor que seja assim — pensou. — Agora estou certo de que consegui mudar meu destino.
Imediatamente a voz falou em algum lugar de sua mente:
— É preciso que compreenda que todas as ações do homem refletem um impulso interior. Zeus condenou os homens a só encontrarem sua contraparte fora de si mesmos. Procure olhar para dentro e encontrar-se em seu íntimo antes de amar.
Édipo quase engasgou com o vinho.
— Mas afinal, quem é você que me fala?
Silêncio.
— Por que se mete onde não é chamado? Deveria antes ter-me auxiliado a decifrar o enigma da Esfinge, mas justamente naquele momento, se manteve calado.
A voz não tornou a falar. Édipo olhou em volta, com medo de estar sendo observado.
— Acho que estou ficando bêbado... — resmungou, a taça para o lado.
Creonte se aproximou e segurou-o pelo braço.
— Venha, Édipo, os convidados reclamam sua presença.
Jocasta já o esperava em seus aposentos, os cabelos soltos caindo sobre a veste muito fina que revelava os contornos bem feitos de seu corpo.
— Como é linda! — pensou Édipo, enquanto apreciava os movimentos lânguidos da rainha.
— Procure a mulher em seu interior — disse a voz, subitamente.
Ele se sobressaltou e chegou mais perto da rainha.
— O que foi, Édipo? — perguntou Jocasta, sorrindo. — Parece assustado.
Ele procurou sorrir. Não poderia falar a ela sobre a voz que lhe dizia coisas que não conseguia entender.
— Sua beleza é inebriante, Jocasta — disse ele, procurando justificar seu nervosismo. — Tudo aconteceu tão rapidamente que nem tive tempo de acostumar-me à ideia de tê-la como minha esposa. — Afagou os cabelos longos e macios. — Espero ser digno de usar o trono de Tebas.
Jocasta pousou as mãos delicadas sobre os ombros do rapaz e olhou-o dentro dos olhos.
— Você é muito jovem, mas parece forte e decidido. Estou certa de que foi enviado pelos deuses e reinará sabiamente.
O perfume suave de Jocasta invadiu os sentidos de Édipo e num dado momento se instalou em seus quadris. Por instantes as palavras que a voz lhe dissera voltaram à mente: “Procure a mulher dentro de si”.
— Como poderei procurá-la em mim — pensou — se a tenho em meus braços, com os olhos ávidos de amor pregados aos meus?
Havia mesmo uma luz diferente nos olhos de Jocasta. A juventude de Édipo a impressionara desde o início. Quando viu pela primeira vez aquele rapaz de semblante triste, caminhando com dificuldade apoiado num bastão, uma irresistível aperto se apoderara de seu peito e ela sentira uma vontade de acolhê-lo entre os braços. Agora, ao tocá-lo, sentia que a energia do moço irradiava seu ser, enchendo-o de uma vitalidade quente e vibrante.
— Ela é tão jovem — pensou — Seus olhos têm o brilho da força e da inexperiência. — sorriu levemente. — Sinto que nunca tive uma mulher em seus braços.
Abraçou-lhe a nuca e puxou-o para perto. Seu hálito quente envolveu o rosto do rapaz e lhe beijou de leve sua boca. Sentiu os lábios de Jocasta entreabrirem-se sob os seus, comprimindo-os com força.
— Interrompa suas sensações e desperte a mulher em seu interior — sussurrou a voz.
Mas ele não a escutou. Deixou-se conduzir ao leito e, quando ela o puxou para dentro de si, sentiu que entrava num mundo novo, onde todas as sensações lhe davam um prazer intenso, jamais sentido antes em momento algum de sua vida.
Édipo reinou em Tebas querido pelo povo e adorado por sua esposa, Jocasta. Os filhos chegaram, trazendo ainda mais alegria ao casal real. E nasceram Etéocles, Polinice, Antígona e Ismênia. Creonte se casou com Eurídice, uma tebana, e tiveram um filho, Hêmon.
Tebas viveu anos de prosperidade até que um dia, sem que ninguém soubesse como nem por que, uma peste se abateu sobre a cidade. O solo se tornou árido, os animais morriam nos montes, o povo definhava.
Rezaram aos deuses, fizeram sacrifícios, mas nada adiantou. Sem saber mais o que fazer, Édipo pediu a Creonte que fosse a Delfos, consultar o oráculo de Apolo.
Creonte foi, em poucos dias, voltou com a resposta lacônica:
— O oráculo responde que a peste se abateu sobre Tebas porque a morte de Laios ainda não foi vingada.
Édipo e Jocasta se entreolharam, surpresos.
— Mas como vingar a morte de Laios, se não sabemos quem foi seu assassino? — perguntou ela, aflita.
Creonte abraçou a irmã com meiguice, sem nada responder.
— Alguma coisa terá que ser feita! — exclamou Édipo, nervoso. — Temos que saber quem é o assassino de Laios!
Tirésias, cego, era o mais sábio de Tebas. Depois voltou-se para Creonte.
— Pense bem, Creonte, está certo de que não se lembra de nada que possa nos ajudar a conhecer o assassino?
Creonte balançou a cabeça, desanimado.
— Nada, Édipo. Só sabemos aquilo que lhe contei, desde o início. Laios saiu em viagem e foi assassinado, com sua comitiva, por bandidos da estrada.
Édipo apertou os dentes e começou a andar de lá para cá, com um ar ameaçador. Depois parou e fixou o olhar no chão, os olhos faiscando de ódio.
— Maldito seja esse miserável, causador da peste que destrói Tebas. Eu o amaldiçoo, com todas as forças do meu coração.
Jocasta tocou seu braço, de leve.
— Não fale assim, Édipo. Há de existir um meio desta peste ser afastada para sempre de Tebas.
— Já sei! — exclamou Édipo, subitamente. — Como não pensei nisso antes! Creonte, providencia para que o adivinho Tirésias venha à minha presença.
Tirésias chegou, trazendo o cão dos sábios com seu bastão mágico. Édipo o recebeu na sala de audiências.
— Tirésias — disse o rei, sem rodeios — a sacerdotisa de Apolo declarou que a razão da peste que se espalhou por Tebas é não termos ainda vingado a morte de Laios. Não podemos vingá-la, porque não conhecemos o assassino. Você tem o dom da vidência e peço que nos diga quem matou Laios.
Tirésias tudo escutou, atento. Depois respirou fundo e procurou a resposta na escuridão da sala que seus olhos não mostravam. De repente, um tremor sacudiu seu corpo e seu rosto empalideceu.
— Perdoe-me, meu rei, mas não posso lhe dar a resposta que procura.
Os olhos de Édipo brilharam de raiva.
— Como não? Ordeno que me diga o que viu!
Com voz mansa, mas firme, Tirésias repetiu:
— Peço perdão novamente, mas não posso falar.
— Não pode falar? — esbravejou Édipo. — Acaso não deseja que o criminoso seja punido? Ou será que você mesmo tramou a morte de Laios?
Tirésias ficou ainda mais lívido.
— Muito bem, meu rei, vou lhe dizer então o que acabo de saber: Édipo, o rei de Tebas, matou seu pai, o rei Laios, e se casou com sua mãe, a rainha Jocasta.
— Que absurdo! — esbravejou Édipo, rouco de ódio. — Nunca ouvi tantos absurdos em toda a minha vida!
— Sabes que o adivinho Tirésias nunca falha, Édipo — disse Creonte. — Acho melhor que dê mais crédito a suas palavras e procure interpretá-las com serenidade.
Édipo fulminou o cunhado com o olhar.
— Muito me admira que acredite nessas calúnias, Creonte! Ou será que andou também tramando, com Tirésias, a morte de Laios, para ficar com o trono?
Creonte deu um passo à frente, mas Jocasta se colocou entre os dois.
— Não discutam, por favor! Esta que não compreendem que Tebas precisa que, unidos, encontremos uma solução?
Enlaçou o braço de Édipo e afastou-o com ele.
— Escute, Édipo, vamos nos esquecer, de uma vez por todas, desta história de oráculos e profecias. Não creio nisso. Veja bem, quando Laios e eu nos casamos, o oráculo de Delfos profetizou que teríamos um filho que mataria o pai e se casaria comigo, sua própria mãe. Aprovado como a profecia, Laios mandou matar o próprio filho. Anos depois, ele foi assassinado por bandoleiros. Como vê, a predição do oráculo não se realizou. Por que, então, acreditar nas palavras de Tirésias? É, além do mais, absurda, porque seu pai está bem vivo, em Corinto, e você está casado comigo, que não sou sua mãe.
Édipo escutou suas palavras com uma vaga e incerta certeza. Achar-se estranho à coincidência da profecia que o oráculo fizera para Laios e para si próprio. Alguma coisa naquele discurso soava esquisita, como um quebra-cabeças mal encaixado.
— Jocasta — disse ele, procurando arrumar as ideias na cabeça — conte-me novamente, e desta vez com todos os detalhes possíveis, sobre a morte de Laios.
— Tudo o que sabemos nos foi contado pelo escravo que escapou da chacina. Disse que tudo aconteceu numa encruzilhada de Delfos a Daulis. Laios viajava com o cocheiro e mais três pessoas e todos, menos o escravo, foram massacrados pelos bandoleiros. Tudo aconteceu pouco antes de você chegar a Tebas.
O rosto de Édipo ficou lívido.
— O que foi, Édipo? Não se sente bem?
Ela sentiu as mãos geladas e trêmulas do marido apertarem as suas.
— Jocasta, preciso falar com o escravo. Onde pode ser encontrado?
Dois guardas partiram para o campo, com ordens de trazer ao castelo o escravo que sobrevivera ao massacre da comitiva de Laios. Édipo, muito nervoso, fechou-se em seus aposentos.
— Cego, como estou confuso! — falou para si mesmo, apertando a cabeça entre as mãos. — O relato de Jocasta se encaixa perfeitamente ao que me aconteceu, no dia em que matei quatro pessoas de uma comitiva. Talvez o escravo tenha entendido quanto aos bandoleiros. Teria eu matado Laios? Mas, se assim foi, não matei meu pai! Estarei então condenado a matar Pólibo e me casar com Mérope?
Seus filhos Etéocles e Polinice bateram e entraram, sem esperarem sua autorização.
— Pai — disse Etéocles — acaba de chegar um mensageiro de Corinto anunciando a morte de seu pai, Pólibo! Disse também que o povo já o elegeu rei de Corinto.
Polinice deu um passo à frente.
— Assumirá o trono de Corinto, pai? E Tebas?
Édipo tentava compreender o que acontecia.
— Se for para Corinto, qual de nós ficará com o trono de Tebas? — continuou Polinice.
— Que pergunta tola, meu irmão! — reclamou Etéocles — É claro que sou eu, que sou o mais velho.
— Calem-se! — gritou Édipo. — Tenho coisas mais sérias para resolver! O trono de Corinto que espere! Estão me tirando do meu quarto e preciso refletir! Em minutos irei falar com o mensageiro de Corinto. Digam-lhe que me aguarde.
Empurrou os filhos, que saíram reclamando. Fechou a porta e encostou a testa na parede fria.
— Estou livre do destino de matar meu próprio pai. Mas, por algum motivo sombrio que ignoro, se voltar para Corinto, irei desposar Mérope, minha mãe?
Respirou fundo e foi ao encontro do mensageiro, que o esperava junto a Jocasta, seus dois filhos e Creonte. O homem cumprimentou o rei com uma reverência.
— Como está minha mãe? — foi logo perguntando Édipo.
— A rainha está bem e aguarda seu retorno a Corinto. Ordenou-me que lhe avisasse que o povo já o elegeu seu rei.
Édipo sorriu.
— Fico lisonjeado ao saber que o povo ainda se lembra de mim, após tantos anos, embora sendo o único filho de Pólibo, já tenho direito ao trono por herança de próprio sangue.
— Meu rei — disse o mensageiro, visivelmente constrangido — durante sua longa ausência, ficou sabido que não é filho dos reis de Corinto, mas que foi recolhido por eles quando ainda criança.
O olhar assustado de Édipo buscou os olhos de Jocasta. Depois falou ao mensageiro:
— Diga a Mérope que irei para Corinto imediatamente.
O mensageiro se curvou quase até o chão. Mal saiu, chegou um velho, trazido por dois guardas.
— Eis o escravo que escapou do massacre de Laios— anunciou um dos guardas.
Édipo se aproximou do escravo, andando com uma dificuldade maior que de costume.
— Diga-me, escravo, o massacre da comitiva de Laios foi feito mesmo por um grande bando de bandidos? Fale a verdade, homem!
Os olhos úmidos do velho pousaram no rosto de Édipo. Abriu e fechou a boca algumas vezes, mas as palavras não saíam.
— Fale, homem, diga a verdade e não será castigado! — insistiu Édipo.
— Meu rei, meu amado rei — balbuciou o velho, com os olhos rasos de lágrimas. — Não me obrigue a dizer aquilo que já sabe! Não foram os bandoleiros... Não foram eles... Mas os deuses não me deixam falar jamais a verdade... Jamais disse a ninguém que meu amado rei foi o assassino de Laios!
Escorregou pelo corpo de Édipo e abraçou-se, chorando, às suas pernas. O silêncio que pesou sobre todos quase palpável. De repente, o velho escravo largou as pernas do rei, afastou-se um pouco, ainda agachado no chão, fitou as cicatrizes nos calcanhares de Édipo, arregalou aterrorizado os olhos e gritou:
— Que os deuses me perdoem! Perdão, meu rei, perdão! Essas marcas no seus pés... eu as reconheço! Fui eu quem as fiz, quando cravei aquele gancho em seus calcanhares!... Não pude matá-lo, como Laios ordenou... Era tão criança, tão indefeso!... Perdoa-me, meu rei, perdoa!
O gemido de Jocasta feriu o silêncio e ninguém teve o impulso de detê-la. Deixaram que se fechasse em seu quarto e ficaram quietos, imaginando o desespero de seu sentido.
Édipo, apoiado em seu bastão, saiu do salão e foi para o átrio, arrastando as sandálias no chão de pedra. Encostou-se em uma coluna.
— Que insano fui, julgando fugir de um destino já traçado a fogo em minha alma! Deuses, em que estado posso enfrentar tão triste sorte?
— Édipo, Édipo! — sussurrou a voz em seus ouvidos. — Ouça o que tenho a lhe dizer. Os acontecimentos da vida refletem aquilo que acontece no interior. Volte-se para si mesmo e verá que, assim como o dia leva à noite, o sofrimento leva à compreensão, novos valores chegam e destroem os velhos. Procure ver tudo desta maneira e sofrerá menos. Você amar sua mãe, entende isto como despertar da mulher que existe no interior. Édipo, escute-me! Volte para Corinto e leve consigo esta experiência simbólica do despertar interior! Você crescerá com o sofrimento, não deixe que o destrua!
Édipo sacudiu a cabeça, desolado.
— Cale-se, voz insana! Não perturbe a minha dor!
— Édipo — continuou a voz — não se desespere! Veja a sua realidade interior!
Mas Édipo não quis ouvir mais nada. Com o rosto lavado pelas lágrimas, foi ao encontro de Jocasta. Passou mancando pelo salão onde Creonte, Etéocles e Polinice conversavam em voz baixa. Entrou em seus aposentos, mas a realidade que ali o esperava era cruel demais para sua capacidade de entendimento. O corpo de Jocasta jazia na ponta de uma corda amarrada às vigas do teto, balançando suavemente, como uma flor caída ao vento da brisa.
— Édipo, Édipo! — chamou a voz — Olhe para dentro de você e veja a outra face da realidade!
— Não quero olhar nada! — gritou Édipo, desesperado. — Não quero ver mais nada em minha vida!
E, num gesto rápido, arrancou o broche da túnica de Jocasta e rasgou os próprios olhos.
Amarrado no alto do rochedo, Prometeu ainda falou:
— Não faça isso, Édipo! Ainda tenho tanto a lhe ensinar...
Depois sacudiu tristemente a cabeça e fechou os olhos.
Seus filhos o encontraram caído perto do corpo de Jocasta. Creonte tratou de seus olhos feridos, junto com os médicos da corte, mas não conseguiram restaurar sua visão. Quando os médicos anunciaram que ele jamais se restabeleceria, seus filhos vieram ao seu encontro, junto com Creonte.
— Meu pai — disse Etéocles, numa voz baixa e rouca. — Não queremos mais em Tebas.
— Calem-se, Etéocles! — gritou Creonte. — Não fui para isso que os levei ao castelo agora!
— É um incestuoso assassino, que não merece o trono de Tebas — vomitou Polinice, todo tenso.
— Meu pai! Meu pobre pai! — soluçou Antígona, abraçando-se a Édipo.
Ismênia, de longe, com as pontas dos dedos, enxugava o próprio pranto.
— Creonte, onde está você? — perguntou Édipo, tateando com a mão trêmula.
Creonte tocou em seu braço com delicadeza.
— Estou aqui, meu rei.
— Creonte — continuou Édipo — vou partir. Entregue-lhe o reino de Tebas. E vocês, meus filhos Etéocles e Polinice, deixo a minha maldição: que se destruam um ao outro.
Sua garganta falhou com o peso da dor.
Antígona apertou-se mais a ele.
— Irei com você, meu pai, para onde quer que vá!
Édipo beijou-a carinhosamente.
— Está bem, minha filha. Vamos partir. Apesar da culpa que me corrói a alma, no íntimo, sei que fui vítima de uma armadilha dos deuses. Vamos sair de Tebas e procurar a tranquilidade em outro lugar.
E, quando o sol caiu no horizonte, o povo de Tebas viu a silhueta negra de uma jovem magra e pequena, que amparava um homem alquebrado e trôpego, na estrada que conduzia a Colona.
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