Capítulo 39 — Os Dioscuros de cavalos brancos — Anfião(Ἀμφίων) e Zetos(Ζῆθος)

Capítulo 39 — Os Dioscuros de cavalos brancos — Anfião(Ἀμφίων) e Zetos(Ζῆθος)

Olimpo, a Saga dos Deuses 


Anfião(Ἀμφίων) e Zetos(Ζῆθος). Por Emmanuel Mourão.




O cheiro da morte já se havia impregnado nas mantas e cortinas dos aposentos de Lábdacos(Λάβδακος), cujo nome seu pai, o rei Polidoros(Πολύδωρος), deu-lhe tirando-o da letra lambda do alfabeto grego, tornara-se, então, o seu substituto no poder de Tebas. Licos(Λύκος) parou à porta e hesitou. Um dos médicos fez sinal para que entrasse. 

 — O rei deseja lhe falar — disse, baixinho. 

 Licos se aproximou do leito, onde a figura muito pálida e magra do rei desaparecia no meio das cobertas pesadas.


 — Licos — disse Labdacos, num fio de voz — chegue bem perto de mim. Quero lhe fazer um pedido. Sei que minha hora chegou e entrego Tebas em suas mãos, assim como meu pai fez com seu irmão Nicteus, enquanto eu ainda era criança, torno-o regente até que meu filho Laios(Λάιος) tenha idade suficiente para assumir o reinado. Licos, meu amigo, eduque meu filho como educou a mim, junto com Nicteus(Νυκτεύς). Prepare-o para que seja um bom rei, valente e digno como deve ser um descendente de Cadmos(Κάδμος)

 Licos sentiu as lágrimas queimarem seus olhos e com sacrifício procurou contê-las. Segurou entre as suas as mãos finas e geladas de Labdacos. 

 — Juro, em nome dos deuses, que cuidarei de Laios e que farei dele um homem de valor, digno de trono de Tebas.

Labdacos sorriu palidamente e Licos sentiu que ele comprimiu ligeiramente suas mãos, por instantes. Mas logo depois, os dedos frios do rei amoleceram e seu rosto tombou para o lado. Licos não conseguiu conter mais o choro, que caiu em cascatas, molhando as cobertas e o sorriso tranqüilo no rosto de Labdacos.

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Anfião(Ἀμφίων) e Zetos(Ζῆθος) cresceram ao lado de sua mãe Antíope(Ἀντιόπη), sem saberem dos maltratos por que ela havia passado, na corte de Tebas. Mas um dia, já adultos, souberam por um pastor a verdade sobre seu nascimento.

— Por que não nos contou antes, mãe? — perguntou Anfião, indignado. — Como pode ocultar tudo isto de nós? Por que não falou que somos filhos de Zeus(Ζεύς) e por que não disse que foi maltratada Licos e Dirce(Δίρκη)?

Antíope abraçou-os com ternura.

— E para quê? Para que crescessem cheios de rancor no coração? Isso já passou. O que importa é que estamos juntos e felizes.

— Felizes? — exclamou Zetos, escapando dos braços da mãe. — Deveríamos estar vivendo no palácio e não numa choupana!

— Mãe, — acrescentou Anfião — vamos partir imediatamente para Tebas. Você será vingada!

Antíope não conseguiu reter os filhos. Armaram-se e partiram, levando o ódio em seus corações. Atacaram o palácio e liquidaram Dirce e Licos.

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Labdacos morreu levando consigo um segredo: jamais dissera a ninguém porque proibira o culto de Dionísio(Διονυσος) em Tebas, causa do ataque que sofrera pelas Bacantes(Βάκχαι) e que acabou por encurtar os dias de sua vida.

O motivo foi ter visto, em meio às comemorações festivas e regadas a vinho, Dirce e Dionísio se amarem com loucura, mal escondidos pelas folhagens. Para que Licos não viesse a desconfiar de nada, proibiu os festejos dionisíacos em Tebas.

Quando Dionísio soube que Dirce fora assassinada, jurou vingança. Partiu para Sísion, onde Antíope aguardava a volta dos filhos, e feriu-a com a loucura.

Antíope errou por toda a Grécia, até que chegou à Fócida, onde se curou e desposou o rei Foco(Φῶκος).

Anfião e Zetos, depois de assassinarem Licos e Dirce, apossaram-se do trono de Tebas e Laios, amedrontado, buscou asilo na Élida, na corte de Pélops(Πέλοψ), o filho de Tântalos(Τάνταλος).


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Os Construtores de Tebas, Anfião(Ἀμφίων) e Zetos(Ζῆθος). Por Emmanuel Mourão.


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