Capítulo 38 —A mênade seguidora de Dionísio — Antíope(Ἀντιόπη)

Capítulo 38 —A mênade seguidora de Dionísio — Antíope(Ἀντιόπη)

Olimpo, a Saga dos Deuses 


Antíope(Ἀντιόπη). Por Emmanuel Mourão.






O guarda chegou apressado e empertigou-se ao lado de Licos(Λύκος), o comandante das forças armadas de Tebas.

— Senhor, o rei agoniza e chama à sua presença.

Licos esperava a morte de Lábdacos(Λάβδακος) para qualquer momento. Depois da derrota que sofrera na luta contra o exército de Pandion(Πανδίων), Lábdacos voltou a Tebas e proibiu o culto a Dionísio. Foi atacado impiedosamente pelas Bacantes(Βάκχαι). Enfraquecido, contraiu um mal incurável que desafiava todos os médicos da corte.


Lábdacos era um homem bom. Apesar de sua derrota, lamentou profundamente o destino de Procne(Πρόκνη), e Filomela(Φιλομήλα), as filhas de Pandíon e, muitas vezes, comentou com Licos a infelicidade que tantas vezes caíra sobre as casas reais.

— Parece maldição dos deuses — dizia, olhando, triste, para o céu.

Licos não gostava de conversar sobre os deuses e maldições, mas no íntimo, sabia que Lábdacos tinha razão. Lembrava-se muito bem do dia em que chegara a Tebas, junto com seu irmão Nicteus(Νυκτεύς), fugindo de Ares(Ἄρης), que os perseguia implacavelmente por terem matado seu filho, Flégias(Φλεγύας). Por sorte, Flégias havia tentado incendiar o Templo de Apolo(Ἀπόλλων), que lhe seduzira a filha Corônis(Κορωνίς), e o deus, tanto a Licos e a Nicteus pelo extermínio de Flégias, ocultou-os aos olhos de Ares, permitindo que chegassem a Tebas em segurança. Naquela época, lá reinava Penteu(Πενθεύς).


Recém-chegados a Tebas, Licos e Nicteus foram testemunhas da vingança de Dionísio contra Agave e do triste fim de Penteu. Depois que Agave fugiu para a Ilíria, ao encontro de Cadmos e Harmonia, seu irmão Polidoros(Πολύδωρος) assumiu o trono de Tebas. Logo depois, porém, foi ferido numa batalha e, como seu filho Lábdacos tivesse apenas um ano de idade, o trono foi ocupado interinamente por Nicteus.

Nicteus cortejou uma mulher do povo que, orgulhosa do amor do rei interino, logo cedeu ao seu amor.

— Sabem, — dizia às amigas cheias de inveja — Nicteus, além de rei, é neto de Poseidon(Ποσειδῶν) e da ninfa Alcíone(Ἀλκυόνη), e filho de outra ninfa, Clônia(Κλονίη), com o pastor Hirieu(Ὑριεύς), que recebeu em sua casa a visita do próprio Zeus(Ζεύς). — E, orgulhosa, esfregava a mão no ventre estufado. — Espero o filho de um rei e descendente dos deuses!

Mas ela não chegou a viver para conhecer seu bebê. As Moiras já haviam traçado seu destino e, depois de longo sofrimento, ela morreu de parto.

Nicteus recebeu a filha recém-nascida, levou-a para o castelo e lhe deu o nome de Antíope(Ἀντιόπη).

Antíope cresceu e se tornou uma jovem de beleza extraordinária, e Nicteus cuidava de sua segurança com um zelo desvairado. Um dia ela foi vista por Zeus, que a amou em segredo. Mas pouco durou o sigilo, pois logo Antíope descobriu que ia ser mãe.

Com medo da cólera do pai, a moça fugiu de casa e encontrou abrigo junto ao rei Epopeus(Ἐπωπεύς), de Sicião. Alucinado pela fuga da filha, Nicteus se suicidou.

Licos, ante o cadáver do irmão, jurou que havia de encontrar Antíope e trazê-la de volta. Invadiu Sicião, tomou a cidade, matou Epopeus e levou Antíope para Tebas.

Pelo caminho, ela deu à luz os gêmeos filhos de Zeus, Zetos(Ζῆθος) e Anfião(Ἀμφίων). Por ordem de Licos, abandonou os meninos nas montanhas, mas eles foram recolhidos pelos pastores.

Zetos cresceu amigo dos esportes violentos, nas tinha grandes habilidades manuais e gostava também da agricultura e da criação de gado. Anfião, que recebera uma lira de presente de Hermes(Ἑρμής), dedicava-se à música com paixão. E os pastores achavam graça cada vez que os irmãos discutiam a respeito de suas habilidades tão divergentes.

Enquanto isso, Antíope era mantida prisioneira no castelo, por exigência de Dirce(Δίρκη), esposa de Licos, ciumenta da beleza extraordinária da moça.

Passaram-se alguns anos e Antíope, acorrentada às pedras, definhava sem que ninguém a socorresse, com medo de enfrentar a fúria de Dirce.

Um dia, já sentindo a morte próxima, Antíope pensou em Zeus com todo o calor de sua alma.

— Zeus, meu amado senhor que me fez mulher e mãe, escute minhas preces. Livre-me dos grilhões que me prendem e aniquilam minha vida e leve-me ao encontro dos filhos que nem cheguei a nutrir.

Do alto do Olimpo, Zeus escutou suas palavras e estendeu as mãos sobre o abismo. As correntes que prendiam Antíope romperam-se miraculosamente e Hermes(Ἑρμής), a colheu em seus braços e depositou-a na choupana onde viviam as crianças.

                                                                                ...

O tormento de Antíope(Ἀντιόπη). Por Emmanuel Mourão.


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