— Senhor, o rei agoniza e chama à sua presença.
Licos esperava a morte de Lábdacos(Λάβδακος) para qualquer momento. Depois da derrota que sofrera na luta contra o exército de Pandion(Πανδίων), Lábdacos voltou a Tebas e proibiu o culto a Dionísio. Foi atacado impiedosamente pelas Bacantes(Βάκχαι). Enfraquecido, contraiu um mal incurável que desafiava todos os médicos da corte.
Lábdacos era um homem bom. Apesar de sua derrota, lamentou profundamente o destino de Procne(Πρόκνη), e Filomela(Φιλομήλα), as filhas de Pandíon e, muitas vezes, comentou com Licos a infelicidade que tantas vezes caíra sobre as casas reais.
— Parece maldição dos deuses — dizia, olhando, triste, para o céu.
Licos não gostava de conversar sobre os deuses e maldições, mas no íntimo, sabia que Lábdacos tinha razão. Lembrava-se muito bem do dia em que chegara a Tebas, junto com seu irmão Nicteus(Νυκτεύς), fugindo de Ares(Ἄρης), que os perseguia implacavelmente por terem matado seu filho, Flégias(Φλεγύας). Por sorte, Flégias havia tentado incendiar o Templo de Apolo(Ἀπόλλων), que lhe seduzira a filha Corônis(Κορωνίς), e o deus, tanto a Licos e a Nicteus pelo extermínio de Flégias, ocultou-os aos olhos de Ares, permitindo que chegassem a Tebas em segurança. Naquela época, lá reinava Penteu(Πενθεύς).
Recém-chegados a Tebas, Licos e Nicteus foram testemunhas da vingança de Dionísio contra Agave e do triste fim de Penteu. Depois que Agave fugiu para a Ilíria, ao encontro de Cadmos e Harmonia, seu irmão Polidoros(Πολύδωρος) assumiu o trono de Tebas. Logo depois, porém, foi ferido numa batalha e, como seu filho Lábdacos tivesse apenas um ano de idade, o trono foi ocupado interinamente por Nicteus.
Nicteus cortejou uma mulher do povo que, orgulhosa do amor do rei interino, logo cedeu ao seu amor.
— Sabem, — dizia às amigas cheias de inveja — Nicteus, além de rei, é neto de Poseidon(Ποσειδῶν) e da ninfa Alcíone(Ἀλκυόνη), e filho de outra ninfa, Clônia(Κλονίη), com o pastor Hirieu(Ὑριεύς), que recebeu em sua casa a visita do próprio Zeus(Ζεύς). — E, orgulhosa, esfregava a mão no ventre estufado. — Espero o filho de um rei e descendente dos deuses!
Mas ela não chegou a viver para conhecer seu bebê. As Moiras já haviam traçado seu destino e, depois de longo sofrimento, ela morreu de parto.
Nicteus recebeu a filha recém-nascida, levou-a para o castelo e lhe deu o nome de Antíope(Ἀντιόπη).
Antíope cresceu e se tornou uma jovem de beleza extraordinária, e Nicteus cuidava de sua segurança com um zelo desvairado. Um dia ela foi vista por Zeus, que a amou em segredo. Mas pouco durou o sigilo, pois logo Antíope descobriu que ia ser mãe.
Com medo da cólera do pai, a moça fugiu de casa e encontrou abrigo junto ao rei Epopeus(Ἐπωπεύς), de Sicião. Alucinado pela fuga da filha, Nicteus se suicidou.
Licos, ante o cadáver do irmão, jurou que havia de encontrar Antíope e trazê-la de volta. Invadiu Sicião, tomou a cidade, matou Epopeus e levou Antíope para Tebas.
Pelo caminho, ela deu à luz os gêmeos filhos de Zeus, Zetos(Ζῆθος) e Anfião(Ἀμφίων). Por ordem de Licos, abandonou os meninos nas montanhas, mas eles foram recolhidos pelos pastores.
Zetos cresceu amigo dos esportes violentos, nas tinha grandes habilidades manuais e gostava também da agricultura e da criação de gado. Anfião, que recebera uma lira de presente de Hermes(Ἑρμής), dedicava-se à música com paixão. E os pastores achavam graça cada vez que os irmãos discutiam a respeito de suas habilidades tão divergentes.
Enquanto isso, Antíope era mantida prisioneira no castelo, por exigência de Dirce(Δίρκη), esposa de Licos, ciumenta da beleza extraordinária da moça.
Passaram-se alguns anos e Antíope, acorrentada às pedras, definhava sem que ninguém a socorresse, com medo de enfrentar a fúria de Dirce.
Um dia, já sentindo a morte próxima, Antíope pensou em Zeus com todo o calor de sua alma.
— Zeus, meu amado senhor que me fez mulher e mãe, escute minhas preces. Livre-me dos grilhões que me prendem e aniquilam minha vida e leve-me ao encontro dos filhos que nem cheguei a nutrir.
Do alto do Olimpo, Zeus escutou suas palavras e estendeu as mãos sobre o abismo. As correntes que prendiam Antíope romperam-se miraculosamente e Hermes(Ἑρμής), a colheu em seus braços e depositou-a na choupana onde viviam as crianças.
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| O tormento de Antíope(Ἀντιόπη). Por Emmanuel Mourão. |
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