Capítulo 37 —A andorinha e o Rouxinol. — Procne(Πρόκνη) e Filomela(Φιλομήλα)

 

Capítulo 37 —A andorinha e o Rouxinol. — Procne(Πρόκνη) e Filomela(Φιλομήλα)

Olimpo, a Saga dos Deuses 


Procne(Πρόκνη) e Filomela(Φιλομήλα). Por Emmanuel Mourão.



Pandion(Πανδίων) foi pai de Erecteu(Ἐρεχθεύς) e Bute(Βούτης) e, anos depois, de Procne(Πρόκνη) e Filomela(Φιλομήλα)

Erecteu desposou Praxiteia(Πραξιθέα), filha de Frásimo(Φράση) e Diogênia(Διογένεια), ambos do povo ateniense, que haviam dado aquele nome à filha em homenagem à esposa do rei Erictônio. 

A primeira filha de Erecteu, Oritia(οριτία), foi raptada por Boreas(Βορέας) e teve dois filhos, Zeto(Ζέτο) e Calais(καλέ), e uma filha, Quíone(Χιόνη)


Zeto e Calais eram jovens alados, rápidos como o vento,  seu pai. 

Quíone apaixonou-se por Poseidon(Ποσειδῶν) e lhe deu um filho, Eumolpo(Εὔμολπος). Temendo a fúria do pai, jogou o recém-nascido ao mar. Poseidon o recolheu e levou-o para a Etiópia, entregando-o aos cuidados de sua filha Bentesícime(Βενθεσικύμη)

O povo de Athenas vivia em constantes conflitos com outros povos gregos. Eram comuns as guerras pelos limites da cidade, sempre fomentada por Ares(Ἄρης). Em meio a uma contenda contra o povo de Eleusis, Erecteu consultou o oráculo e pediu um meio de conseguir a vitória. O oráculo respondeu-lhe que sacrificasse uma de suas filhas. Erecteu sacrificou Ctônia(χθόνιος), mas as outras, desesperadas com a morte da irmã, se suicidaram. 

Erecteu saiu vitorioso da batalha, mas na luta havia matado Eumolpo(Εὔμολπος). Poseidon, para vingar a morte do filho, exigiu que Zeus fulminasse Erecteu com um de seus raios letais.

Houve outra questão de terras entre Pandion(Πανδίων) e seu vizinho Lábdacos(Λάβδακος), de Tebas, e Pandion teve que solicitar o auxílio de Tereus(Τηρεύς). Tereus, filho do deus Áres, o senhor da Trácia, depois de ter auxiliado as forças de Pandíon contra Lábdacos, rei de Tebas, em pagamento, recebeu de seu aliado a mão de sua filha mais velha, Procne(Πρόκνη), em casamento, cuja cerimônia foi realizada por Butes(Βούτης), que exercia o sacerdócio no Templo de Athena.

Tereus logo se revelou um marido cruel, Procne, que freqüentemente se sentia só longe de sua terra amada, foi tomada de saudades de sua única irmã, Filomela. Afinal, a monotonia já ameaçava a vida do casal, cujo marido não via mais na esposa a mesma que conhecera há alguns anos. Havia tido um filho, Ítis,  e já não se mostrava tão bela quanto antes. Por isso, pode encontrar um pouco de sossego, pois Tereus, fascinado pela criança, passava horas a fio à beira do berço, em verdadeira adoração.

Filomela, irmã caçula de Procne, mal saindo da infância, não chegava perto do bebê com medo de ser maltratada pelo cunhado, após tudo o que passou, a mesma nutria incontrolado pavor. Lembrava-se sempre das muitas vezes em que escutara atrás das portas as brigas terríveis de Tereus, e ouvira apavorada os gritos da irmã ao ser espancada sem piedade. Mas a chegada de Ítis trouxera momentos de trégua na tensão diária em que viviam e, enquanto Tereus se esquecia do tempo contemplando o filho, a esposa procurava a irmã, que sempre a recebia com um abraço mudo e cheio de lágrimas.

— Não chore, Filomela! Eu estou aqui com você, minha irmãzinha querida!

— Tenho medo de Tereus, Procne. Ele é tão mau com você! Por que não se queixa a nosso pai?

— Não fale assim, criança! Pandion está velho e já sofreu muito por causa do nosso irmão Erecteu. Não quero lhe causar mais problemas ainda. Saberei suportar tudo, calada. E lembre-se de que Tereus agora só pensa no filho e não me aborrece tanto como antes.

Filomela olhou a irmã por entre as lágrimas.

— Não a aborrece? Você chama isso de aborrecer? Procne, ele a maltrata, ele bate tanto em você que às vezes tenho medo que a mate.

Procne apertou a menina contra o peito.

— Minha querida, não diga isso! E não chore tanto, ou ficará com o rosto inchado e feio. E você é tão linda!

Abraçaram-se em silêncio. O choro da criança, ao longe, fez com que elas se separassem, sobressaltadas.

— Preciso ir agora, Filomela. Tenho que amamentar o menino. Espero estar de volta em pouco tempo.

— Sabe, Procne, — disse Filomela, seguindo atrás da irmã — às vezes acho que não gosta de seu filho. Quase não o procura, a não ser para alimentá-lo.

Procne parou e olhou para a irmã com uma expressão esquisita no rosto. Depois disse baixinho:

— Talvez você tenha razão. Ele é tão parecido com Tereus...

E seguiu rápida, pelos corredores, em direção ao choro da criança. 

Filomela parou e se encostou na parede de pedra. A expressão do rosto de Procne dissera mais do que suas palavras. E naquele instante Filomela teve a certeza de que a irmã detestava o próprio filho.

— Céus! — murmurou Filomela — Ítis é apenas um bebê. Não tem culpa da maldade do pai! Pobre criança...

Passos firmes no corredor espantaram as divagações de sua mente. Tereus aproximava-se rapidamente. Parecia não vê-la. Filomela colou-se mais à parede, esperando que ele passasse, mas ele parou à sua frente. Olhou-a em silêncio durante alguns minutos e depois puxou-lhe o queixo para cima, fazendo com que a luz da pequena janela redonda incidisse em seu rosto muito branco.

— Você cresceu, menina — disse ele, com voz rouca — E está muito bonita.

Filomela escorregou para o lado, assustada. E fugiu, sentindo que Tereus a despia com o olhar. Fechou-se em seu quarto, ofegante. Não viu a noite chegar e nem conseguiu dormir. Pela manhã, Procne encontrou-a encolhida num canto do quarto, como um animalzinho amedrontado. Quando viu a irmã, tentou sorrir, mas as palavras não saíam de seus lábios.

— Mas o que houve, Filomela ? Alguém a assustou?

Fez que não com a cabeça e levantou-se, cambaleando.

— Não foi nada, Procne — balbuciou, encontrando, enfim, a voz perdida — Apenas tive um pesadelo.

Naquele dia começou o inferno de Filomela. Onde quer que fosse, encontrava sempre o olhar guloso de Tereus ou escutava seus convites lascivos. Evitava ficar a sós e, quando não era possível encontrar uma companhia, escondia-se no alto da torre, local há muito esquecido por todos.

E foi lá que Tereus a encontrou. Chegou pisando de leve, pé ante pé, e agarrou-a à força, rapidamente, como quem surpreende um pássaro distraído. Filomela gritou, mas seu grito se misturou ao grasnado de um bando de patos selvagens que passava, em revoada. Debateu-se, mas seu corpo miúdo e leve como uma pena foi logo subjugado pela força de Tereus, que se deitou sobre ela no frio chão de pedras. Filomela cerrou os lábios para não gritar de dor e apertou os olhos para não ver o rosto vermelho e suado colado ao seu. E ficou soluçando baixinho, escutando Tereus arquejar com um touro bravo. E, quando ele se levantou, continuou deitada, chorando, toda encolhida.

— Vamos, menina, trate de se levantar! — disse Tereus, cutucando-a com a ponta do pé — Não foi tão ruim assim, foi? Garanto que até gostou e há de querer mais.

Filomela sentou-se e olhou-a com raiva.

— Vocé é um animal! — exclamou ela — Não pense que isto vai ficar assim! Não sou idiota como minha irmã! Vou contar tudo a meu pai e ele irá bani-lo de Athenas!

O rosto de Tereus ficou rígido como o de uma estátua. E, temendo ainda mais que ela revelasse o rapto, tomou uma decisão demoníaca. Queria estar certo de que ninguém descobriria o seu crime, mas não ousava assassinar a moça indefesa. E, depois de amarrar os braços da infeliz às costas, e lentamente retirou o facão da bainha e ergueu a lâmina como se fosse matá-la.

Ela esperava alegremente pelo golpe que daria fim aos seus sofrimentos, mas, no momento em que exclamava dolorosamente o nome de seu pai, ele agarrou sua língua e cortou-a ao meio,com a ponta do facão e a lâmina fria desapareceu entre os lábios pálidos, arrancando um grito de horror de sua garganta. 

— Você não vai falar nada com ninguém! — rosnou, empurrando-a com força contra o chão. Agora não precisava mais temer ser denunciado. Indiferente, como se nada tivesse acontecido, deitou-se novamente sobre ela.

— Vamos, fale agora, se for capaz!

A cabeça da moça tombou para o lado e de sua boca saiu um fluxo vermelho e pegajoso. Mas Tereus não se importou e continuou a resfolegar sobre o corpo inerte. Depois abandonou a infeliz aos seus criados mais fiéis, ordenando que a vigiassem rigorosamente. E, por sua vez, regressou ao palácio, para junto de Procne.

Procne procurou a irmã em todos os cantos do palácio. Mobilizou a criadagem que, durante o dia todo, revirou as matas próximas. A noite já estava chegando quando, enfim, um guarda encontrou-a e trouxe-a, ainda desmaida, em seus braços. Horrorizada, Procne aproximou-se da irmã. A boca aberta deixava ver um vazio escuro e do côto da língua, no fundo da garganta, escorria um fio de sangue que lhe tingia os dentes de vermelho. Procne não gritou nem desmaiou. Apertou o estômago com as mãos
contraídas de pavor, curvou-se sobre a irmã e vomitou.

                                                                                ...

Ninguém conseguiu descobrir como aquilo acontecera. Filomela , cruelmente emudecida, recuperou-se, mas, incapaz de denunciar o ato vergonhoso de que fora vítima, não tinha como dizer quem fora seu agressor.

Pandion envelhecia a cada dia que passava, consumido pela dor de ver a sua caçula definhar de tristeza e despejar em todos um olhar aflito, cheio de mudas queixas. 

Foi Procne quem teve a idéia de fazer com que a irmã se ocupasse com algum trabalho manual. Conseguiu um grande pedaço de tecido grosso, fio de linha tingidos de várias cores com o sumo de ervas e frutos, uma agulha de osso e, nas horas em que Tereus pasava junto com Ítis, ensinou Filomele a bordar.

À princípio, Filomele não se mostrou muito interessada, mas um dia seu rosto se iluminou. No tear que recebera, ela tecia com sinais de cor púrpura um tecido branco. As mãos, antes lentas e desajeitadas, começaram a se mover com agilidade sobre o tecido e as linhas coloridas foram formando desenhos que pareciam contar alguma história. E Procne viu surgir a torre do castelo. Depois, uma figura feminina, em movimentos de fuga, vestida com os trajes de Filomele e outra, masculina, com as vestes de Tereus. O próximo quadro mostrava a imagem do homem deitado sobre a moça e, a seguir, outro em que ele segurava uma enorme faca junto à boca da jovem.

Deste vez Procne gritou. E continuou explodindo em gritos abafados pela mão de Filomele, que comprimia seus lábios convulsivamente, pedindo silêncio com os olhos. Quando, enfim, se acalmou, abraçou Filomele com um carinho angustiado.

— Entendi tudo, Filomele. Fui uma estúpida em não ter compreendido desde o  início. — Sua dor era grande demais. Só lhe restava um pensamento: vingança, vingança terrível contra o criminoso. —  Vou vingá-la, irmãzinha, e prometo que Tereu sofrerá na mesma intensidade.

E Filomele viu, nos olhos da irmã, o estranho brilho que a insanidade acende. 

Procne caminhou pé ante pé pelos corredores, até o quarto do filho. A ama, sentada ao lado berço, pousou em Procne os olhos embaçados de sono.

— Vá para seus aposentos e descanse um pouco — ordenou Procne. — Eu mesma cuidarei do menino. O senhor meu marido está fora e só chegará para o jantar e não tenho outra ocupação para esta tarde.

A ama agradeceu com trejeitos de cabeça e sumiu pela porta aberta. Procne enrolou o bebê nas cobertas, apertou-o contra o corpo e deslizou para a cozinha, sem fazer nenhum ruído. Olhou em volta. Os cozinheiros já haviam terminado os serviços do almoço e sobre o fogão estava um caldeirão de ferro com um ensopado de carneiro, já pronto para o jantar. Despejou o caldeirão pela janela. Lá fora, os cães se reuniram e num instante devoraram a inesperada refeição. Acendeu o fogo, encheu de água o caldeirão e pegou o facão que, por instantes, refletiu na lâmina polida seu louco olhar.

                                                                            

Tereu chegou em casa faminto. Os criados trouxeram-lhe o jantar e ele nem se preocupou em perguntar pela esposa. Depois, satisfeito, correu para o quarto do filho. O berço vazio e o nervosismo da ama lhe mostrou imediatamente que o filho havia desaparecido. Procuraram em todos os lugares e foi somente quando um dos cozinheiros encontrou uma ossada descarnada num cesto ao lado do fogão, que Tereu compreendeu o que havia acontecido. Errou como um animal ferido, com os olhos arregalados, quase saltando das órbitas, pregados no resto do ensopado no fundo do caldeirão.

— Procne! Filomela! Onde estão essas malditas? O que fizeram com meu filho? — pegou um machado e correu para fora do castelo. — Cadelas desgraçadas! Hei de alcançá-las nem que seja nos infernos!

Procurou durante dias e dias e, por fim, alcançou-as em Dáulis, na Fócida. Assustadas, vendo Tereu aproximar-se brandindo o enorme machado, as duas rezaram aos deuses, pedindo ajuda. E, do alto do Olimpo, Zeus escutou suas súplicas. Estendeu as mãos e, antes que o machado pudesse desferir seus golpes mortais, Procne havia se transformado em rouxinol, Filomela em andorinha e Tereu em mocho.



A fuga de Procne(Πρόκνη) e Filomela(Φιλομήλα). Por Emmanuel Mourão.


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