Capítulo 36 — A líder das Bacantes — Agave(Αγαυη)
Olimpo, a Saga dos Deuses
| Agave(Αγαυη). Por Emmanuel Mourão. |
Vendo que seu neto Penteu(Πενθεύς) não desistia da ideia de impedir Dionísio(Διονυσος), de chegar a Tebas, Cadmos(Κάδμος) abandonou a cidade junto com sua esposa Harmonia(Ἁρμονία), e fugiu para a Ilíria.
Quando Dionísio chegou, enfim, a Tebas, encontrou todo o exército de Penteu à sua espera. Foi preso e levado ao cárcere.
— Aquele maldito impostor não irá desencaminhar as mulheres do meu reino! — rosnava Penteu, medindo o amplo salão do castelo com passadas largas e nervosas — Quero ver se, na cadeia, conseguirá promover seus loucos rituais!
Mas esqueceu-se que Dionísio era um deus. E ele, mentalmente, mobilizou os espíritos da natureza que foram se aproximando, escondidos por uma proposital invisibilidade. Os silfos mergulharam os guardas em sono profundo, os duendes roubaram as chaves da cadeia e as salamandras atearam fogo ao castelo de Penteu, que conseguiu fugir e ocultou-se nas matas.
Dionísio deixou a cadeia e dirigiu-se à praça principal. Os Sátiros(Σάτυρος) e as Bacantes(Βάκχαι) foram se chegando e formaram seu exótico cortejo, que foi percorrendo as ruas da cidade cantando estranhas canções, entremeadas de silvos agudos e prolongados. Pouco depois, juntou-se ao cortejo Príapo(Πρίαπος), o estranho e disforme Príapo, que a todos chocava com a visão incomum de seu falo gigantesco. Diziam que era filho de Afrodite(Αφροδίτη) e Dionísio, após este ter retornado da India. Diziam também que Hera(Ἥρα), ciumenta dos amores de Afrodite, fizera Príapo nascer tão deformado que a própria mãe o abandonou no campo, onde foi encontrado e criado por pastores.
E o cortejo cantava e dançava e, pouco a pouco, os homens de Tebas mergulharam em sono profundo e as mulheres, tomadas por uma inebriante excitação, aderiram ao cortejo, também cantando e dançando. E, entre elas, estava Agave(Αγαυη), a mãe de Penteu.
Dionísio ia à frente do cortejo, balançando o corpo numa cadência sensual e emitindo sons que obstruíam o raciocínio e estimulavam os instintos. Subiram o monte mais próximo até encontrarem uma clareira que coroava seu cume. E, lá em cima em meio a cantos e danças, as mulheres abraçaram-se aos Sátiros, ondulando seus corpos seminus em meneios lascivos.
Dionísio não tirava os olhos de Agave. Mesmo em meio à música, não se esquecera das calúnias que ela lançara contra Sêmele(Σεμέλη). Seu olhar magnético enlouquecia Agave cada vez mais e inspirava-lhe insanos delírios.
De seu esconderijo na mata, Penteu vira o cortejo subir o monte e, desesperado,seguira-o em silêncio, escondendo-se nas folhagens. Oculto próximo à clareira, viu os gritos e as danças, as mulheres enlouquecidas abraçadas aos corpos semi-humanos dos Sátiros, as Bacantes despidas incitando a desvairada sensualidade e viu Agave que se contorcia numa lúbrica cadência que se tornava cada vez mais intensa, acompanhando alouca melodia. Horrorizado, viu a mãe curvar-se para a frente, em meio às ondulações ritmadas do corpo, até que suas mãos tocaram o solo, agarrando-se à relva macia. E fechou os olhos quando um Sátiro aproximou-se dela e segurou-a pelos quadris. Quando tornou a olhar, o Sátiro se afastara e misturara-se às alegres Bacantes, mas outro já escondera Agave sob seu corpo lanoso.
Dionísio sorria, sem despregar, por momento sequer, sua atenção da louca Agave. Príapo se aproximou dela, com o falo monstruoso ereto como uma lança em´riste e um grito involuntário escapou da garanta de Penteu. Agave parou, escutou, e sua mente desvairada julgou ouvir o rugido de uma fera. Empurrou o Sátiro que ainda resfolegava sobre ela e rastejou até a moita que escondia Penteu. Pelo caminho armou-se com uma enorme acha. Parou junto às folhagens e ouviu a respiração entrecortada que vinha do meio dos arbustos. Bateu uma vez, bateu duas vezes, bateu com toda a força que a loucura despertara, até que o corpo inerte de Penteu caiu a seus pés com a cabeça emplastrada de sangue.
Agave gritou, quando viu que matara o próprio filho. Gritou, gritou, desceu o monte desesperada e só parou quando chegou às ruínas do castelo incendiado. E então compreendeu que perdera tudo.Arrasada e só, saiu da cidade e fugiu para a Ilíria, à procura dos pais.
Cadmos recebeu a filha com lágrimas nos olhos. E chorou mais ainda quando ela lhe falou sobre a destruição do castelo que ele tanto amara.
A notícia da chegada de Agave e dos últimos acontecimentos em Tebas correu por toda a Ilíria e todos olhavam cheios de curiosidade aquela que fora vítima da raiva de Dionísio. Até o rei Licoterses(Λυκοθέρση), o rei de um povo bárbaro, a noroeste da Hélade, em terras estranhas, de costumes e deuses igualmente estranhos, quis conhecê-la e seu coração se inundou de amor pela mulher de Tebas. E, atraído pela sua formosura, desposou-a.
Cadmos e Harmônia foram viver no palácio de Licorteses e tudo fizeram para que a filha se esquecesse rapidamente dos trágicos acontecimentos por que passara e que deixaram em seus olhos um brilho desvairado. E quando Licorteses morreu, Cadmos assumiu o trono da Ilíria. Houve quem dissesse que Agave assassinara o rei, seu marido, para dar o trono ao pai. Mas nunca se pôde saber disso com certeza, pois Cadmos jamais contou para ninguém, nem mesmo para Harmonia, que vira a filha, em meio a risos tresloucados, colocar um estranho pó na bebida do rei.
No fim da vida, cansados e velhos, Cadmo e Harmonia foram transformados em serpentes e levados para os Campos Elíseos.
...
Comentários
Postar um comentário