Capítulo 35 — A grande amiga de infância — Palas(Παλλὰς)

 

Capítulo 35 — A grande amiga de infância — Palas(Παλλὰς)

Olimpo, a Saga dos Deuses 



Palas(Παλλὰς). Por Emmanuel Mourão.





Dionísio(Διονυσος) voltou ao Olimpo logo depois que Agave(Αγαυη), em seu louco delírio, matou o próprio filho e fugiu de Tebas. Mal chegou à morada dos deuses, encontrou Athena(Ἀθάνα) que, em seu observatório de pedras, assistira ao trágico fim de Penteu(Πενθεύς)

— Dionísio — disse ela, abrindo os braços para um abraço — você fez o que tinha que ser feito. Agave mentiu, envolvendo o nome de Sêmele(Σεμέλη) e Zeus(Ζεύς), e Penteu recusou-se a recebê-lo em seu reino. E ainda ousou trancá-lo em uma cadeia.


Dionísio abraçou a deusa, mas não havia ternura em seu olhar.

— Às vezes penso que não gosto dos humanos — disse ele, entre dentes — São falsos e ardilosos. É difícil saber se amam ou se odeiam.

Athena acariciou os cabelos rebeldes de Dionísio.

— Vamos lá, rapaz! Não se amargure por tão pouco. São apenas humanos...— e acrescentou, sorrindo — Vamos comemorar sua volta! Onde está aquele vinho delicioso que sempre traz consigo?

Dionísio mergulhou a mão no bolso da túnica e de lá tirou um cântaro. 

— Terá que beber aqui mesmo, deusa. Não tenho cálices comigo.

Athena absorveu a bebida com prazer.

— Magnífico — exclamou, estalando a língua — Um vinho destes merece um cálice de ouro. Será o meu presente para você, Dionísio. Um cálice de ouro!

Dionísio bebeu o resto do vinho e logo se esqueceu da promessa de Athena. E ficou ali a observar o mundo pois conseguira estabelecer seu culto por toda sua vastidão. 

Hefesto(Ἥφαιστος), depois que Afrodite(Αφροδίτη) o abandonou, unira-se a Cáris(Χάρις), uma das Cárites, e depois a Aglaia(Ἀγλαΐα), a mais nova das Graças. Foi pai de Ardalo(άρδαλος), escultor lendário, de Palemos(Παλέμος), que vivia em campanhas e viagens e de Perifetes(Περιφέτες), que se tornara um assaltante de estradas. Tinha pernas defeituosas e apoiava-se num bastão de bronze, que usava para atacar os viajantes. 

Mas a maior parte de seu tempo Hefesto passava na forja, aquecendo-se no calor das caldeiras e procurando esquecer o fogo do amor. 

Descendo do Olimpo, Athena embrenhou-se nas matas cerradas, à procura de Hefesto. Não tinha andado muito, quando ouviu alguém chamar seu nome. Parou e procurou com os olhos. A figura miúda e delicada de Palas, a filha de Tritão, surgiu por detrás de uma árvore gigantesca. 

— Palas! — exclamou a deusa, correndo para abraçar a amiga — O que faz por aqui, tão perto do Olimpo? 

Palas não conseguia disfarçar sua alegria. 

— Queria tanto vê-la, Athena! Esperava alguem que pudesse levar a você uma mensagem minha. 

— Mas o que houve, Palas? Algum problema?

Palas sacudiu a cabeça e olhou a deusa com ternura. 

— Nenhum problema... Apenas estava com saudades de você. 

Athena deu uma risada alegre e pousou um beijo rápido na boca delicada da moça. 

— Ora essa, Palas, não seja tão sentimental! 

— Athena— disse Palas, corando — você a única amiga que tenho. Sinto falta sua. 

Athena enlaçou-a com ternura. 

— Palas, sua amizade me faz muito feliz. Sei que não são muitos os que gostam de mim. Há até quem diga que sou má e vingativa. 

— Às vezes você é cruel, realmente, mas mesmo assim a amo muito. 

Athena não respondeu. Sabia que Palas se referia a Aracne(αραχνε)

Aracne era uma jovem linda, filha do tintureiro Idmon(Ίδμων). Era conhecida como perfeita bordadeira e tecelã e seus trabalhos eram admirados em toda a Grécia. Mas era vaidosa. 

— Não existe melhor bordadeira do que eu! — dizia ela a todos os que admiravam a beleza de seus tecidos. — Meus trabalhos são mais perfeitos que os de Athena! 

Assustadas, as pessoas a advertiam e aconselhavam-na a não desafiar Athena, a protetora dos fiandeiros. Mas Aracne não tinha medo. Suas palavras chegaram aos ouvidos da deusa que se disfarçou em uma anciã e procurou a moça.

— Aracne, — disse a anciã — seus bordados são maravilhosos, mas não deve provocar a ira dos deuses. Eles se ofendem com facilidade... 

Aracne deu uma gargalhada. 

— Bondosa senhora, - disse ela, empinando o nariz — agradeço seus cuidados, mas sei que meus trabalhos são melhores que os de Athena e, se a visse, iria desafiá-la a fazer um bordado melhor do que o meu. 

Indignada, a velha revelou sua verdadeira identidade e aceitou o desafio. Começaram a bordar e a tecer telas com desenhos feitos por elas mesmas, que contavam histórias dos deuses. 

Quando terminaram, Athena viu que o trabalho de Aracne era uma perfeição. 

— Aracne, — disse ela, apontando para ela o dedo vingador — vou paralizar seus dedos, para que nunca mais possa bordar. 

Aracne gritou e correu, apavorada. Sabia que os deuses não voltavam atrás em suas ameaças. 

— Antes a morte, que ficar aleijda para sempre, vítima dos risos e chacotas daqueles que conheço! 

Tentou enforcar-se, mas Athena chegou a tempo e impediu o suicídio. Mas deixou-a pendurada na corda, transformada em uma aranha.

— Seu castigo, Aracne, — disse a deusa, apertando os dentes com raiva — será tecer. E assim será com toda a sua descendência.   

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Athena espiou Palas com o canto dos olhos. 

— Só sou cruel quando me agridem, Palas. Não vá me dizer que tem medo de mim. 

O rosto de Palas se iluminou e até seus olhos sorriram. 

— Medo de você, Athena? Nunca! Eu a amo muito!... 

Abraçaram-se carinhosamente. 

— Vamos caçar? — propôs Palas — preciso levar alguma carne para casa e há muito não nos divertimos juntas. 

— Você teve uma ótima idéia! — disse a deusa — O presente de Dionísio que espere! 

Embrenharam-se na mata, mas não se enpenharam em procurar uma caça. Conservaram, trocaram risadas e carícias, correram pela floresta densa. O dia já estava chegando ao fim, quando Palas exclamou: 

— Já é tarde! Não posso voltar sem uma caça! 

Vendo a aflição da amiga, Athena propôs: 

— Vamos nos separar. Esconda-se bem e atrairei algum animal. Não se preocupe, levará uma caça para casa. 

Palas se afastou e Athena emitiu uns sons estranhos pelos lábios semicerrados. Logo percebeu uma agitação diferente num arbusto ao longe.. Aproximou-se devagar, leve como uma pena. Apontou a lança e atirou-a. Ouviu o ruído de um corpo caindo sobre a relva. Correu para o arbusto e parou. A lança ainda tremia, cravada no coração de Palas. 

Ajoelhou-se ao lado dela e chorou. 

— Palas, o que fui fazer? 

Ficou durante muito tempo ao lado do corpo da amiga, velando seu sono eterno. Depois cobriu-a com folhas e terra. 

— Adeus, Palas — disse a deusa, baixinho. — Vou-me embora, mas levarei seu nome comigo. De hoje em diante, meu nome ritualístico será Palas Athena. 

Lançou um último olhar ao monte de terra e depois partiu, em direção à forja de Hefesto.   

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Abatida na Floresa sombria — Palas(Παλλὰς). Por Emmanuel Mourão.




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