Capítulo 34 — O deus grego do vinho, do teatro e da fertilidade —Dionisio(Διονυσος)
Olimpo, a Saga dos Deuses
Zeus(Ζεύς) não cabia em si de tanta felicidade. Seu filho estava ali perfeito e cheio de vida. Deu-lhe o nome de Dionísio(Διονυσος).
Fez um carinho na face rosada do bebê. A seu lado, Hermes(Ἑρμής) admirava o recém-nascido.
— Hermes — disse Zeus — entrego meu filho a seus cuidados. Não posso tê-lo comigo, no Olimpo, pois a vingança de Hera(Ἥρα) seria implacável. Leve-o à corte de Atamas(Ἀθάμας), o rei beócio da Queronéia e marido de Ino(Ἰνώ), irmã de Sêmele(Σεμέλη).
Hermes pegou a criança e partiu em direção à Beócia. Pelo caminho, lembrou-se de como socorrera Néfela(Νεφάλας), a primeira esposa de Atamas, quando ela o procurara, desesperada, pedindo-lhe para salvar o filho do altar de sacrifícios.
...
Atamas, neto de Deucalião(Δευκαλίων), e rei da Beócia, havia desposado em primeira núpcias Néfela, que lhe deu dois filhos, Frixo(Φρίξος) e Hele(Ἕλλη). Pouco depois conhecera Ino, irmã de Sêmele e, apaixonado por ela, repudiou sua primeira esposa. Casou-se com Ino e foi pai de Learco(Λέαρχος) e Melicertes(Μελικέρτης).
Ino, com ciúmes dos filhos do primeiro casamento de seu marido, engendrou um plano para destruí-los. Esperou que chegasse a época da fome, quando então Atamas enviava mensageiros ao Oráculo, para buscarem a solução para o problema.
Quando os mensageiros voltaram com a resposta, interceptou a mensagem do oráculo e trocou-a por outra, que dizia o seguinte: "Para que a fome seja afastada de seu país, seu filho Frixo deve ser imolado num sacrifício a Apolo(Ἀπόλλων).
Desesperada, sabendo que seu filho ia ser sacrificado, Néfele orou:
— Hermes, o mais rápido dos deuses, salve meu filho!
Hermes escutou suas preces e chegou, veloz como o raio. Trazia entre os braços um carneiro com a lã de ouro.
— Tome, Néfele, o carneiro do velocino de ouro. Ele tem o dom de voar pelos espaços.
Frixo e Hele deixaram a cidade no dorso do carneiro, em direção ao Oriente. Pelo caminho, Hele caiu no mar e se afogou. Frixo conseguiu chegar à Cólquida, onde se casou com Calcíope(Χαλκιόπη), a filha do rei Eetes(Αἰήτης). Depois sacrificou o carneiro a Zeus e ofereceu o velo de ouro ao rei. Tão precioso era aquele velocino, que o rei consagrou-o a Ares(Ἄρης), em ritual. Em meio a preces e cânticos, fez a oferenda:
— Ares, senhor da guerra e das armas, aceite este Tosão de Ouro e o proteja com a ambição humana, dando-lhe sua proteção.
Ares aceitou a oferenda, pendurou-a no maior carvalho do seu bosque encantado e confiou sua guarda a um temível dragão, que o velava dia e noite.
...
Hermes chegou, enfim, ao castelo de Atamas e confiou ao casal real a sua divina carga.
— Em nome de Zeus — disse ele — confio à sua guarda o pequeno Dionísio. Devem protegê-lo dos ciúmes de Hera e dar a ele a educação dos filhos dos reis.
Ino apertou o bebê contra o seio.
— Tão lindo e tão frágil... Como pode a deusa ter ciúmes de uma criança tão indefesa?
Atamas, com uma ruga na testa, viu Hermes se elevar nas asas de suas sandálias de ouro, afastar-se em direção ao Olimpo, transformar-se em um ponto contra o céu azul e desaparecer, tragado pelo infinito. E então enlaçou a esposa, num gesto de proteção.
— Ino, temo atrair para nós a vingança de Hera. Esta criança esteve no ventre de sua irmã, que teve uma morte súbita e inesperada. Quem pode garantir que não foi Hera quem destruiu a pobre Sêmele?
Ino apertou ainda mais a criança.
— Tem razão, meu marido. Mas não podemos abandonar o pequeno Dionísio, que nos foi confiado tão zelosamente por Hermes, em nome de Zeus. Vamos vestí-lo com roupas de menina e Hera jamais o descobrirá.
Mas Hera descobriu e desceu sobre o casal real toda a fúria de sua vingança. Apontou para Ino e feriu-a com a loucura. E todos viram, horrorizados, a rainha cantar e dançar, desvairada, em volta de um grande caldeirão de água fervente e, no auge da demência, atirar às águas fumegantes seu próprio filho, Melicertes(Μελικέρτης).
Enquanto aquela desgraça abalava o castelo, Atamas e filho mais velho, Learco(Λέαρχος), caçavam na floresta. Um veado pastava, ao longe, e Atamas apontou a arma. Com calma, descansou na pontaria. E Hera novamente estendeu a mão vingativa.
Atamas disparou, errou o alvo e Learco caiu ao chão, ferido de morte. Cego de dor, Atamas voltou ao castelo, mas não chegou a tempo de impedir que Ino, a louca, se atirasse ao mar, abraçada ao cadáver do caçula. Atamas foi banido da Beócia, acusado do assassinato do próprio filho. E foram muitos os povos que o viram passar, alquebrado e destruído, triste farrapo a chorar a perda da família e do trono.
...
Zeus não se irritou e nem se entristeceu com o ciúme de Hera, que destruiu Atamas e sua fmília. Sua única preocupação era Dionísio. Tomou-o entre os braços e levou-o a Nisa, onde o deixou aos cuidados das Ninfas e dos Sátiros(Σάτυρος) que viviam naquela região. Para que o menino não fosse encontrado por sua vingantiva esposa, transformou-o num bode. Desta maneira, pôde se confundir facilmente com os Sátiros, que eram metade bode e metade homem.
Desta vez, Hera não conseguiu achar Dionósio.
O menino cresceu entre aqueles seres da natureza, até a adolescência, quando Zeus novamente o procurou e colocou a mão sobre sua cabeça.
— Filho muito querido, meu substituto e sucessor, neste momento determino que assuma a forma humana.
Imediatamente Dionísio se transformou num rapaz de feições suaves e belas. Sem retirar a mão, Zeus continuou:
— Deste momento em diante, sua natureza irá se manifestar. Seja um deus sábio e justo.
As ninfas fizeram uma festa, quando viram a mudança de Dionísio. Dançando em sua volta, exclamaram entre canticos e gritos de alegria:
— Dionísio agora é humano!
— Como é jovem, como é belo!
— É um deus, é filho de Zeus!
— E é nosso!... E é nosso!
Os Sátiros chegaram, entrando na dança com movimentos lúbricos nos corpos semi-humanos. Dionísio começou a sentir uma leve tonteira e uma súbita vontade de dançar. Em pouco seu corpo se agitava numa cadência rítmica e de seus lábios saíam palavras initeligíveis. Parecia possuído por uma força estranha, que comandava seus movimentos. E depois caiu ao caiu ao chão, sacudido por convulsões.
Quando se acalmou de nada se lembrava. Viu os rostos de seus amigos debruçados sobre o seu e percebeu o brilho de curiosidade em seus olhos. Olhou para o próprio corpo e descobiu sua nova forma humana. Levantou-se devagar e procurou um canto onde pudesse ficar sozinho.
— O que houve comigo? — pensou, apertando a cabeça entre as mãos. – Estive tão perto da divindade, mas me senti ameaçado pela loucura. E que medo é este que sinto agora, quando penso em entregar-me novamente à inconsciência?
As Ninfas e os Sátiros passaram a olhar Dionísio com desconfiança. Tornara-se estranho, depois que assumira a forma humana. Levava horas parado, os olhos grudados no céu, com um ar sereno no rosto. Às vezes, em meio a alguma conversa, sua expressão se modificava e, de repente, parecia que não ser mais ele quem falava. E depois, invariavelmente, viam-no sacudir a cabeça, olhar em volta com surpresa e murmurar, confuso:
— O que aconteceu? O que foi que falei? Não me recordo de nada!...
À noite, quando dormia, saía de seu corpo fífico e se encontrava com Zeus.
— Meu filho, você está sendo preparado para me substituir. Sei que é difícil, mas é necessário. Seu organismo físico tem que se adaptar aos poucos, seus centros energéticos estão entrando em maior atividade e todas as suas áreas cerebrais sofrem os impulsos energéticos necessários a seu estímulo. Em pouco tempo sua preparação estará concluída.
Ao regressar ao corpo físico, Dionísio não conseguia se recordar direito do que acontecera durante sua viagem astral. Lembrava-se vagamente de ter sonhado com seu pai, mas não se recordava das palavras que ele lhe dissera.
Sentia uma necessidade quase orgânica de se recolher a seu interior, de mergulhar no mais profundo recanto de seu ser. E então imagens nítidas lhe surgiam na mente, mas não podia compreendê-las. —
Serei deus ou serei insano? — perguntava a si mesmo — Alcançarei a divindade ou afundarei na loucura? Como posso permanecer consciente neste mergulho que leva ao meu interior? E, se perder a consciência, deslizarei para a insanidade?
As dúvidas abanavam seu espírito. Um dia, estava ele sentado de baixo de uma parreira, meditando sobre os fenômenos que lhe aconteciam e não conseguia explicar quando, sem sentir, começou a brincar com a uvas maduras, espremendo-as num cálice improvisado. Teve sede e bebeu o sumo das frutas. Sentiu-se docemente inebriado. Uma tonteira agradável tomou conta de sua mente e uma alegria invadiu seus sentidos.
— Vejam! — gritou uma Ninfa — Dionísio está feliz! Canta e dança de alegria!
Em meio à sua euforia, Dionísio ensinou às Ninfas e aos Sátiros a extraírem o sumo daquelas frutas encantadas. Estava descoberto o vinho.
Embriagados, entregaram-se a loucas danças, até caírem desfalecidos.
Dionísio não conseguiu mais elevar-se em suas projeções astrais e seus centros energéticos diminuíram sua atividade. Não se preocupava mais em mergulhar em seu interior, pois a bebida inebriante lhe dava uma falsa sensação de abertura psíquica. Suas proteções enfraqueceram, Hera o encontrou e apontou para ele a mão tirana. E Dionísio enloqueceu.
Vagou sem rumo pelo mundo, andou pelo Egito, pela Síria, pela Ásia e enfim chegou à Frígia. Sentou-se à beira de um lago e ficou olhando sua imagem refletida no lago. Não viu Cibele(Κυβέλη) chegar.
Cibele, a grande deusa da Frígia, era a personificação das forças naturais. Reunia em si o poder do Ar, do Fogo, da Terra e da Água. De onde veio? Ninguém sabia. Havia quem dissesse que era a própria Gaia(Γαῖα) que, em seus passeios pela Frígia, assumira uma forma humana diferente daquela que normlamente usava e passeava numa carruagem puxada por leões, seguida por um cortejo de Curetes.
Cibele se aproximou de Dionísio e tocou-lhe o ombro. Este pousou na deusa seu desvairado olhar e soltou uma gargalhada.
— Quem é você, minha bela? É real ou fruto de minha imaginação? Vamos, desapareça em meio à fumaça, da mesma forma que somem os vultos que me perseguem dia e noite.
Cibele tomou-o pela mão e fez com que ele se erguesse.
— Venha comigo, Dionísio, venha recuperar aquilo que lhe pertence por direito de origem.
Dionísio a seguiu docilmente. Entrou em sua carruagem e deixou que ela o levasse para seu Templo, onde somente os iniciados podiam entrar. Despiu-o e fez com que mergulhasse nas águas da purificação. Depois entregou a ele uma veste branca como as nuvens e conduziu-o ao centro do templo. Dionísio sentiu uma descarga elétrica muito sutíl na parte inferior de sua coluna vertebral. Estremeceu. Cibele tocou em todos os seus centros energéticos, de baixo para cima e, por fim, espalmou a mão direita sobre sua cabeça.
— Dionísio, seus centros de força agora estão livres e desimpedidos e a serpente de fogo está prestes a se erguer. Inspire profundamente. Dionísio fechou os olhos e fez o que Cibele mandava. Logo o fogo preso na base da coluna vibrou com mais ardor. E, em meio a uma dor profunda e quase irreal, a serpente se elevou até o alto de sua cabeça. Dionísio gemeu e se curvou sobre seu própria corpo. Cibele o amparou e fez com que se levantasse novamente. Uma clareza súbita iluminou sua mente e a imagem de Zeus ocupou seus pensamentos. E, no mesmo momento, ele sentiu que Zeus e ele eram uma só pessoa. Uma arrepio violento sacudiu seu corpo e ele abriu os olhos devagar. Cibele sorria.
...
Cibele iniciou Dionísio em seus cultos sagrados. Algum tempo depois, com sua deidade desperta e conscientizada, e livre do estigma da loucura, ele partiu para a Trácia. Mensageiros correram a avisar ao rei Licurgo(Λυκοῦργος) sobre a chegada do jovem deus.
— Virá ele com o intuito de usurpar meu trono? — esbravejou Licurgo — Pois façam-no prisioneiro!
A guarda real partiu para cumprir as ordens, mas Dionísio pressentiu o perigo. Atirou-se no mar e mergulhou bem fundo, indo buscar abrigo junto a Tétis(Τηθύς), a nereida, que uma vez havia acolhido Hefesto(Ἥφαιστος), quando foi precipitado do Olimpo pela colérica Hera. Em seu refúgio marinho, Dionísio meditou profundamente e Licurgo enlouqueceu. O país se tornou pobre e estéril, e os súditos reais consultaram o oráculo, que falou: A cólera de Dionísio caiu sobre sua cidade. Para apaziguá-la, terão que oferecer seu Rei em sacrifício.
O povo da Trácia não hesitou ante a proposta do oráculo e Licurgo foi despedaçado entre quatro cavalos.
Dionísio surgiu das águas cercado de glórias e ensinou a todos seu novo culto. O povo inebriou-se com o vinho e dançou, até cair ao solo, enchendo a alma com o êxtase e o entusiasmo do jovem deus.
Dionísio partiu para a Índia, em um carro puxado por panteras. Os Sátiros formaram seu cortejo e as Ninfas que o criaram foram transformadas na constelação das Híades(Ὑάδες) e se colocaram no firmamento, próximas das Plêiades. Da Índia voltou para a Grécia, introduzindo seu culto em várias cidades. Quis então ir à Ásia e contratou os serviços de um navio pirata. Tão logo o navio zarpou, a tripulação tentou aprisioná-lo, com a intenção de vendê-lo como escravo. Dionísio, de pé no tombadilho, ergueu os braços para o céu e convocou os poderes da natureza. Seu corpo imponente, rodeado de estranha luz, começou a emitir poderosas radiações. Os remos tomaram a forma de serpentes e o navio estancou no meio do oceano. Enlouquecidos, os piratas pularam no mar e foram transformados em Delfins(δελφίς).
Finalmente, Dionísio conseguiu estabelecer seu culto em todo o mundo. Dando sua missão por terminada, subiu ao Olimpo. Entrou no mundo sem tempo e, unificado com Zeus, se viu lutando na guerra dos Titãs, abatendo o gigante Êurito(Εὔρυτος).
E Zeus sorriu, feliz, vendo afinal seu filho e sucessor perto de si, participando de sua glória infinita.
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