Capítulo 33 — A "Mãe" de Dionisio e amante de Zeus — Sêmele(Σεμέλη)

  

Capítulo 33 — A "Mãe" de Dionisio e amante de Zeus — Sêmele(Σεμέλη)

Olimpo, a Saga dos Deuses 


   
Sêmele(Σεμέλη). Por Emmanuel Mourão.




Zeus(Ζεύς) se aproximou e examinou-a com os olhos. 

— Você é jovem e forte. Servirá perfeitamente a meus propósitos. Quer me ajudar, Sêmele(Σεμέλη)

— O que pretende com esta menina, Zeus? — perguntou Athena(Ἀθάνα)


Sêmele arregalou os olhos. 

— Zeus?! — pensou ela. — Mas ele parece um homem, apenas. Não é possível! 

— Meu filho precisa de um ventre para crescer e terminar sua formação, Athena. Melhor que seja  uma mãe desconhecida, para não atrair a ira de Hera(Ἥρα)

Sêmele fechou os olhos e esfregou-os com força. 

— Zeus, Athena, Hera?!... Acho que estou tendo uma alucinação. Abriu os olhos devagar. Não era uma alucinação. 

— E, então, Sêmele, quer me ajudar? 

Ela quis responder, mas engasgou. Sacudiu debilmente a cabeça e balbuciou: 

— Sim... Bem... Mas o que devo fazer? 

Os olhos de Zeus sorriram, ensombreados pelas sobrancelhas cerradas. Espalmou a mão direita sobre a cabeça da moça. 

— Em primeiro lugar, relaxe... Assim... 

Um torpor desconhecido escorreu por seu corpo, tornando-o quase insensível. Seus joelhos se dobraram e ela se estirou no solo. Zeus ajoelhou-se a seu lado, abriu seu cinto de couro e ergueu-lhe as vestes curtas até a altura do peito. E, como num sonho, Sêmele sentiu que Zeus riscava a pele de seu ventre, em forma de cruz. Teve a impressão de que suas carnes se abriam, mas não sentiu dor. Não estranhou quando Zeus introduziu em seu corpo, pela fenda aberta em seu ventre, aquele coração sangrento e palpitante. E mal percebeu quando Zeus tornou a fechar, com uma suave carícia, o talho aberto. Zeus se levantou e esperou que ela se recuperasse. Depois ajudou-a a se erguer. 

— Sêmele, você carrega agora em seu ventre o embrião de um filho que gerei com cuidado e carinho. Cuide dele e eu cuidarei de você.   

                                                                                ...   

Sêmele olhava o ventre com atenção, procurando alguma cicatriz, alguma marca que lhe indicasse que não fora tudo apenas um sonho, ou uma alucinação. 

Tão distraída estava, que não viu seu pai chegar. 

— Que foi, Sêmele? Algum problema? 

— Pai, acho que estou ficando maluca. Imagine só o que me aconteceu.

E contou tudo, desde o sonho com o menino, até o momento em que se viu inexplicavelmente só, no mesmo local onde, minutos antes, estivera com Zeus e Athena. 

— Minha filha, acredito em você e acho que os deuses a escolheram para uma importante missão. Fique atenta, pois possivelmente será procurada por eles novamente. 

Pelo rosto de Sêmele passou um ar incrédulo. 

— Mas, papai, acho que foi tudo um sonho. Como posso acreditar que tenha tido um contato real com os deuses? 

Cadmos(Κάδμος) se sentou a seu lado. 

— Sêmele, por que não crê que os deuses possam falar aos humanos? Eu sabia que um dia isto iria lhe acontecer, ou a um dos seus irmãos. Sempre foi assim, em nossa família. Lembre-se que foi graças à proteção de Athena que ganhei o trono de Tebas. E lembre-se também que foi o próprio Zeus que me deu sua mãe em casamento. 

Sim, Sêmele se lembrava bem das histórias que haviam embalado sua infância. 

Por várias vezes seu pai lhe contara como fôra parar na Trácia, com sua avó, à procura de Europa(Ευρώπη). Cadmos e a mãe foram bem  acolhidos pelos habitantes locais, mas pouco depois ela adoeceu e morreu. 

Triste com a morte da mãe, Cadmos foi consultar o oráculo, que lhe disse para desistir da perseguição de Europa, pois seu destino era a criação de uma nova cidade. Para saber com precisão, o local, deveria seguir uma vaca marcada com o sinal da lua, até que ela caísse de cansaço. Cadmos partiu e procurou nos rebanhos de todas as cidades a vaca que tivesse a marca da lua. Até que viu os rebanhos de Pelargós(πελαργός) e, no meio dele, uma vaca que tinha no flanco um disco branco, o sinal da lua. A vaca se desgarrou do rebanho e Cadmos a seguiu, com alguns companheiros, durante dias e dias, até que ela se deitou para descansar. 

Pediu aos companheiros que fossem buscar água em uma fonte perto dali. A fonte era guardada por um dragão, filho de Ares(Ἄρης), Ismênio(Ἰσμήνιος), que os matou. Louco de ódio, Cadmos liqüidou o dragão. E foi então que Athena apareceu. 

— Cadmos ,  — disse ela — arranque os dentes do monstro que acabou de matar e os semeie na terra. 

Cadmos fez o que a deusa ordenara e viu surgir da terra homens armados, guerreiros ameaçadores. Chamou-os de Spartoi(Σπαρτοί), que significa "Os Semeados". 

Escondido atrás de uma árvore frondosa, Cadmo atirou pedras entre os guerreiros e eles, não vendo quem os atacava, mataram-se uns aos outros. Somente cinco sobreviveram, Equíon(Ἐχίων), Udeu(Οὐδαῖος), Ctônio(Χθόνιος), Hiperenor(Ὑπερήνωρ) e Peloro(Πέλωρος)

Ares reclamou a morte do dragão e fez com que Cadmos servisse durante oito anos como seu escravo. Depois do longo castigo, graças à proteção de Athena, Cadmos recebeu o trono de Tebas e Zeus o casou com Harmonia(Ἁρμονία), filha de Ares e Afrodite(Αφροδίτη).

A lembrança dessas histórias passadas fugiu da mente de Sêmele. 

— Sim, pai, você sempre me contou sobre os deuses, mas é diferente quando aconteceu conosco. Parece tão irreal...   

                                                                                ...   

Os olhos de águia de Hera não perderam Zeus de vista nem por um momento. Depois fixaram-se, cruéis, em Sêmele. Esperou o momento oportuno, tomou a forma de uma velha mulher, bateu à porta de Cadmos e pediu para ver Harmonia, a mãe de Sêmele. 

— Minha rainha — disse a anciã, em tom lamuriento — vim de muito longe e viajo há meses. Suplico que me dê hospedagem por alguns dias, até que me restabeleça e possa continuar meu caminho. 

Harmonia teve pena da velha e mandou que os criados e instalassem em um dos quartos de hóspedes. À noite, convidou-a para jantar. A anciã logo fez amizade com Sêmele, atraindo a atenção da moça com suas fantásticas histórias sobre deuses, dragões, monstros e entidades as mais diversas. Depois do jantar, quando se viu à sós com Sêmele, baixou a voz e sussurrou: 

— Sabe, menina, posso também conhecer o passado e o futuro e vejo que espera um filho. 

Sêmele arregalou os olhos. 

— A senhora viu mesmo isso? Então é verdade! Pensei que tinha sonhado, mas, se tenho um filho no ventre, então tudo aconteceu realmente! Espero um filho de Zeus! 

A velha apertou mais as pálpebras enrugadas. 

— Como sabe que é de Zeus? Não foi isso o que eu vi... 

— Mas só pode ser! — protestou Sêmele. E contou à velha a sua incrível história. 

A velha escutou com visível interesse e depois falou: 

— Acredito em tudo o que disse, menina, mas acho que você pode ter sido enganada. Talvez o homem não fosse Zeus. Muitas entidades malignas se fazem passar por ele, para alcançarem suas torpes finalidades. Você pode ter sido ludibriada por uma delas. 

— Não é possível! — exclamou a moça, horrorizada — Se isto aconteceu mesmo, o filho que tenho comigo pode bem ser uma criatura terrível e hedionda. Céus, que horror! 

— Não fique assim, minha criança — disse a anciã, em tom tranqüilizador — É fácil descobrir isso. Com certeza Zeus, ou quem quer que tenha se passado por ele, voltará a procurá-la. Então, você pedirá que lhe apareça em toda a sua glória, para mostrar que é realmente o deus dos deuses. 

— E se ele não quiser?

A velha se aproximou mais e segredou: 

— Antes de fazer o pedido, peça que jure por Estige(Στύξ), que fará o que lhe pedir. Se ele for Zeus, realmente, e se jurar por Estige, atenderá a qualquer pedido seu. 

Sêmele repetiu, sem compreender direito: 

— Estige? Jurar por Estige? O que é isso? 

E a velha explicou: 

— Estige era uma ninfa, filha de Oceano(Ὠκεανὸς) e Tétis(Τηθύς) e um dia tornou-se mãe do Zêlo(ζῆλος), do Poder, da Vitória e da Força. Na guerra dos Titãs, Estige e seus filhos foram convocados por Zeus e auxiliaram-no a conseguir a esperada vitória. Como recompensa, Zeus deu a ela a garantia de todos os juramentos formulados pelos deuses. A palavra jurada por Estige é irretratável. 

Quando a velha foi embora, deixou Sêmele decidida a descobrir a verdade sobre a real paternidade de seu filho. 

Algum tempo depois, estava Sêmele passeando pelos jardins, quando foi visitada por Zeus. 

— E, então, Sêmele? — perguntou ele — Vim saber como está passando. 

Ela olhou o deus com atenção, procurando vislumbrar entre os cabelos e barbas grisalhas algum sinal de sua divindade. 

— Muito bem, obrigada. Mas gostaria de lhe fazer um pedido. 

— Pode falar, Sêmele. Peça o que quiser e eu concederei. 

— Concederá mesmo? — perguntou ela, num tom de dúvida. — Então jure. Jure por Estige! 

Ele achou graça. 

— Está bem... Juro por Estige que concederei seu pedido. 

— Quero que me prove que é Zeus, realmente, mostrando-se a mim em toda a sua glória e esplendor. 

Um véu de preocupação escureceu o semblante do deus. 

— Sêmele, é melhor que volte atrás neste seu desejo. Nenhum ser humano consegue suportar a visão de todo o esplendor de um deus. 

Mas ela foi irredutível. 

— Você jurou por Estige! Não pode recusar! 

Zeus não conseguiu dissuadí-la e teve que ceder. E, em meio a uma explosão de raios e trovões, ele se transformou em pura luz. Sêmele não suportou aquela visão e caiu fulminada. 

Zeus se curvou sobre ela e, em gestos rápidos, retirou a criança de seu ventre e colocou-a dentro de sua própria coxa. 

— Pronto, filho meu. Aí ficará até o final de sua gestação. Desta vez, eu mesmo cuidarei de proteger seu crescimento. 
                                                                                ...


Sêmele(Σεμέλη) diante da revelação divina de Zeus(Ζεύς). Por Emmanuel Mourão.




Comentários