Capítulo 31 — A novilha branca — Io(Ἰώ)

 

Capítulo 31 — A novilha branca de Zeus — Io(Ἰώ)

Olimpo, a Saga dos Deuses 

Io(Ἰώ). Por Emmanuel Mourão.



Sêmele(Σεμέλη) tivera uma noite agitada. Em sonhos, uma criança segurava suas mãos, enquanto insistentemente a chamava de mãe. Ainda em sonhos, a jovem sacudia debilmente a cabeça, tentando explicar ao menino que jamais tivera filhos. Mas o menino insistia:

— "Mãe! Sou um deus, mãe! Preciso de sua ajuda para voltar ao mundo!"

E, quando despertou, o sol que se infiltrava pelas cortinas finas enchia seu quarto de uma luz quase irreal. 


Sêmele se levantou com a certeza íntima de que aquele seria um dia muito especial.

De repente, vindas de alguma lugar de sua memória, as histórias que seu pai Cadmos(Κάδμος),  o rei de Tebas, lhe contava quando era pequena, chegaram à sua mente com um colorido muito vivo. E, de alguma forma, identificou-se com sua trisavó, Io(Ἰώ), que tivera para si o amor de Zeus(Ζεύς), o supremo senhor do Olimpo.

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Io(Ἰώ) era de raça real, filha de uma princesa com o rio Ínaco. Muito cedo tornou-se sacerdotiza de Hera(Ἥρα), que a encarregou de acender o fogo sagrado, no início de cada ritual.

Logo Io se tornou a virgem vestal preferida de Hera... e de Zeus. Nos ofícios do Templo, os movimentos graciosos da vestal cativaram a atenção do senhor do Olimpo. E isto não passou despercebido a Hera, que começou a tratar a sacerdotiza com descaso e rispidez. 

Io, sem compreender a súbita mudança que ocorrera no comportamento da deusa, foi se queixar a Zeus. 

— Zeus, senhor deus do Olimpo, não posso entender porque a deusa, a quem sirvo com amor e respeito, hoje me trata tão mal. Por mais que faça, não consigo descobrir como foi que a ofendi.

Zeus despejou na vestal um sorriso tranquilizador.

— Hera tem ciúmes de você, Io.

A moça se calou, muda de espanto. Depois, com muito custo, conseguiu balbuciar:

— Ciúmes de mim? Mas, por quê?

O beijo que Zeus pousou em seus lábios foi a mais eloquente das respostas. Io correu e foi se esconder no silêncio do Templo. E foi lá que Zeus a encontrou, toda encolhida, escondida atrás do púlpito do capelão.

— Tem medo de mim ou do meu amor por você, Io? Se é a mim que teme, seus temores são infundados. Lembre-se que sou Zeus, o deus supremo, sou justiça e bondade. Se tem medo do amor, saiba que ele é a suprema integração entre o homem, a mulher e o universo. Só aquele que sabe amar pode um dia chegar a comungar com o Grande Espírito e absorver dele a essência da Criação.

Estendeu a mão e atraiu-a para si.

— Olhe nos meu olhos, Io. Se realmente não me quer, diga-me agora e não mais a importunarei.

O olhar de Zeus derreteu a resistência da vestal, desarticulou sua vontade e transformou seu medo num desejo incontido de amar. Apoiou-se no púlpito do capelão e recebeu o amor que Zeus lhe oferecia.

Naquele dia, Zeus percebeu que Hera o olhavam com uma insistência inusitada. Os olhos aguçados da deusa procuravam absorver todos os seus pensamentos. No mesmo instante, Zeus bloqueou a mente, evitando assim qualquer possível invasão telepática. Hera percebeu, mas não disse nada. Mas Zeus não pode impedir que ela perscrutasse a mente de Io. 

Para proteger a vestal da vingança cruel da esposa, Zeus a transformou em uma novilha branca. 

Hera procurou a sua sacerdotiza por todos os cantos, mas não a encontrou. 

— Ela não pode ter sumido! — resmungava, olhando pelas galerias — Deve estar escondida por aí. 

A novilha branca, solta nos jardins do Templo, logo atraiu sua atenção. Observou-a de longe e um sorriso maldoso contorceu seus lábios finos. 

— Então é isso! Vamos agora ver quem é mais esperto! 

Revestiu-se de doçura e foi ao encontro de Zeus. 

— Veja, Zeus — disse ela, toda meiga — como é linda a novilha que deixaram nos jardins do meu Templo. Deve ser alguma doação anônima. Vou consagrá-la ao Templo e convoquei a presença de Argos-dos-Cem-Olhos para guardá-la. 

Zeus esticou os olhos para a novilha branca que passeava pelos jardins. 

—  Pobre Io! — pensou ele — Argos é um guardião eficiente e cruel. 

Argos(Άργος) era conhecido por sua força prodigiosa. Sabia-se que havia matado Equidna(Ἔχιδνα), a monstruosa filha de Gaia(Γαῖα) e Tártaro(Τάρταρος), que tinha o costume de devorar os caminhantes, e que era mãe de filhos monstruosos como Cérbero(Κέρβερος)Hidra de Lerna(Λερναία Ὕδρα), Leão da Meméia, dragão da Cólquida e a águia que bicava o fígado de Prometeu. A Argos atribuía-se também a morte de um touro que devastava a cidade da Arcádia. Era um eficiente vigia, pois ao dormir, fechava somente cinqüenta dos seus cem olhos. 

— Pobre Io! — pensou Zeus, novamente — Mas darei um jeito nisto.

Pediu a Hermes(Ἑρμής) que libertasse a novilha. Mas Hermes não encontrva um meio de ludibriar o monstro terrível. Até que Pã surgiu com a esperada solução. Entregou a Hermes sua flauta encantada e ensinou como usá-la. O deus mensageiro tocou a melodia mágica e um sono incontido fechou todos os cem olhos de Argos. E Hermes pode então liquidá-lo, rachando-lhe a cabeça com uma imensa pedra.

Io fugiu e vagou pelo mundo em terras estranhas. Hera, furiosa, lançou atrás dela um enxame de abelhas, que a atormentavam sem trégua, picando-lhe os flancos. A novilha, enfim, chegou ao Egito e foi mãe de Épafo, filho de Zeus. Hera desistiu da perseguição e, em agradecimento aos serviços do fiel Argos, enfeitou com os seus cem olhos a cauda do pavão. 

Io reinou no Egito com o nome de Ísis e, quando morreu, foi transformada em constelação.   

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A treansformação dolorosa de Io(Ἰώ). Por Emmanuel Mourão.


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