Capítulo 29 — O Homem disputado por duas Deusas — Adônis(Ἄδωνις)

 

Capítulo 29 — O Homem disputado por duas Deusas — Adônis (Ἄδωνις)

Olimpo, a Saga dos Deuses 

Adônis (Ἄδωνις). Por Emmanuel Mourão.



Debruçada na beirada de pedra, Afrodite(Αφροδίτη) se divertia vendo os homens adornarem seu Templo, na pequena cidade encravada ao lado do grande rochedo. Sabia que Psiqué(Ψυχη) havia enviado uma mensagem ao pai através de Hermes(Ἑρμής), advertindo-o contra o abandono em que estava o Templo da deusa do Amor. 

— São mesmo uns tolos se julgam que não percebo que fazem isto porque o rei ordenou. Pensam que enganam os deuses! Isto é muito engraçado! 


Seu olhar passeou pelo mundo que se espalhava aos pés do Olimpo. Viu os pastores cuidando de seus rebanhos, camponeses arando a Terra em todos os lugares por onde Triptólemo(Τριπτόλεμος) já havia passado, conduzindo seu carro atrelado por dragões. Admirou os campos floridos e as verdes pradarias sem fim. Fazia pouco que Perséfone(Περσεφόνη) retornara mais uma vez do mundo do Hades(Άδης) e a Terra já se cobrira de viçosa vegetação. 

— Gaia(Γαῖα) deve estar feliz — pensou Afrodite. 

Realmente, Gaia sorria cada vez que Perséfone voltava à sua mãe. Não se conformava com as crises da depressão que assolavam Deméter, sempre que a filha voltava para a companhia do marido. Deméter, que sempre se preocupava em alimentar os homens, dando vazão, desta forma, à imensa necessidade de nutrir que era própria de sua natureza, quando se via longe de Perséfone recolhia-se a um angustiante abatimento e deixava tudo morrer à sua volta. Isto enchia de tristeza o coração de Gaia, a Terra, a Mãe. 

Afrodite passeava o olhar pelas terras floridas. Olhou uma a uma todas as cidades até que sua atenção se deteve na Síria. Um cortejo atravessava a praça principal, em direção a seu Templo. Levavam rosas tão brancas que mais pareciam flocos de algodão. Afrodite sorriu, satisfeita. 

— Adoro rosas. Meu Templo ficará lindo e perfumado. 

À frente do cortejo ia uma moça alta e esguia, com os cabelos compridos enfeitados por uma guirlanda de flores presa a uma fita que caía displicentemente sobre a longa veste muito alva. Entraram no Templo e depositaram suas oferendas ao pé da enorme estátua da deusa do Amor. 

— Curioso — pensou Afrodite — aquela moça se veste com roupas iguais às que cobrem minha estátua. E os cabelos também levam idêntica guirlanda de rosas. O que estará pretendendo aquela menina? 

Viu a silhueta majestosa de Hermes que vinha em direção ao Olimpo, trazido pelas asas de ouro de suas sandálias encantadas. 

— Hermes! — chamou Afrodite — Você que vai tantas vezes ao mundo dos homens, sabe me dizer quem é a moça que está naquele Templo? — e apontou. 

O mensageiro dos deuses olhou para onde ela indicava. 

— É a filha do rei Téias(Θείας) — esclareceu, afinal — Dizem que ela se parece muito com você. 

Afrodite fez um muxoxo e não respondeu.

— Aborrecida com a princesa, deusa? — perguntou Hermes, disfarçando um sorriso matreiro. 

— Não, Hermes — respondeu ela — Não estou aborrecida... ainda. Apenas observo. 

E continuou com os olhos presos à moça, enquanto Hermes se afastava, veloz como o vento. 

Viu a princesa retirar uma rosa da oferenda ao pé de sua estátua e sair do interior do Templo para o átrito iluminado. Encostado numa das colunas de pedra, um rapaz parecia esperar por ela. 

Mirra(Μύρρα), como você é linda! — exclamou ele. — Tão linda quanto a deusa do Amor. 

O riso da princesa chegou até o Olimpo como o tilintar de cristais. Afrodite apertou o cenho e debruçou-se mais. 

A moça se aproximou do rapaz lentamente, ondulando o corpo com graça. 

— Você me acha mesmo parecida com Afrodite? — perguntou, acariciando com a rosa o rosto do moço. — Há quem diga que sou ainda mais bela! 

O rapaz riu e puxou-a para bem perto de si. 

— Não conheço a deusa — disse ele, procurando os lábios da moça com a boca aflita —, mas na certa não terá mais calor do que este que emana de seu corpo. 

Mirra se esquivou com graça e leveza. 

— Não seja tão audacioso! Não me toque, ou será punido. Sabe muito bem que não pode cobiçar a filha do rei, mesmo que ela lhe seja mais atraente que a própria deusa do Amor. 

Atenta à conversa dos dois, Afrodite mordeu os lábios, cheia de raiva. Zéfiros(Ζεφυρος), que passava naquele momento, agitou seus longos cabelos dourados. Afrodite ergueu os braços e chamou: 

— Zéfiros, Vento do Oeste, atenda meu chamado! Traga às minhas mãos a fita dos cabelos de Mirra, princesa da Síria. 

O vento partiu, rápido e leve. De longe, Afrodite viu os cabelos de Mirra esvoaçarem em torno do seu rosto bonito. A guirlanda de flores caiu ao chão e um torvelinho arrancou a longa fita que se elevou aos ares, sumiu em direção às nuvens, e foi pousar suavemente nos dedos finos da deusa. Ela enrolou a fita, guardou-a no bojo de uma flor, e partiu em direção à floresta. 

— Essa moça precisa de uma lição! Há que sentir na pele o ardor de uma paixão impossível, para compreender que não se brinca com os homens em nome da deusa do Amor! 

Chegou a uma caverna oculta atrás de uma densa folhagem. Há tempos descobrira aquele local e lá se escondia, sempre que precisava praticar sua magia, longe dos olhares dos outros deuses. No meio da caverna, uma pedra triangular servia de altar.

Afrodite parou em frente ao altar. Concentrou-se por alguns momentos e logo a expressão de seu rosto se modificou. Seu olhar se tornou mais profundo, como se olhasse além das coisas do mundo. Ergueu as mãos para o alto e murmurou algumas palavras estranhas. Depois acendeu um monte de ervas secas e esperou que o fumo se elevasse num rolo denso. Pegou a fita dos cabelos da princesa e segurou-a no meio da fumaça. 

— Mirra... Mirra... Mirra... — murmurou, numa voz profunda — O desejo pelo amor impossível toma conta de seu corpo e a paixão se instala em seu peito. Mirra... Mirra... Mirra... O fogo do amor proibido consome suas entranhas e nele se queimará sua leviandade para com os deuses. 

Com os lábios semicerrados, Afrodite começou a entoar um cântico monótono, enquanto fazia bailar a fita da princesa entre o aroma acre do fumo escuro. 

— Mirra... Mirra... Mirra... Queime-se no fogo do amor proibido! E a fita bailava, bailava. 

— Mirra... Mirra... Mirra... Consuma-se na paixão impossível! 

E os cânticos continuaram por muito tempo, até que as ervas retorcidas e negras exalaram seus últimos vapores.   

                                                                                ...   

Mirra se preparava para dormir. Uma tristeza súbita roubara o riso costumeiro de seus lábios. Hipólita(Ιππολύτη),, sua criada de quarto, ajeitava as mantas sobre seu leito macio. 

— Princesa — disse ela — está tão séria hoje. O que houve com sua alegria? 

Mirra suspirou. 

— Não sei, Hipólita. Sinto uma pressão estranha no peito, uma vontade tola de chorar. 

— Isto me cheira a paixão — gracejou a criada, enquanto sacudia uma almofada. 

— Se é paixão, Hipólita, não sei quem é o eleito do meu coração. Estou prometida a meu primo, mas nem ao menos o conheço. 

Hipólita parou e pousou em sua jovem senhora um olhar penetrante. 

— E o que me diz dos rapazes do Templo? Cobiçam-na com o olhar, princesa. 

Ela sorriu palidamente. 

— São uns tolos que só se prendem à minha beleza. 

A criada ia dizer alguma coisa, mas uma pancada suave na porta não permitiu que continuasse. 

— Deve ser meu pai — sussurrou Mirra. — Abra a porta, Hipólita, deixe que o rei entre.

A figura altiva e elegante do rei Téias surgiu na penumbra do quarto, enchendo o ambiente com uma aura poderosa e magnética. 

— Ainda acordada, minha filha? Precisa repousar, ou sua saúde ficará abalada. Hoje oficiou os serviços do Templo, junto com as sacerdotizas, não foi? Deve estar exausta! 

Mirra não conseguiu responder. A presença do rei emanava uma vibração forte e desconhecida. Uma pressão quente comprimiu-lhe o ventre. 

Téias não percebeu a perturbação da filha. Seu olhar curioso acompanhava os movimentos graciosos de Hipólita, que dobrava as roupas da princesa com agilidade. 

— Sua nova criada de quarto, Mirra? — e, dirigindo-se à criada — De onde veio, menina? 

Hipólita corou e baixou a cabeça. Mirra fez com a mão um sinal tranqüilizando-a e respondeu rapidamente. 

— É filha da cozinheira, senhor meu pai. Veio substituir a velha aia que adoeceu subitamente. 

O rei não respondeu, mas olhou Hipólita de cima em baixo. 

— Muito bem, — disse afinal — você é ainda uma criança, minha filha, e deve estar mesmo cercada por jovens. Os velhos costumam ser casmurros e aborrecidos. — Aproximou-se de Mirra e beijou sua face quente —  Boa noite, meu anjo, e que seu sono seja abençoado pelos deuses. 

Hipólita correu para abrir-lhe a porta. Mirra, parada no meio do quarto, parecia pregada no chão. Profundamente perturbada, viu o rei se retirar e passou de leve a mão no rosto, onde o beijo paterno deixara gravada uma impressão de fogo. 

O rei voltou no dia seguinte, à mesma hora, mas encontrou a filha já deitada. 

— Contente com a nova criada? — perguntou o rei, olhando em volta. 

A princesa sentiu o coração saltar no peito. 

— Sim, meu pai. Hipólita é uma aia bastante eficaz. 

— Pensei encontrá-la ainda aqui, em seu quarto. Dispensou-a mais cedo? 

— Estou muito cansada — balbuciou Mirra, sentindo novamente um calor estranho envolver seus sentidos. — Quis me deitar mais cedo. 

O rei sorriu e acariciou-lhe a face com ternura. 

— Faz bem, filha. Deite-se e perdoe-me se a importunei. 

Ela sentiu o rosto em fogo. 

— Jamais irá me importunar, meu pai. Não poderei dormir sem seu beijo de boa noite. 

E quando o rei saiu, ela rolou na cama e chorou.

Quando Hipólita chegou, pela manhã, encontrou a princesa muito pálida, com os olhos vermelhos e inchados. 

— Mas o que foi, princesa? — perguntou, aflita. — Não dormiu bem à noite? 

Mirra recomeçou a chorar. 

— Como sou infeliz, Hipólita! Confio em você e vou lhe contar o meu segredo. Mas terá que prometer que não o contará a ninguém. 

A aia se agachou a seu lado e segurou suas mãos geladas. 

— Minha princesa, antes a morte que trair sua confiança. Não sabe como sofro ao vê-la assim, triste e doente. 

Mirra aproximou mais o rosto e disse baixinho: 

— Sim, Hipólita, estou muito doente. Sofro do mal da paixão. 

Os soluços não a deixaram continuar. A criada, nervosa, deixou que a moça apoiasse a cabeça em seu ombro. 

— Mas, princesa, isto não é doença. Vamos, não chore! O amor é tão bonito! Sei que está prometida a seu primo, mas para tudo há um jeito. Tenho a certeza de que seu pai a ama bastante para não querer sua desgraça. Há de encontrar alguma solução. 

Os soluços aumentaram. Hipólita acariciou os cabelos de Mirra e embalou-a suavemente. 

— Não chore, princesa, não chore... 

— Hipólita, você não entendeu... — disse a moça entre um e outro soluço — Meu coração arde de paixão por meu pai! 

A criada estremeceu. Quis dizer alguma coisa, mas não encontrou as palavras certas. 

— Entendeu agora, Hipólita? Minha doença é grave e incurável. Ardo de desejo por meu próprio pai! Que maldita sina a minha! Deve ser algum castigo dos deuses. 

— Princesa — disse, enfim, a criada — esta paixão irá passar, com o tempo. Procure se acalmar, vista-se e vá ao jardim pegar um pouco de ar. Se o rei a vir neste estado poderá ficar preocupado. Veja como ele a ama. 

— Sim, minha amiga, ele me ama muito. Sou para ele ainda a mesma criança de antes. Não percebe que já cresci. 

— Ele  é seu pai, princesa, e para os pais os filhos são sempre crianças. Iria morrer de desgosto se soubesse que está doente e, pior ainda, se desconfiasse do motivo de seu mal. Vamos princesa, seja forte! Estou certa que conseguirá dominar esta paixão que a consome tanto. 

Mirra se levantou e Hipólita a ajudou a se vestir. No jardim, o vento fresco não conseguiu aliviar o ardor que se instalara no corpo da princesa e o sorriso não voltou a seus lábios.

Daquele dia em diante, passava suas horas esperando a noite, quando o rei invariavelmente vinha a seu quarto depositar em seu rosto o beijo de boa-noite. 

Emagreceu, definhou. O rei, aflito, chamou os médicos da corte, mas nenhum deles descobriu que misterioso mal era aquele que consumia a saúde da princesa. Receitaram algumas ervas, mas Mirra continuava morrendo pelos cantos do palácio. 

Uma noite, depois da visita habitual do rei, Mirra fez um sinal para que a criada se aproximasse. 

— Hipólita, ajude-me! Não suporto mais! Minha resistência chegou ao fim. Tentei me desvencilhar deste amor impossível, mas não consegui. Se não ceder a ele, morro. 

Hipólita arregalou os olhos. 

— Ceder, princesa? Mas, como? Desculpe-me se lhe falo desta maneira, mas creio que o rei lhe daria uma boas palmadas se tentasse alguma coisa. 

Uma sombra de sorriso torceu de leve os lábios de Mirra. 

— Hipólita, tenho um plano, mas preciso de  seu auxílio. Tenho notado que o rei a devora com os olhos, cada vez que vem aqui. 

— Princesa! Eu não... — ia protestando a criada, mas foi calada por um gesto de Mirra. 

— Não a estou incriminando, Hipólita. Você não tem culpa de ser bonita e desejável. Só quero que me ajude. 

— Como? — perguntou a criada num sopro de voz. E curvou-se ainda mais para escutar melhor as palavras da princesa.   

                                                                                ...   

No dia seguinte, o rei Téias encontrou a filha mais animada. Abraçou-a carinhosamente. 

— Como é bom vê-la sorrir, minha menina. Tem me deixado tão aflito! 

— Meu pai, sinto vê-lo tão prostrado por minha causa. Não se preocupe, estou bem. Quero que se cuide melhor, pois um rei não se pode deixar abater. 

— Sou rei, mas, antes de tudo, sou pai. A morte ainda recente de sua mãe foi muito dolorosa para mim e não posso suportar sequer a idéia de perdê-la também, minha criança. 

Hipólita se levantou, segurando uma caneca fumegante. Os olhos baixos pareciam fugir de um encontro com o rei. 

— Seu chá, princesa — disse ela, timidamente. 

O rei Téias envolveu o corpo da criada com um olhar cobiçoso. Mirra fingiu não perceber.

— Meu pai, Hipólita tem cuidado muito bem de mim. Todas as noites, antes de se recolher, traz-me um caldo quente tão nutritivo que minha fraqueza logo desaparece e tão relaxante que adormeço imediatamente. Esta noite ela irá levar o caldo em seus aposentos, pai. Insisto para que o tome. Parece mais fraco do que eu. 

O rei deu uma risada. 

— Aceitarei com prazer. 

Beijou a princesa, levantou-se e olhou para a criada. 

— Deixarei ordens com o sentinela para que a deixe passar. Traga-me este caldo maravilhoso, pois na certa me fará bem. 

Hipólita deslizou pelos corredores mal iluminados do castelo em direção ao quarto do rei. O sentinela sonolento se plantou à sua frente. 

— Sou a camareira da princesa e trago um caldo para o rei. 

O homem fungou e foi se sentar em seu banco, espreitando-a com o canto dos olhos. Deu um bocejo e acomodou-se melhor. 

A criada passou por ele e parou à porta dos aposentos reais. Bateu levemente. A voz do rei respondeu lá de dentro, mandando que entrasse. 

Hipólita se viu no meio de um amplo quarto iluminado por tochas presas às paredes adornadas por peles de couro, escudos, lanças e espadas de metal encravado de pedras preciosas. As janelas, ocultas por pesadas cortinas, não deixavam passar nem um só fio de prata do luar. No meio do aposento, uma enorme cama de madeira trabalhada deixava ver, através das colchas de pele, o alvo lençol de linho. Almofadas macias colocadas displicentemente sobre o leito e também no chão, davam ao ambiente um ar de aconchego. 

Hipólita descansou a tigela de caldo sobre uma mesa pequena, de madeira entalhada. 

— Meu rei — disse ela, quase num sussurro — a princesa recomendou muito que tomasse o caldo ainda quente. 

Mas ele não prestava atenção ao caldo. Seus olhos não se despregavam do rosto da criada. Chegou mais perto e pousou a mão enorme sobre o ombro frágil da moça. 

— Hipólita, não se vá ainda, peço-lhe. Sinto-me só. Fique comigo esta noite, sim? 

A criada estremeceu, sentindo no rosto o hálito quente de Téias. 

— Senhor meu rei... — murmurou ela. — Quem sou eu para negar-lhe um pedido? 

Ele curvou-se para beijá-la, mas ela desviou o rosto. 

— Perdão, sou muito tímida e nunca permiti antes que nenhum homem me tocasse. Se pudesse ousar fazer-lhe um pedido... 

O rei segurou o queixo delicado de Hipólita, fazendo com que ela erguesse o rosto.

— Diga-me o que quer e lhe será concedido. 

— Gostaria que apagasse todas as tochas. Minha timidez irá então se diluir na escuridão. 

O rei não respondeu, apenas dirigiu-se às tochas e apagou-as uma a uma. Ao extinguir a última, ouviu Hipólita exclamar, assustada: 

— Pelos deuses! Preciso voltar ao quarto da princesa! Deixei o fogareiro aceso e ela com certeza já dorme. Voltarei dentro de minutos, meu rei, se me permitir apagá-lo, pois temo que incendeie as mantas que deixei a secar em seu calor. 

— Seus cuidados com minha filha me comovem — suspirou o rei. — Vá, Hipólita, mas não se demore. 

Hipólita se voltou e correu. O sentinela, profundamente adormecido, não a viu passar. Entrou no quarto de Mirra, que a esperava com impaciência. 

— E, então? — perguntou a princesa, aflita. 

— Tudo como esperávamos que fosse — respondeu a criada. 

— O que espera, então? Dê-me suas roupas! — exclamou Mirra, enquanto arrancava as próprias vestes. 

— Espero que não se arrependa, depois que for tarde demais — disse Hipólita, entregando suas roupas à Mirra.   

                                                                                ...   

O vulto da criada surgiu à porta do quarto do rei Téias. Aproximou-se lentamente. Ele estendeu a mão e buscou seu pescoço esguio, atraindo-a para si. 

— Sua pele está tão fria, Hipólita. Sente-se mal? 

Ela não respondeu. Apenas procurou com a boca os lábios do rei, colou seu corpo ao dele e com as mãos ágeis desatou os cordões que atavam suas vestes. O rei gemeu de prazer, ao sentir o toque dos dedos macios em sua pele. Suspendeu-a em seu braços e depositou-a gentilmente sobre o leito. E toda a realeza desapareceu na escuridão, deixando ficar somente o desejo dolorido que os corpos procuravam saciar.  

                                                                                 ...   

Todos ficarem felizes com a rápida recuperação de Mirra. Melhorava com a mesma rapidez com que adoecera e os médicos já não se preocupavam mais com sua saúde, agora visivelmente restabelecida. 

O rei, alegre e despreocupado, via a filha curada, passeando pelos jardins do castelo durante o dia e, à noite, recebia a visita silenciosa da criada que o amava com delírio, envolta pelos véus da escuridão. 

— Hipólita — sussurou ele, sentindo na pele a pressão do corpo da moça — jamais mulher alguma me deu tanto prazer. Há doze dias que nos amamos e até hoje não me deixou ver seu corpo nem ao menos uma vez.

— Não, por favor, meu rei! Tenho muita vergonha e a luz destuirá a mágica do nosso amor. 

Téias não insistiu. Apenas atraiu-a para si e amou-a novamente. 

Selene(Σελήνη), a lua, passeava lentamente pelo céu, redonda e imensa em sua deslumbrante carruagem de prata. Seus beijos de luz se espalhavam pelo espaço em cascatas fulgurantes e iam se depositar sobre as matas, prateando o verde das florestas. Tudo era luar. Um raio indiscreto passeou pelas paredes de pedra do castelo e esgueirou-se sorrateiramente por uma fresta da pesada cortina mal fechada. Timidamente percorreu o aposento real e foi se aproximando do leito onde o rei se esvaía num rito de amor. Ofegante, entreabriu os olhos. O raio de luar tingia de prata o rosto de sua amada. Um grito rouco saiu de seus lábios, misturando ao gemido de prazer daquele último orgasmo. 

— Mirra! Minha filha! 

A moça assustada, arrancada subitamente do êxtase que a envolvia, procurou inutilmente esconder-se sob as mantas. 

O rei ergueu-se lentamente, com os olhos pregados no rosto amedrontado da filha. Ficou de pé, ao lado do leito, imóvel, e a expressão incrédula de seu rosto foi pouco a pouco se transformando numa terrível máscara de desespero. 

— Maldita! — exclamou ele, levantando a mão para espancá-la. — Como se atreveu a desonrar de forma tão infame o nome real? 

Mirra se encolheu toda, apavorada. O rei, entretanto, não deixou cair sobre ela o braço forte. Parou o gesto no ar e rosnou baixinho! 

— Somente a morte poderá redimir seu ato torpe e indigno! 

E, num movimento rápido, arrancou da bainha uma das espadas que enfeitavam a parede de seu quarto. 

— Não, meu pai! Não faça isso! — gritou a princesa, pulando da cama e correndo em direção à porta. O rei procurou alcancá-la, mas não conseguiu. A moça, movida por uma rapidez que somente o pavor concede, disparou nua pelo corredor, pelos salões, pelos jardins e sumiu no bojo da floresta. 

A guarda real foi toda mobilizada. Procuraram por toda parte a princesa desaparecida que, apavorada, escondera-se nas sombras de uma gruta. 

— Deuses, ajudem-me! — suplicava ela — Os guardas não tardam a me encontrar. Por favor, tenham pena de meu sofrimento! Ajudem-me, deuses! 

Debruçada na saliência da rocha, Afrodite se divertia com a agonia de Mirra. Tão distraída estava que não notou a chegada de Hera(Ἥρα) e Zeus(Ζεύς)

— O que é isso, Afrodite? — exclamou Hera, procurando com o olhar de onde vinha aquele chamado tão aflito. E sua voz forte e metálica fez com que a deusa do Amor estremecesse. — Ainda persegue aquela pobre moça? Tudo o que já lhe fez não foi suficiente? 

Afrodite empinou o nariz atrevido.

— Ela ousou competir comigo em beleza! Deve ser punida! 

Zeus curvou-se sobre o abismo e olhou também. 

— Já chega, Afrodite — disse ele. — A princesa não merece uma pena tão cruel como a morte. 

Apontou as mãos em direção à gruta em que Mirra se ocultava. Atendendo àquele irresistível chamado, a princesa saiu lentamente de seu esconderijo. E, de pé em meio a uma clareira, estendeu os braços em direção ao Olimpo. Seu corpo se enrijeceu e cobriu-se de cascas. Seus braços se transformaram em galhos e sua cabeleira numa copa frondosa. E Mirra se transformou em uma árvore. 

— Pronto, Mirra — disse Zeus, afastando-se com Hera — Agora os soldados jamais a encontrarão.   

                                                                                ...   

Os pastores que por ali passavam notavam, cheios de espanto, que a casca daquela árvore inchava à medida que o tempo corria. Afrodite, ainda atenta ao destino da princesa, também percebeu que o tronco da árvore se avolumava, como se algo em seu ventre crescesse  a cada instante. 

E no primeiro dia do décimo mês, a casca enrugada se rachou e deixou ver uma criança que chorava em seu interior. Afrodite se aproximou nas asas do vento e colheu o bebê em seus braços. 

— Como é lindo! — disse ela, passando os dedos de leve pela pele rosada d menino. — Seu nome será Adônis(Άδωνις)

Mas Adônis logo começou a exigir dela cuidados de mãe e Afrodite, sem querer se prender demais à criança, entregou-a aos cuidados de Perséfone. 

Adônis cresceu e se transformou num rapaz de raríssima beleza que, no entanto, jamais deixara o Hades. Afrodite, impressionada pela magnífica figura do adolescente, foi ao Hades buscá-lo. 

— De maneira nenhuma permitirei que Adônis volte à superfície — prostestou Perséfone. — Você não o quis quando era apenas um bebê. Pois agora ele é meu e não deixo que se vá. 

Dos olhos de Afrodite saíram chispas de ódio. 

— Pedi que o criasse, é verdade, mas ele não pertence ao Hades. Quero que volte comigo! 

Não houve argumento que afastasse as duas deusas de seus propósitos. O rumor da disputa chegou ao Olimpo e Zeus resolveu arbitrar a questão. 

— Muito bem — decidiu ele. — Não quero mais saber de discussões inúteis e ridículas. Determino que Adonis passe um terço do ano com Perséfone, outro com Afrodite e o restante onde bem quiser.

Adonis subiu à superfície e o ardor do sol em sua pele tornou sua beleza ainda mais radiante. Correu pelas planícies, rolou na relva e inebriou-se com o aroma das flores. 

— Afrodite, Afrodite, como a vida é linda e boa de ser vivida! Quanta energia, quanta força que eu desconhecia, que cresce agora em meu interior ao contato com a luz! 

E, por quatro meses, Adonis pertenceu à natureza. Acompanhado por Afrodite desabrochou, perdeu a palidez que trouxera do Hades, interagiu com as plantas, com o ar, com o orvalho e com a chuva. 

Nos quatro meses seguintes, quando poderia escolher onde ficar, passou-os também com Afrodite, partilhando seu leito e despertando na deusa todo o ardor de uma louca paixão. 

Quando Adonis voltou ao Hades, Afrodite chorou. Recolheu-se em sua tristeza e aguardou que quatro meses se passassem. E então ele voltou, nasceu novamente para o sol, para o verde, para as florestas, para o orvalho, para a chuva e para o leito da deusa do Amor.   

                                                                                ...   

Ártemis(Ἄρτεμις) tinha ciúmes. Via Adônis atraído pela natureza, recebendo dela todo o carinho que uma mãe pode dispensar a um filho muito amado. 

As flores exalavam mais aroma à passagem de Adônis, a mata ficava mais verde e os frutos mais saborosos. Os animais deixavam o cortejo de Artemis e se aproximavam de Adônis, pousando a cabeça e seus joelhos, à espera de afagos. 

A semente do ciúme foi crescendo no coração de Artemis. Aos  poucos, percebeu que o rapaz poderia ocupar seu lugar no reino da natureza. E um dia, movida por profunda cólera, lançou sobre Adônis toda a fúria de um javali selvagem. 

Afrodite, desesperada ao ver seu amante ser dilacerado pelas presas do animal, correu para salvá-lo. Um espinho feriu seu pé e o sangue que jorrou tingiu de vermelho as rosas, que até então eram brancas. 

Adônis morreu. Louca de dor, Afodite correu a Zeus. 

— Zeus, por favor, acuda meu amado! Sem ele, morrerei! A dor me consome em todos os minutos em que passo sem ele. Zeus, ajude-me! 

E Zeus, com pena do sofrimento da deusa, estendeu os braços sobre o corpo inerte de Adonis e transformou-o em uma anêmona, permitindo que, durante quatro meses, ele vivesse ao lado de Afrodite. 

E assim a anêmona passou a brotar e enfeitar os meses da primavera. Depois morria e se recolhia às entranhas da terra. 

Para prepetuar a memória de seu imenso amor, Afrodite ensinou às mulheres da Síria o culto da entrada da primavera, que simbolizava a vida efêmera de Adônis. Num caixote, plantavam mudas de roseiras e regavam-nas com água morna. As rosas cresciam rapidamente, mas logo morriam. Deram a esses vasos o nome de Jardins de Adônis. 

— Adônis, meu amado, sua lembrança será perpetuada entre o povo da Terra. Que sua memória seja cultuada e que seus Jardins ensinem aos homens que a vida é efêmera, mas que volta a ressurgir sempre, num ciclo contínuo em direção à eternidade.   

                                                                                ...

Na Floresta Primaveril, encontrava-se Adônis (Ἄδωνις). Por Emmanuel Mourão. 


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