Capítulo 28 — O encotro entre o amor e e a alma — Eros(Ἔρως) e Psiqué(Ψυχη)
Olimpo, a Saga dos Deuses
Afrodite(Αφροδίτη) retornou ao Olimpo. Os deuses ocupados com tantos novos acontecimentos surgidos depois do dilúvio, já nem se lembravam de sua aventura com Ares(Ἄρης). Aliás, preocupavam-se mesmo era com Ares e Deméter(Δήμητρα). Com Ares porque o belicoso deus de caráter inconstante, já partira, acompanhado por Fobos(φόβος), Deimos(Δεῖμος) e Éris(Ερις), para a planície de Ílion, onde fomentava duras batalhas. Athena(Ἀθάνα), porém, justa e atenta, sempre segurava o braço potente do formidável guerreiro antes que ele desferisse nos humanos seus golpes fatais.
Deméter, nos períodos em que a filha estava no Hades(Άδης), sempre inspirava cuidados aos deuses, pois sua dor era tanta que poderia destruir o mundo pela fome, em quatro ressecados meses.
Desta maneira, Afrodite se sentiu aliviada e mais disposta a passear pelas florestas do Olimpo. Seu carinho por Eros(Ἔρως) aumentava a cada instante. Para ela, o jovem deus era o filho que sempre sonhara ter.
Um dia, estava Afrodite debruçada em uma da inúmeras beiradas de pedra que avançavam pelo precipício abaixo do Olimpo, e de onde os deuses paravam para observar o mundo, quando sua atenção se deteve em uma pequena cidade encravada ao lado de um imenso rochedo que emergia das águas fundas do oceano. A cidade crescia e prosperava. O palácio real era suntuoso e os Templos erguidos às divindades destacavam-se por sua imponência. E lá estava o templo de Athena, cheio de fiéis, e o de Deméter enfeitado de trigo, parecendo aguardar o momento de alguma festa. O Templo de Afrodite, uma bela construção de pedras, era belíssimo e se erguia no alto de um outeiro. A deusa o contemplou com orgulho.
— É o mais lindo de todos, pensou.
Mas, apurando melhor sua visão, viu que estava vazio e sem ornamentos. Debruçou-se mais ainda na beirada de pedra e esbravejou para si mesma:
— Vazio! Meu Templo está vazio! E nem um ramo de flores para adorná-lo! Como pôde acontecer isto? Onde estão os homens daquela cidade, que não se preocupam em prestar seu culto à deusa do Amor?
E tanto procurou, que acabou por encontrá-los. Estavam todos num parque lindíssimo, perto do castelo do rei. Dentro em pouco, vinda do castelo, surgiu uma jovem de rara beleza, com um semblante infantil e ingênuo.
— É Psiqué(Ψυχη)! — exclamaram os homens. — Vamos prestar-lhe nossas homenagens!
Afrodite ficou furiosa. Pegou uma pedra e ia arremessá-la contra a moça, mas Eros chegou a tempo de impedir o gesto impensado. Ele deu uma risada.
— O que é isso, Afrodite? Que mortal a ofendeu a ponto de desejar partir-lhe a cabeça?
— Olhe lá, Eros! — bufou a deusa. — Olhe bem aquela cidade ali, ao lado do grande rochedo. Os homens prestam culto àquela moça e deixam meu Templo vazio!
Eros procurou conter o riso, ante a fúria de Afrodite.
— Com ciúmes, deusa?
Ela ignorou a pergunta. Parecia absorta em algum pensamento.
— Olhe, Eros, quero que me faça um favor. Vá até a cidade, dispare uma flecha naquela menina e faça com que ela se apaixone por um ser bem monstruoso. Você fará isto por mim?
Apertou-o contra o peito com ternura e beijou-o com calor. E depois debruçou-se novamente na beirada de pedra, enquanto apreciava o alegre vôo de Eros, que partia em direção à pequena cidade, encravada ao lado do enorme rochedo que emergia do mar.
...
Psiqué era a terceira filha do rei. Sua beleza era tão profunda que os homens a adoravam como se fosse uma divindidade, mas nenhum deles tinha coragem de tocá-la. A rainha já começava a estranhar tudo aquilo.
— Senhor meu rei — disse ela, um dia — tenho uma preocupação a me apertar o peito.
O rei a olhou com o canto dos olhos, parecendo não se importar com o comentário da esposa. Mas ela continuou:
— Nossa filha Psiqué está se tornando muito bela e temo que isso possa ofender as deusas.
Desta vez o rei levantou a cabeça.
— Ora essa, mas que idéia! E o que tem de mais ser tão bonita?
A rainha, mais confiante com a atenção que o rei lhe dispensava, empertigou-se toda.
— Vejo que os homens veneram Psiqué com se ela fosse uma deusa. No entanto, nossa filha não tem atributos divinos, a não ser sua alma imortal. Mas se é bela, fomos nós que assim a fizemos e se é pura e meiga, só deve isto à educação que recebeu no palácio.
O rei concordou com a cabeça.
— Vejo que os seus temores têm fundamento, minha rainha. Se os homens veneram Psiqué como a uma divindade, certamente estarão atraindo a ira das deusas para todos nós. Nossa filha é apenas uma menina, o conhecimento que tem da vida é nenhum e ingenuamente aceita as homenagens que os homens lhe prestam. Creio que seria sábio de nossa parte consultar o Oráculo, para sabermos se os deuses estão contra nós.
E partiram em viagem, para fazerem a consulta ao Oráculo de Apolo(Ἀπόλλων). A resposta foi assustadora. A deusa do Amor estava ferida e magoada e o único meio de aplacar sua ira seria levar Psiqué ao alto do grande rochedo, onde se uniria a um ser terrível e monstruoso.
A rainha desatou num pranto copioso, que nada consolava. As duas irmãs mais velhas de Psiqué, agarradas a seus maridos, lamentavam a sorte da caçula.
— Pobre Psiqué! Por ser humana e receber as honras de uma deusa, será destruída antes mesmo que desabroche para a vida!
— Por que se enraivecem os deuses, pelo fato de uma menina, que nem se desenvolveu ainda, receber as homenagens dos homens? Não terão as mortais este direito?
— Não blasfeme, irmã! Os deuses têm os se desígnios e a nós só cabe obedecer.
O triste cortejo partiu em direção ao rochedo. Envolta em escuros véus, Psiquê foi atada à pedra e lá deixada sozinha, entregue à própria sorte.
...
À mando de Afrodite, Eros se aproximou do rochedo e puxou da aljava a flecha que faria Psiquê se apaixonar pelo monstro que viria para desposá-la, condenando-a, desta forma, à morte certa.
Tirou a seta e encaixou-a na corda resistente. Retesou o arco e mirou. O grito agudo de um pássaro desviou sua atenção e a seta escorregou de seus dedos, ferindo a mão que segurava o arco. Aflito, Eros largou tudo no chão, para cuidar da ferida. O sangue parou de correr, mas o veneno da paixão já chegara a seu coração. Perdido de amores por Psiquê, Eros chamou Zéfiros(Ζεφυρος) que passava, agitando a vegetação.
— Zéfiros — segredou ele nos ouvidos do vento — retire minha amada do rochedo e transporte-a ao castelo dos sonhos. Lá a farei minha esposa.
O Vento do Oeste rodopiou sobre o rochedo e levou Psiquê, desmaiada, ao castelo encantado dos sonhos. Lá a depositou sobre a grama macia e verde que rodeava o palácio.
Psiquê abriu os olhos e olhou em sua volta. Aos poucos, a recordação da pena que lhe havia sido imposta veio à sua mente. Sem compreender o que tinha acontecido, levantou-se e entrou no castelo. O ambiente sombrio, mas tranqüilo logo lhe inspirou confiança. Caminhou por todos os imensos salões, mas não encontrou ninguém. A paz que invadia seu coração era tanta, que a solidão não a perturbou. Depois de conhecer todo aquele castelo maravilhoso e encantado, Psiquê pensou:
— De quem será este castelo? E por que é tão solitário?
Imediatamente, vinda de algum lugar ignorado, uma voz respondeu:
— Este castelo é seu, princesa. É o seu mundo interior. E não é tão solitário quanto julga. Nós estamos aqui para servi-la e para responder as suas perguntas.
Psiquê olhou em volta, procurando quem falava. Não viu ninguém.
— Quem é você? — perguntou alto, e ouviu a própria voz repetir muitas vezes a mesma pergunta, tangida pelo poder da ninfa Eco(Ἠχώ).
E a Voz invisível respondeu, misturada ao som repetido e monótono do eco, e acompanhada por outras Vozes desconhecidas:
— Somos sua voz interna. Falaremos a você sempre que nos chamar.
E Psiqué, atônita, viu-se servida pelas Vozes que acudiam a seu chamado, que atendiam às suas necessidades e respondiam às suas perguntas.
...
Eros esperava que Hélios(Ἥλιος) guardasse sua carruagem de fogo nas estrebarias da noite. De longe, via o castelo que abrigava sua amada. Aflito, louco para tocá-la, aguardava a escuridão para partir ao seu encontro.
— Psiqué, amada Psiqué — pensava ele — como desejo tê-la em meus braços. Mas sei, meu amor, que não poderá saber quem eu sou. Sou Eros, o Amor, mas também sou o desejo de Amar e os homens — ah, os homens! — já me acusam de corruptor da moral e causador de escândalos. Você é pura, é menina e é ingênua, não pode ainda saber quem sou, ou o peso das calúnias que os homens já lançaram sobre meu nome na certa esmagariam seu puro amor por mim. Talvez um dia, amada, cresça e se torne suficientemente esclarecida para compreender que sou apenas Eros, o Amor, e não o monstro de maldades, o destruidor de lares, o corruptor da moral. Sim, minha Psiqué, sou somente Eros, o Deus do Amor.
A escuridão desceu sobre o castelo dos sonhos. Selene, a lua, muito fina e encurvada, não emitia luz suficiente para clarear o quarto de Psiqué. Tudo era noite. Ansiosa, a menina não conseguia dormir. Não tinha medo, mas as Vozes já lhe tinham dito que aquela seria uma noite muito especial. De repente, sentiu uma presença em seu quarto. Uma presença real, silenciosa. Não eram as Vozes prestes a falar. Era algo físico, que tocava sua aura com uma energia intensa.
O movimento de um corpo em seu leito deslocou as cobertas. Psiqué estendeu a mão para puxar novamente a manta e tocou em um corpo nu e morno. Não se assustou. O contato da pele na pele trouxe uma sensação de doce integração. Não se surpreendeu quando mãos que não via a despiram de suas vestes e quando aquele corpo tão real, mas escondido pela escuridão, pesou sobre o seu. Deixou-se amar envolta por cálida ternura, sem nem ao menos ter o desejo de saber quem era aquele amante que despertava em seu ser energias e sensações até então desconhecidas.
Foi somente ao raiar do dia, que Eros falou:
— Psiqué, minha adorada, vou partir agora, mas voltarei com a escuridão. Voltarei sempre, mas não tente jamais saber quem sou, ou me afastarei para nunca mais voltar.
E Psiqué passava seus dias em contato com as Vozes, cada vez mais intensas e esclarecedoras, e à noite recebia a visita de seu amado que fazia nascer em sua alma,junto com um terno amor, a atração pelo Belo, pela natureza e pelo Infinito. Psiqué se sentia completa. Mas sua juventude inexperiente não permitia que conhecesse a real natureza daquela completude.
Um dia, já quase amanhecia, Psiquévoltou-se para o vulto de seu amante, ainda em seu leito, e disse:
— Meu amado, tenho me preocupado muito com meus pais e minhas irmãs. Provavelmente não sabem que estou viva e feliz e devem chorar com grandes penas a triste sorte que julgam que tive. Por favor, deixe-me vê-los e consolá-los!
Eros estremeceu e se sentou no leito.
— Nunca! Seria perigoso para você o contato com o mundo exterior!
— Mas, amor — insistiu Psiqué — sinto que em breve enlouquecerei de angústia se não entrar em contato com minha família. Este castelo de sonhos é maravilhoso e é meu verdadeiro reino. Mas tenho obrigações a cumprir no mundo de onde vim, e uma delas é tranqüilizar o coração dos meus familiares. Não posso ser feliz aqui, sabendo que choram por mim.
Eros, sem outros argumentos, concordou e pediu a Zéfiro que trouxesse as irmãs de Psiqué ao castelo encantado.
O encontro das irmãs foi todo alegria. Emocionadas, as duas mal acreditavam que Psiqué estivesse ali, ante seus olhos, feliz e cheia de vida.
— Psiqué, minha doce irmãzinha! Quanta alegria em vê-la novamente! Nossos pais não vieram, pois temeram viajar nas asas do vento. Mas quase morreram de felicidade, quando souberam que você está bem.
Entraram no castelo encantado. As irmãs, surpresas, percorreram tudo mas não encontraram ninguém.
— Mora aqui sozinha, Psiqué?
Psiqué fez o que pôde para explicar sua vida no castelo. Não podia falar sobre as Vozes e, muito menos, sobre seu amante desconhecido. Conversou, desconversou, deu presentes caros às irmãs e despediram-se no fim do dia. As irmãs retornaram cheias de curiosidade. No íntimo, sabiam que Psiqué não dissera tudo. Como viveria, na verdade, a irmã?
Entreolhavam-se, caladas, mas seus olhares já haviam firmado um pacto mútuo: haveriam de voltar e descobrir a verdade.
Psiqué, toda contente, contou a Eros como se saíra bem com as respostas que dera às perguntas das irmãs. Eros franziu o cenho, preocupado, e falou, em meio à escuridão:
— Muito cuidado, Psiqué, com as visitas que recebe do mundo exterior. Elas jamais compreenderão sua alegria e tudo farão para que abandone o castelo dos sonhos. Se souberem sobre mim, irão convencê-la a ver meu rosto e aí tudo estará perdido.
Psiqué retrucou, cheia de ressentimento:
— Não fale assim, meu amor. Nada conseguirá me afastar de você.
Algum tempo depois, a saudade do mundo exterior voltou a inquietar o coração de Psiqué e ela pediu a Eros que trouxesse suas irmãs novamente. O jovem deus fez suas recomendações:
— Não posso negar-lhe este pedido, Psiqué. Mas advirto-a de que está prestes a cair numa cilada. Muito cuidado, pois suas irmãs são mais espertas do que você!
As irmãs voltaram, novamente trazidas por Zéfiro. Mas, desta vez, vieram resolvidas a descobrir tudo sobre a misteriosa vida de Psiqué. E tanto fizeram, tanto pediram, tanto mentiram, que a menina acabou lhes contando sobre as Vozes e sobre seu desconhecido amante.
— Você ficou louca, irmãzinha? — exclamou uma delas. — Ouvindo Vozes invisíveis e entregando-se a um fantasma!
— Ele não é um fantasma! É bem real, terno, meigo e adorável!
Elas soltaram uma risada cheia de sarcasmo.
— Terno, meigo e adorável? — repetiu a outra — Como pode garantir que não seja horrível e repelente?
— E assistida por Vozes invisíveis? Na certa enlouqueceu, Psiqué! — acrescentou a primeira, cheia de veneno.
Psiqué, assustada, olhava as irmãs sem mais nada dizer.
— Lembre-se, Psiqué — continuou a irmã — que o Oráculo disse que teria que ser dada em casamento a um ser monstruoso. Como sabe se não é ele o seu adorável amante? E se for, na certa irá devorá-la, depois que seu amor não mais o saciar.
Chegaram-se bem perto de Psiqué e disseram quase ao mesmo tempo:
— Você precisa ver o rosto do seu esposo. É importante, Psiqué, que conheça aquele que a toca todas as noites.
Naquele dia, quando as irmãs partiram, deixaram Psiqué convencida de que devia mesmo conhecer o rosto de seu misterioso amante. Seria ele um monstro, como disseram as irmãs? E, à noite, quando Eros dormia, Psiqué acendeu uma lamparina e aproximou-a do rosto do jovem deus. Extasiada, quedou-se contemplando a bela figura do belo rapaz adormecido. Logo o reconheceu. Era Eros, o Deus do Amor. Eros se mexeu no leito e Psiqué recuou bruscamente, ferindo-se numa das flechas que saíam pela boca da aljava. No mesmo instante, uma gota do azeite quente a lamparina caiu no ombro de Eros e ele acordou, soltando um grito de dor. Logo viu que seu segredo havia sido descoberto. Deixando Psiqué inconsolável, ferida pela flecha e louca de amor, Eros levantou vôo e partiu, sem nem ao menos se despedir.
Alucinada, Psiqué chamou as Vozes. Somente uma delas respondeu:
— O amor tocou seu coração, mas você não tinha consciência disso, Vivia feliz sem saber o tamanho de sua felicidade. Ouviu as vozes do exterior e acreditou nelas. Eros é adorável, Psiqué, ele é um deus. E, por ser deus, é sábio, e por isso não quis nunca que visse a sua face. A face do Amor só pode ser conhecida pelos olhos da alma. Os olhos físicos o vêem a maneira como foi descrito por suas irmãs: um monstro de maldades, um causador de escândalos, um corruptor de costumes.
Psiqué mergulhou o rosto nas mãos, desesperada. Entre mil soluços, perguntou:
— E agora, Voz amiga, o que fazer? Não posso mais viver sem o Amor que conheci.
— Agora, Psiqué — respondeu a Voz — você terá que percorrer um longo caminho, o caminho que a levará ao despertar da alma imortal que vive em seu interior, pois somente os olhos da alma poderão conhecer Eros, o deus do Amor, em toda a sua plenitude e livre das falsas e torpes vestimentas com que a mente humana o envolveu.
A Voz se calou. Psiqué ficou ainda algum tempo chorando, esperando que ela voltasse a lhe falar. Mas somente o silêncio envolveu seus pensamentos.
...
Psiqué iniciou sua caminhada. Mas tão fraca estava que mal conseguiu dar alguns passos. Tropeçou, caiu, e desejou morrer. Atirou-se num rio próximo, mas as águas tiveram pena dela e a recolocara em terra firme. E foi lá que Pã a encontrou.
— O que houve, menina? Olhos tão lindos não devem chorar tanto assim. Talvez possa ajudá-la. Conte-me o que houve.
E Psiqué contou.
— Muito bem, menina. Já que me disse tudo, tentarei auxiliá-la apenas com um conselho: Creio que o primeiro passo a ser dado nesta caminhada que ora inicia, é afastar-se definitivamente da causa de sua ruína. Vá e impeça que as palavras maldosas de suas irmãs voltem a prejudicá-la.
Psiqué agradeceu e seguiu em frente. Acabara de tomar uma resolução. Iria destruir as irmãs, para que nunca mais voltassem a enganá-la.
Procurou as irmãs, levou-as para o alto do rochedo e mostrou a elas a beleza do céu.
— Vejam — disse Psiqué , apontando para cima — ali está o Infinito e, mergulhada nele, está a morada dos deuses. Eros é um deus, é puro e lindo. Vocês fizeram com que eu acreditasse que ele poderia me destruir. Suas palavras me encheram de pensamentos enganosos e agora terei que arrancá-los de mim, purificando-me até alcançar minha alma imortal. Só então poderei encontrar novamente o deus do Amor.
Dizendo isto, Psiqué empurrou as irmãs para o fundo do abismo. E continuou seu caminho, sem saber, no entanto, para onde ir.
...
Eros estava doente, preso ao leito e cheio de dores. A gota de azeite que pingara sobre seu ombro se transformara numa ferida feia. Sabendo disto, Afrodite foi visitá-lo.
— Meu filho! — exclamou, abraçando o rapaz carinhosamente. — O que aconteceu? Por que está tão mal assim?
— Afastei-me de Psiqué— gemeu o rapaz — e sua ausência tornou-me muito fraco.
Afrodite olhou para Eros, cheia de surpresa e raiva.
— O quê? Durante todo esse tempo estava junto com Psiqué, aquela maldita que pretendeu tomar meu lugar no coração dos homens?
— Não fale assim de Psiqué, Afrodite! Ela jamais pretendeu substituí-la. Você ocupa o trono do Amor, da Volúpia e da Sensualidde. Psiqué nunca iria ocupar esse lugar, que é somente seu.
Mas Afrodite não se convenceu.
— Até você, Eros, que elegi meu filho querido, preferiu Psiqué. Sinto-me traída e humilhada.
E partiu furiosa, envolta num véu de ciúmes.
...
Psiqué percorria o mundo à procura de Eros. Já fora avisada de que só o teria de volta e integralmente depois de passar por uma purificação interior, capaz de arrancar de si as palavras maldosas das irmãs. Mas como fazer essa purificação? Psiqué não sabia. Desesperada, resolveu procurar Afrodite. Talvez a deusa do Amor pudesse lhe indicar o caminho certo.
Encontrou a deusa toda encolhida em seu Templo, curtindo sua raiva devastadora. Quando soube que Psiqué a procurava, esbravejou para a criada:
— Chame imediatamente minhas duas escravas, Inquietação e Tristeza, e diga a elas que destruam Psiqué .
E Psiqué, que havia procurado a deusa do Amor, da Volúpia e da Sensualidade, julgando obter dela a informação certa, foi torturada implacavelmente pela Inquietação e pela Tristeza, até cair no chão, quase morta de dor. Ali permaneceu durante algum tempo. Seus olhos marejados de lágrimas não a deixavam ver onde se encontrava. De repente, um vulto surgiu à sua frente e cotucou-a com a ponta do pé descalço, limpou os olhos para enxergar melhor e viu Afrodite.
— Levante-se, menina! — disse a deusa falando baixinho, apertando sua raiva entre os dentes cerrados. — Com que então ousou pretender me substituir?
Psiqué ajoelhou-se em frente à deusa.
— Não, Afrodite, nunca pensaria em ocupar seu lugar. Sou uma pobre mortal que nada conhece sobre os deuses. A única coisa que pretendo é tornar a encontrar Eros.
Afrodite pensou e resolveu:
— Para encontrar Eros, precisa mostrar que é forte. Se é isto o que deseja, vou lhe dar uma tarefa para cumprir.
Chamou as servas do Templo e mandou que reunissem em um só monte uma imensa quantidade de trigo, cevada, milho, grão-de-bico e mais quatro qualidades diferentes de sementes. Depois disse a Psiqué:
— A noite está chegando. Antes que Aurora abra as cortinas da escuridão para deixar passar o carro de Hélio, estes grãos e estas sementes deverão estar separados em montes.
Psiqué desanimou. Como poderia separar todos aqueles grãos e sementes em apenas uma noite?
— Mãe Terra — pensou ela — ajude-me a cumprir minha missão. Deméter, deusa da agricultura, senhora dos grãos e das sementes, dê-me seu auxílio. Preciso realizar minha tarefa, para chegar à minha alma imortal.
As deusas ouviram suas preces e os gnomos e duendes mobilizaram milhares de formigas que, em poucas horas, separaram tudo em diversos montes.
Furiosa, Afrodite pensou:
— Ela foi forte o suficiente para conseguir o auxílio dos espíritos da Terra. Vamos ver como se sairá na próxima missão.
E mandou que Psiqué lhe trouxesse os flocos de lã de ouro das ferozes ovelhas que pastavam na floresta perto de seu Templo.
Psiqué saiu à procura das ovelhas, mas, quando as encontrou, chorou de desespero. As ovelhas, agressivas e selvagens atacavam tudo o que se movesse por perto. E novamente Psiqué orou:
— Éolo, deus dos ventos, suplico seu auxílio. Acalme as ovelhas selvagens para que eu possa realizar minha tarefa!
No mesmo instante, os silfos chegaram trazendo ventos frescos e perfumados, que acalmaram a fúria das ovelhas. Tranqüilas, retiraram-se para dormir e deixaram presos às árvores os preciosos flocos de lã. Psiqué chegou a eles sem medo e sem perigo. Colheu-os e levou-os a Afrodite.
— Maldição! — resmungou a deusa. — Ela conseguiu a ajuda dos espíritos do ar!
Chamou Psiqué e deu a ela a terceira missão. Deveria trazer um vaso cheio com a água a fonte sagrada, que nascia no alto de um rochedo íngreme e perigoso. A fonte era protegida por terríveis dragões.
Sem protestar, Psiqué pegou o vaso e partiu em direção ao rochedo. Lá chegando, não soube como prosseguir. O rochedo era tão íngreme e liso que seria impossível escalá-lo. Psiqué respirou fundo e convocou:
— Doces Náiades, Ninfas das Fontes, atendam ao meu pedido! Preciso alcançar a fonte sagrada, mas meu pobre corpo humano não tem como chegar a ela.
As Ninfas ouviram seu apelo. Uma delas foi buscar a águia de Zeus, que esvoaçou em volta da menina, pegou o vaso com o bico encurvado e voou. Em minutos estava de volta, com o vaso cheio de água da fonte sagrada.
Afrodite não se conformou com o sucesso de Psiqué.
— A mocinha com certeza conhece as artes da magia e com isto conseguiu o auxílio dos espíritos da água. Pois muito bem, sua quarta tarefa será realizada no mundo dos bruxos e das almas penadas.
E entregou a Psiqué um pequeno estojo, com a recomendação de ir ao Hades e pedir a Perséfone que colocasse no estojo uma porção da beleza imortal.
Desta vez, Psiqué desanimou realmente. Como descer ao Hades, ser aceita na barca de Caronte e chegar a Perséfone? Missão totalmente impossível para um ser mortal. Desistiu de tudo e subiu ao alto de uma torre, disposta a se atirar lá de cima. Fechou os olhos e já ia saltando quando ouviu uma Voz que vinha do nada:
— Onde estão suas forças, Psiqué? Desta vez, ainda não convocou os espíritos da natureza. Perdeu também a confiança?
Psiqué olhou em volta, mas não viu ninguém. Resolveu, no entanto, aceitar a sugestão, que lhe fora dada. Reuniu gravetos e folhas secas e ateou fogo. E de pé, com as mãos estendidas sobre as chamas, implorou:
— Espíritos do Fogo, ouçam meu chamado! Mostrem-me a maneira de chegar ao Hades e de cumprir mais uma das tarefas que me foram impostas.
No mesmo momento, a rainha das salamandras ergueu-se do meio do fogo, contorceu o corpo numa dança exótica e disse:
— Vá ao Cabo Tênaro, no Peloponeso. Lá encontrará uma das entradas ao Hades. E leve consigo uma moeda na boca, um ramo de ouro da árvore consagrada aos deuses, como salvo-conduto que entregará a Caronte e um bolo de cevada e mel, que dará a Cérbero no momento preciso. E não dê ouvidos a quem quer encontre pelo caminho.
Psiqué partiu em direção à entrada que a levaria ao mundo interior. Caminhou muito, conseguiu o ramo de ouro da árvore consagrada aos deuses e, quando enfim chegou, seus pés doloridos mal podiam se mover. Mas ela não parou. Entrou na caverna que encontrou e seguiu pela passagem estreita e sombria. Pelo caminho, um velho aleijado que puxava um burro manco, pediu a ela que apanhasse umas lascas de madeira caída no chão. Mas Psiqué se lembrou da recomendação e não parou para auxiliá-lo. Entrou na barca de Caronte, entregou a ele a moeda que trazia escondida na boca e o salvo-conduto. Nas mãos, segurava com cuidado o estojo que Afrodite lhe dera e o bolo de mel e cevada. Durante a viagem na barca, um náufrago estendeu-lhe as mãos, suplicando que o puxasse para dentro da barca. Sempre atenta às palavras da rainha das salamandras, Psiqué não deu o auxílio solicitado.
Desceu da barca e se dirigiu ao castelo de Plutão. Antes de lá chegar, umas velhas fiandeiras bloquearam seu caminho, pedindo ajuda. Mas Psiqué se desviou delas e continuou.
Chegou enfim ao castelo. Plutão e Perséfone receberam-na de braços abertos.
— Fique para o jantar — convidou Perséfone. — Precisa descansar um pouco.
— Muito agradeço o seu convite, Perséfone, mas não posso aceitá-lo — respondeu Psiqué. — Tenho uma missão a cumprir e não posso me deter.
Pérsefone, então, colocou no estojo a porção de beleza imortal. Psiqué agradeceu e se despediu.
Voltou à barca de Caronte. Cérbero arreganhou para ela todos os dentes das suas três cabeças. Psiqué pegou o bolo de cevada e mel, dividiu-o em três partes iguais e ofereceu-as ao cão. Ele aceitou a oferenda e Psiqué deixou o mundo dos mortos.
Logo que chegou à luz, uma forte tentação invadiu seu espírito.
— Sou forte agora. Venci as quatro tarefas, tive o auxílio dos quatro elementos. Levo comigo a beleza imortal e creio que já posso desfrutar dela. Assim chegarei com maior rapidez a meu amado Eros.
E abriu o estojo. No entanto, a luz que saiu da caixa foi tanta que seus olhos humanos não puderam suportá-la e Psiqué desmaiou.
...
Eros, já refeito de sua ferida, só pensava em Psiqué.
— Não devia tê-la abandonado — pensava, aflito. — Agora tenho saudades. Algo me diz que ela está precisando de mim. Preciso encontrá-la.
E voou à procura de Psiqué. Encontrou-a desmaiada, caía na relva úmida. Abraçou-a com ternura, Psiqué abriu os olhos e sorriu:
— Meu amado Eros! Sinto que agora já posso olhar sua face sem perigo.
— Sim — respondeu o jovem deus — Você foi iniciada pela Terra, pela Água, pelo Ar e pelo Fogo. O contato com os quatro elementos purificou seus pensamentos e arrancou deles as impressões maldosas deixadas por suas irmãs. Agora pode me ver como realmente sou.
E Psiqué fitou extasiada a face de Eros, o Deus do Amor.
A moça retornou a Afrodite e cumpriu sua última missão, entregando a ela o estojo. Afrodite nada mais lhe pediu.
Há muito que Zeus acompanhava a jornada de Psiqué, com grande interesse. Ao ver a moça concluir sua última tarefa, sorriu e disse a Hera:
— Viu, cara esposa, tinha razão ao acreditar que a geração de Deucalião e Pirra teria condições de alcançar a imortalidade. Psiqué encontrou o caminho da iniciação interior e pode conhecer Eros em todo a sua pureza primitiva.
— É interessante observar — acrescentou Hera — que o caminho que leva à divindade é muito simples de ser trilhado. Os obstáculos são colocados na estrada pelos próprios homens. Eles criam seus demônios interiores e depois levam tempo para se livrarem deles, na jornada da purificação.
Zeus suspirou e apontou para Psiqué que, abraçada a Eros, corria alegre pela planície.
— Ela conquistou a imortalidade.
Chamou Hermes e pediu que trouxesse Psiqué à sua presença. E lá, rodeado por todos os deuses, inclusive por Afrodite, Zeus ofereceu à moça a ambrosia, concedendo-lhe a imortalidade.
— Psiqué, — disse Zeus — seu caminho foi árduo, mas conseguiu chegar ao fim de sua jornada. Sua alma está agora liberta dos entraves criados pela ignorância dos homens. Você é imortal como os deuses!
E, com uma bênção, reuniu para sempre Eros e Psiqué.
...
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