Capítulo 25 — O semideus e herói da agricultura — Triptólemo (Τριπτόλεμος)

    

    

Capítulo 25 — O semideus e herói da agricultura — Triptólemo (Τριπτόλεμος)

Olimpo, a Saga dos Deuses 

Triptólemo (Τριπτόλεμος). Por Emmanuel Mourão.





Desesperada, Deméter(Δήμητρα) saiu à procura da flha. Não dormia, não comia e nem se banhava. Apenas caminhava e interpelava a todos os que encontrava em sua caminhada. ^

— Viram minha filha? — perguntou aos duendes. 

Eles pararam suas atividades e olharam a deusa com piedade. 


— Não, Deméter, não vimos sua filha em lugar nenhum. Procuramos nas rochas e na mata cerrada. 

Deméter, cada vez mais triste, continuou sua busca. 

— Viram minha Coré(Κόρη)? — perguntou às nereidas. 

Elas sacudiram a cabeça, respigando gotas transparentes de água. 

— Ela não está no império de Poseidon(Ποσειδῶν). Procuramos nos mares e nos rios, nas cascatas e nas nascentes. Não está nas águas, Deméter. 

A deusa nem mais sentia o cansaço que já pesava sobre seus ombros. 

— Onde está a minha menina? Digam-me! — perguntou aos silfos. 

Eles, ligeiros e esvoaçantes, sacudiram as etéreas cabeleiras. 

— Não está no ar, não foi levada pelos ventos. Perguntamos a Éolo(Αἴολος), o Rei dos Ventos, e ele também não a viu. Vimos Bóreas(Βορέας), o Vento do Norte, que passava vindo da Trácia e ele nada soube dizer. Zéfiros(Ζεφυρος), o Vento Oeste, agitou a vegetação da planície, mas não viu sua filha por onde passou. 

Deméter chorou, mas não parou para curtir suas mágoas. 

— Onde está Perséfone? — perguntou às salamandras. 

E elas, sem pararem seu contorcido bailado entre as chamas, sussurraram: 

— Não a vimos no fogo, não está entre as chamas. 

Com um soluço arrancado do fundo da alma, Deméter prosseguiu em sua procura. 

Nove dias se passaram, nove dias de agonia. Na noite do décimo dia, consumida pela dor do desespero, Deméter orou: 

— Poderes mágicos que envolvem o mundo, mostrem-me onde está minha filha! Hécate(Εκάτη), deusa dos sortilégios, venha à minha presença e ilumine minha busca! 

No mesmo momento, Hécate surgiu, com um archote em cada mão e seguida por éguas, lobas e cadelas. Seu aspecto era infernal e terrível. Ligados em um só, seus três corpos e suas três cabeças pareciam prontos a convocar os espectros e os fantasmas do interior de todas as almas. Sua voz soou profunda e lúgubre. 

— O que quer de mim, deusa? 

Deméter pousou nela seu olhar fatigado. 

— Sabe onde está minha filha, Hécate?

A deusa monstruosa sacudiu afirmativamente as três cabeças. 

— Vi sua filha ser levada às sombras. 

Pelo rosto de Deméter passou um ar de esperança. 

— Viu Perséfone? Mas de que sombras está falando? E quem a levou? E para onde? 

Hécate hesitou antes de responder. Depois, em meio a uma respiração ruidosa e entrecortada, disse: 

— Não vi quem a levou e não sei para onde foi. Só posso lhe dizer que a vi desaparecer no seio das sombras. 

E afastou-se, levando consigo suas éguas, lobas e cadelas e também as esperanças de Deméter, que deu um profundo suspiro e continuou a andar pelas curvas da noite. 

Sempre caminhando, viu mais uma vez os dedos rosados de  Eos(Ἠώς) abrirem as portas da escuridão, para deixar passar a carruagem de Hélios(Ἥλιος). Mas, desta vez, Hélios deixou seu carro esperando no céu e veio ao encontro de Deméter. Flutuando no espaço, desceu suavemente à frente da deusa. 

— Deméter, seu sofrimento me entristeceu. Sei onde está Perséfone(Περσεφόνη), pois é assim que agora é chamada. Ela foi raptada por Plutão(Πλούτων) e levada ao Hades(Άδης)

Horrorizada, Deméter pôde apenas balbuciar: 

— Levada ao Hades? Hélios, ajude-me, diga mais alguma coisa! 

Mas Hélios já se elevara aos céus e dera partida aos fogosos cavalos de fogo. 

Furiosa, Deméter cerrou os punhos e brandiu-os em direção ao Olimpo. 

Zeus(Ζεύς)! Como pôde permitir que sua própria filha fosse raptada ao mundos dos mortos? Por que me castiga desta maneira, Zeus? 

Mas somente o silêncio respondeu aos seus gritos aflitos. E, fixando a silhueta do monte que se elevava no horizonte, varando as nuvens, disse baixinho: 

— Pois só voltarei ao Olimpo depois de ter minha filha de volta! Não desistirei até conseguir isto! 

Com a alma ferida e se sentindo abandonada por todos os deuses, Deméter prosseguiu em sua jornada. 

Andou muito tempo, até chegar a Eleusis(Ἐλευσίς). Lá parou para descansar, tomou o aspecto de uma velha e se sentou em uma pedra à beira da estrada. Pouco depois, duas moças se aproximaram correndo em meio às suas brincadeiras. Pararam ao vê-la. 

— Quem é você o que faz aqui? — perguntou uma delas, cheia de curiosidade. 

Num fio de voz, Deméter respondeu: 

— Meu nome é Doso(δώσω) e escapei das mãos de perversos piratas, que me levaram à força para a Ilha de Creta.

As moças encheram-se de piedade. A mais nova falou: 

— Pobre mulher! Acho que poderemos auxiliá-la. Somos filhas do rei Céleos(Κελεός) e nosso irmão menor, Demofonte(Δημοφῶν), precisa de uma ama. Gostaria de cuidar dele, Doso? 

Deméter esboçou um sorriso. Sim, pensou, seria muito bom tomar conta de um bebê. Desta maneira, poderia ter novamente um filho para cuidar, para preencher no coração o imenso espaço que Perséfone deixara vazio. 

— Aceito, menina, e agradeço sua bondade. 

Acompanhando as jovens, Deméter entrou no castelo. Sentou-se em um tamborete e aguardou. Tão cansada estava que imediatamente se viu flutuando sobre seu corpo. Uma leveza suave tomava conta de seu corpo espiritual e ele elevou-se aos céus, buscando forças. O rei Céleos e sua esposa Metanira(Μετάνειρα) se assustaram ao verem a nova criada imóvel, adormecida no tamborete. Tudo fizeram para despertá-la, mas nada conseguiram. 

— Estará ela doente? — preocupou-se a rainha. 

— Ou será uma louca? — sugeriu o rei Céleo. 

A criada Iambe(Ἰάμβη), uma jovem irreverente e engraçada, entrou carregando umas mantas que acabara de recolher das cordas onde as pendurara para secar. Chegou bem perto de Deméter, observou-a por alguns instantes e depois disse: 

— Ela não está doente e não me parece louca. Acho que está muito triste. Apenas isto. Triste. 

Arriou as mantas numa mesa perto e começou a contar piadas num tom alto de voz, dando gritinhos finos e fazendo gestos maldosos. Atraída pelos ruídos, Deméter voltou a seu corpo e retomou o comando de seus gestos e ações. 

— Viram! — exclamou Iambe, batendo palmas de alegria. — Ninguém consegue ficar sério perto de Iambe! 

Metanira se aproximou com um jarro de vinho. 

— É bom beber um pouco, minha senhora. Parece muito enfraquecida. 

Deméter recusou o vinho delicadamente e pediu uma bebida feita de sêmola de cevada, água e poejo. Depois de beber esta mistura, sentiu-se bem melhor.   

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Demofonte era uma criança quieta e adorável. Deméter se encheu de amor por ele e, na impossibilidade de rever sua filha Perséfone, começou aos poucos a transferir para o menino todo o seu amor de mãe. Olhando o bebê adormecido, Deméter pensava: 

— Vou torná-lo imortal! Ocupará no Olimpo o lugar de minha filha Perséfone que me foi cruelmente arrebatada. 

E começou todo o preparo ritualístico para dar a imortalidade a Demofonte. Não mais lhe deu leite para beber e esfregava a ambrosia em seu corpo, enquanto murmurava palavras mágicas. À noite colocava a criança sobre as brasas de um fogareiro e orava aos espíritos do fogo. Demofonte foi se transformando em um bebê lindíssimo, mais parecido com um deus do que com um simples mortal.   

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Metanira agitou-se em seu leito. Há dias não dormia direito, tomada por profunda inquietação. Uma sensação estranha apertava seu peito. Alguma coisa lhe dizia que a nova empregava estava roubando seu filho. Levantou-se e foi à janela. A lua enorme banhou-a toda em prata. Jogou uma manta nas costas e foi ao quarto do filho. O bebê não estava lá. Nem ele, nem a criada. Assustada, deslizou pelos corredores escuros, procurando em todos os quartos. Encontrou-o, enfim, adormecido sobre as brasas do fogareiro. Deu um grito e correu para a criança. Deméter foi arrancada subitamente do profundo transe em que se encontrava. 

— Sou louca! — esbravejou Metanira, tirando o filho do fogareiro. — Que inimigo do rei a mandou para matar meu filho? Vamos, fale! 

Deméter suspirou fundo e olhou-a bem dentro dos olhos. Depois disse, cheia de tristeza. 

— A ignorância dos homens é tanta, que não os deixa nem mesmo aceitar uma dádiva divina! 

E, ante os olhos atônitos de Metanira, perdeu o aspecto de velha criada e se transformou em Deméter. A luz de sua aura iluminou todo o aposento. 

— Mulher insensata! — continuou a deusa — Seu filho seria um imortal, eternamente jovem, e ocuparia um lugar no Olimpo, ao lado dos deuses. Agora tudo está perdido. Sua ignorância e seu possessivo amor de mãe roubou-lhe a imortalidade. Agora será apenas um homem. 

— Eu não sabia — gaguejou Metanira. — Por favor, perdoe-me! 

— Da próxima vez, rainha, não se intrometa naquilo que desconhece. Vou embora de seu palácio, mas desejo que ergam um templo a mim dedicado. 

A construção do templo começou imediatamente. Os homens trabalhavam nele dia e noite. O rei, pessoalmente, acompanhava o andamento da obra. 

Um dia, estava Deméter passeando pelas florestas próximas ao castelo, examinando a terra e as plantas, quando viu Triptólemo(Τριπτόλεμος), o filho mais velho do casal real. O rapaz se aproximou timidamente. 

— Deméter, sinto muito pelo que aconteceu. Sei que pretendia apenas o bem para meu irmão caçula. Não fique aborrecida com minha mãe. Ela se assustou, ao ver o bebê sobre as brasas. Compreenda que ela é mulher, não uma deusa, e não está acostumada a assistir rituais mágicos. 

Deméter sorriu. 

— Não fique preocupado. Compreendo a reação de Metanira. Apenas lastimo que o ritual tenha sido interrompido. 

Ele segurou as mãos da deusa e as beijou com reverência.

— Obrigado, Deméter, por não guardar nenhum rancor em seu coração. Não tinha sossego imaginando que teríamos conosco, e para sempre, a ira de uma deusa. 

— Meu rapaz — disse ela num tom tranqüilizador — vou lhe provar que não estou aborrecida. Tenho comigo os grãos de um cereal muito precioso, que ainda não foi entregue aos homens. É um alimento capaz de afastar definitivamente de seu mundo o fantasma da fome. Vou confiar estes grãos a você, para que divulge a sua cultura. 

Tirou umas sementes de uma prega de sua veste e colocou-as nas mãos de Triptólemo, que as examinou com curiosidade. 

— Realmente, nunca vi estes grãos. Como se chama este cereal? 

Ela respondeu simplesmente: 

— Eu o chamo de trigo.   

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O templo ficou pronto e Deméter se recolheu nele. A saudade de Perséfone doía cada vez mais em seu peito, aumentando ainda mais com a impossibilidade de transformar Demofonte em um imortal. Escondida de todos, Deméter sofria. Sua agonia e seu afastamento do mundo provocou uma seca terrível, que se espalhou pela Terra. Nada mais vivia, nada mais germinava. Um vento frio soprava dia e noite, desnudando as árvores. Triptólemo, que já havia partido pelo mundo para ensinar o cultivo do trigo, não podia iniciar sua missão, pois as preciosas sementes iriam morrer inevitavelmente na terra ressequida. 

Gaia(Γαῖα), aflita, procurou Zeus. 

— Zeus, como pode deixar que isto aconteça? Fale com ela, convença-a a voltar para o Olimpo. Os homens e os animais vão morrer todos, se a seca continuar por mais alguns dias. 

Zeus enviou Hermes com um recado para Deméter. Deveria retornar imediatamente ao Olimpo e retomar suas atividades. Mas ela sacudiu a cabeça numa obstinada negativa. 

— Hermes, — disse ela — diga a Zeus que só retornarei quando minha filha voltar para mim. E nada me fará mudar de idéia. Meu coração morre aos poucos e, junto com ele, morrerá também o mundo.   


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Triptólemo (Τριπτόλεμος) revivendo a terra estéril. Por Emmanuel Mourão.



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