Capítulo 24 — A impressionante donzela que trás frutos — Coré(Κόρη)

   

    

Capítulo 24 — A impressionante donzela que trás frutos — Coré(Κόρη)

Olimpo, a Saga dos Deuses 

Coré(Κόρη). Por Emmanuel Mourão.



Carregando a moça desfalecida, Hades(Άδης) mergulhou novamente em seu reino infernal. Apesar de curiosos, seus súditos não se aproximaram. Seguiram-no de longe, mal disfarçando sua curiosidade. 

— Ela é tão diferente, tão linda! — segredou uma criatura pequena e gorda, de pele escamosa e olhos tortos. 

— Ela não é uma alma! Tem um corpo humano! — cochilou uma velha tão magra que seus ossos apareciam sob a pele transparente. 


— Não pode ser! Isto não é permitido! — sibilou algo parecido com um lagarto enorme, esticando uma língua fina e comprida. 

E Hades caminhava sem se deter, carregando seu precioso fardo, em direção a seus aposentos. Pelo caminho, Coré(Κόρη) acordou, gritou e bateu nas costa de seu raptor com os punhos fechados. 

— Largue-me! Largue-me! 

Ele apenas aumentou a pressão do braço que a carregava. Entrou em seu quarto espaçoso, cavado numa rocha lodosa. Lá dentro, a escuridão era quebrada pela chama de alguns archotes presos à pedra, dando ao ambiente  um aspecto lúgubre e avermelhado. 

Plutão(Πλούτων) deitou-a em seu leito e curvou-se sobre ela. Coré deu outro grito e escorregou para a cabeceira. Ele estendeu o braço musculoso e tocou-a de leve com a mão enorme. A moça se encolheu. 

— Não ouse me tocar! — falou, com raiva — Tenho nojo de você, tenho horror deste lugar! Saia, vamos, vá para bem longe de mim! 

Ele se levantou e andou pelo quarto, sempre com os olhos pregados nela. 

— Não adianta, Coré. Você agora é minha e nem Zeus(Ζεύς) a arrancará daqui. Será bem melhor para você acostumar-se com esta idéia. 

Coré mergulhou a cabeça entre as mãos e chorou muito. Aos poucos, suas lágrimas secaram e ela ergueu os olhos vermelhos e inchados. 

— Sei onde estou e sei quem é você, meu tio. Sei também que não poderei fugir daqui. Já que não tenho outro jeito, procurarei aceitar tudo isto com tranqüilidade. Deixe-me conhecer melhor seu reino. 

Hades estendeu o braço, ajudando a moça a se levantar. 

— Sim — disse ele — conheça bem o meu reino antes de tornar a repetir que tem horror a ele.

Em passos largos chegou à porta do quarto e fez um sinal chamando alguém. Um pequeno gênio, mais parecendo uma criança deformada, aproximou-se, desconfiado. 

— Pento(Πένθος) — disse Hades — acompanhe Coré e mostre-lhe o mundo subterrâneo. 

Pento estendeu para ela a mãozinha retorcida. 

— Venha, moça, venha comigo. Pento conhece bem os infernos. 

Coré o acompanhou, o olhar assustado espiando em volta. 

Mais adiante, perguntou: 

— Afinal, quem é você? 

Ele fez uma careta. 

— Sou o Gênio do Desgosto. Minha função é observar o culto dos mortos. Quando a família do morto chora muito e se lamenta, envio a ela uma grande porção de desgostos. 

— Mas por que faz isto? Se eles já sofrem a perda do ente querido! 

— A morte é coisa natural — explicou Pento. — Sendo assim, para que chorar? Já que tanto choram pelo inevitável, que fiquem então com mil desgostos! 

Caminharam um pouco e chegaram ao lugar onde a barca de Caronte(Χαρων) atracava com seus passageiros. Coré deu um pulo para trás, quando viu Cérbero(Κέρβερος)

— Por que tem medo? — perguntou Pento — Ele é o guardião do umbral. Quem o teme jamais vencerá o terror da morte e será sempre prisioneiro do umbral. Olhe-o de frente, Coré! 

As pernas da moça tremiam, mas ela olhou. Horrorizada, viu as três cabeças do cão monstruoso fixarem nela olhares penetrantes. A cauda de dragão balançava, lentamente, e parecia sempre pronta a enroscar-se nas pernas do incauto que se aproximasse demais. Ela suspirou, prendeu a respiração e olhou nos olhos do cão. Aos poucos, a cauda se acalmou e o olhar das três cabeças desviou-se dela. Soltou a respiração e passou por Cérbero, sem sentir nenhum receio. 

E caminharam entre seres monstros, entre as almas e as mil penas e sofrimentos que povoavam o mundo subterrâneo. Coré, aos poucos, foi perdendo o medo. Suas pernas já não mais tremiam. 

Uma mulher descabelada, de nariz adunco e vestida de andrajos, parou à sua frente. 

— O que faz aqui, criatura da superfície? Seu lugar não é nos infernos. 

Coré a olhou de cima a baixo.

— Meu lugar não é aqui, mas já que aqui estou, mesmo contra a minha vontade, pretendo saber sobre este mundo, pois não suportaria viver em um local que não conheço. 

A velha deu uma risada. 

— É mesmo? Pois acho que aqui apenas sofrerá a carência dos afetos daqueles que deixou na Terra. 

— Não é bem assim — retrucou Coré. — Amo minha mãe e todos os que conviviam comigo. Minha imprudência arrastou-me para cá. Fascinada por uma flor, curvei-me demais sobre o abismo e fui trazida à força. Agora procuro um meio de viver em paz neste mundo profundo, sem sofrer por aquele de onde vim e conservando dele apenas uma doce lembrança. 

— Conseguirá isto, minha jovem? Todos os que aqui chegam lamentam o mundo que deixaram até beberem da água do rio do esquecimento. Quer um pouco dessa água, menina? 

— Não! — exclamou a moça — Não quero me esquecer de nada. Preciso me lembrar de como brilha a luz, para aprender a conviver com as trevas. Se não for assim, sinto que serei engolida por elas. 

A velha se afastou, resmungando. 

— Quem é ela, Pento? — perguntou Coré. 

— É Pênia(Πενία), a Carência, a Pobreza — respondeu ele. 

— Pobre mulher — sussurrou a moça — Ainda não percebeu que é a pobreza do espírito que traz a carência à alma. Há que se buscar a plenitude mesmo no mundo das trevas. 

Um lagarto aproximou-se, ameaçador. A língua fina se esticou e tocou o braço nu de Coré. Ela estremeceu, mas não se desviou de seu caminho. 

— Vamos, Pento, mostre-me mais sobre seu mundo. 

Andaram pelos charcos. As almas sofredoras estendiam as mãos contorcidas e tocavam as vestes da moça. Mas este toque não maculava a brancura de seu manto. E Coré caminhava sobre a lama imunda, mal roçando no charco os pés descalços. 

— Ela não afunda! — gritavam as almas. — Ela não mergulha no lodo, como nós! 

Pelo caminho, um rapaz sisudo a fez parar. 

— Onde pensa que vai, menina? 

Ela procurou sorrir.

— Vou a todos os cantos deste mundo interno. 

— E para quê? — perguntou ele, apertando os olhos. 

— Para conhecê-lo e aprender a viver nele em paz. 

Ele torceu a boca num sorriso sarcástico. 

— Ninguém vive em paz nos infernos. Aqui só existe o ódio, a vontade intensa de desagregar o mundo e fazê-lo voltar ao Caos. 

Ela o olhou com curiosidade. 

— Será que não existe o Amor em nenhum recanto deste reino das profundezas? 

Ele ficou furioso. 

— Amor! Você só pode estar louca! Quem tem Amor neste mundo infernal? 

Ela fixou em seu rosto irado seus lindos olhos azuis. 

— Eu tenho. 

E deixou que um fluxo de Amor puro escapasse de seu peito e envolvesse o rapaz. Ele foi embora, quase correndo. 

Pento deu uma gargalhada. 

— Sabe quem é ele, Coré? É Anteros(Ἀντέρως), o Irmão Contrário de Eros(Ἔρως). Anteros é o Ódio, a Desordem, a Desunião. 

Coré suspirou fundo. Sentia que à medida que caminhava ia se tornando mais segura. O mundo interno já não mais a assustava e seus habitantes aprenderam a não perturbá-la com tolas ameaças. Seus passos se tornaram firmes. 

De repente, sentiu uma vontade intensa de voltar a Plutão e de, junto com ele, assumir o reinado daquele lugar imenso e interno, que já aprendera a conhecer e aceitar. Pento leu seus pensamentos e conduziu-a à entrada de uma gruta. 

— Agora, moça, terá que prosseguir sozinha. 

Coré não pensou duas vezes. Esgueirou-se pela fenda estreita que, logo adiante, abriu-se num largo espaço circular. No meio dele, Hades a esperava, despido de seu manto, de pé ao lado de um altar sacrificial. 

O solo era todo um braseiro vivo, que pululava e cuspia para o alto uma lava incandescente. Coré não teve medo. Deixou cair suas vestes muito brancas e deu o primeiro passo sobre as brasas. O fogo não a queimava, apenas tingia seu corpo nu com um reflexo avermelhado. 

Passo a passo, chegou à frente de Hades. Em silêncio, ajoelhou-se e reverenciou a máscula nudez do deus infernal. Ele estendeu a mão, fez com que  ela se levantasse e depois deitou-a sobre o altar. Curvou-se sobre ela e cobriu-a com seu corpo. Coré recebeu nos lábios seus beijos ardentes e sentiu-o escorregar de mansinho para dentro de si. Fechou os olhos e abandonou-se àquela doce integração com o deus do mundo interior. Quando abriu os olhos, viu três vultos encapuçados ao lado altar. Um deles ajudou-a a se levantar e a envolveu num manto negro, todo bordado com fios de ouro. O segundo ser prendeu uma tiara de pedras preciosas em torno de sua testa e o terceiro entregou a ela um cetro de ouro. 

E Coré se transformou definitivamente em Perséfone(Περσεφόνη), a esposa de Plutão, a senhora do Hades. 

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A Abdução de Coré(Κόρη) por Hades(Άδης). Por Emmanuel Mourão.



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