Capítulo 23 — Aquele que conduz a todos, o Rico — Hades(Άδης)

  

    

Capítulo 23 — Aquele que conduz a todos, o rico — Hades(Άδης)

Olimpo, a Saga dos Deuses 

Hades(Άδης). Por Emmanuel Mourão.




Depois da vitória sobre os Titãs, coube a Hades(Άδης), irmão de Zeus(Ζεύς) e também libertado do ventre de Chronos(Χρόνος), o domínio dos reinos subterrâneos. Hades era tão temido pelos homens, que eles não o chamavam pelo nome, com medo de irritá-lo. Passaram, então, a chamar de Hades ao reino subterrâneo e ao temível deus deram o nome de Plutão(Πλούτων), que significa Rico, achando que, com isto poderiam mantê-lo tranqüilo. Escolheram este nome acreditando que o império subterrâneo era muito opulento, não somente em número de habitantes, como também em riquezas minerais e vegetais. 


O reino do Hades era dividido em três. No primeiro habitavam aquelas almas que haviam cometido crimes hediondos e lá espiavam suas culpas. Este local passou a ser chamado de Tártaro(Τάρταρος), nome que inicialmente deisgnava genericamente os infernos. O segundo plano era uma espécie de limbo, onde habitavam aqueles que haviam cometido pequenas faltas e que se recuperavam lentamente. A este nível deram o nome de Érebos(Ἔρεβος), que no começo denominava as trevas que envolviam a Terra. O terceiro plano — Campos Elíseos(Ἠλύσιον πεδίον) — era o local de alegrias e bem -aventuranças. 

As almas que viviam no Érebos, depois de um período de purificação e aprendizagem, passavam aos Campos Elíseos. Mas, se não aproveitassem os ensinamentos obtidos no Érebos, seriam mergulhadas no Tártaro. 

Nos Campos Elíseos, as almas aguardavam o momento em que nasceriam para uma nova existência física. Mas a todos era dada a comer a semente da romã, que tinha a propriedade de fazer retornar ao Hades todas as almas que dele se afastassem. 

As entradas para o Hades se localizavam em cavernas profundas, na superfície da Terra. Essas cavernas se prolongavam em longos e sombrios corredores que davam nas profundezas subterrâneas. 

Os homens, logo depois de abandonarem suas vestimentas físicas, eram conduzidos por Hermes(Ἑρμής) a um dos rios infernais, que eram quatro: Aqueronte(Ἀχέρων), Cocito(Κωκυτός), Estige(Στύξ) e Piriflegetonte(Πυριφλεγέθων). Lá aguardavam a barca conduzida por Caronte(Χαρων), que os levava imediatamente a Radamantes(Ραδαμανθυς), filho de Zeus, que os obrigava a confessar todos os seus crimes, mesmo aqueles que nunca ousavam confessar nem a si mesmos. Eram então julgados e levados a um dos três níveis dos mundos subterrâneos, de acordo com o resultado do julgamento. 

Caronte era um velho horroroso e esquelético, filho de Érebos(Ἔρεβος) e Nix(Νύξ), cuja missão era transportar a alma dos mortos através do rio. Logo estendia a mão ossuda, que surgia das pregas da enorme e larga túnica suja de lama, para receber o pagamento pela viagem. Sabendo disto, os parentes do morto sempre colocavamuma moeda em sua boca, o Óbolos(ὀβολός), para que ele pudesse pagar ao banqueiro. Nehum ser vivo era conduzido na barca de Caronte, a não ser que levasse um salvo-conduto: um ramo de ouro da árvore consagrada aos deuses. 

E, diariamente, Caronte recebia novos passageiros em sua lúgubre barca. Em pé na proa, dava a partida com um leve sinal da mão esquálida, e as almas começavam a remar. E o ruído dos remos mergulhando na água feria o silêncio sepulcral.   

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Um dia, Hermes(Ἑρμής) foi chamado à presença de Hades. 

— Hermes, mensageiro dos deuses, o único capaz de ir aos céus e aos infernos, aos mares e à terra, eu o saúdo e peço seu auxílio. Os seres humanos não estão devidamente instruídos para abandonarem seus corpos. Quando isso acontece, eles se desesperam e se agarram loucamente à sua matéria inerte. 

— É verdade — concordou Hermes. — Tenho encontrado mais dificuldades em arrancar os homens de seus corpos mortos, aos quais aderem-se como ostras na pedra, tentando reanimá-los. Parece-me que os homens estão ainda bem pouco preparados para a vida e, pior ainda, para a morte. 

Plutão concordou com um mudo balançar de cabeça. Franziu as sobrancelhas, que se destacavam na pele avermelhada, emoldurando os olhos amendoados de um negro intenso e depois falou: 

— Peço-lhe, Hermes, que ensine aos homens alguns métodos cerimoniais que irão auxiliar seus mortos e abandonarem rapidamente seus corpos inanimados. Diga a eles que façam o seguinte: no momento em que a alma deixar o corpo e o tênue cordão de prata que a une a ele for rompido, seus sacerdotes, ou os chefes de tribo ou da família, deverão orar, pedindo aos deuses que iluminem a mente do morto com a chama da compreensão. Depois, o corpo sem vida deverá ser cremado no alto de uma fogueira, junto com ervas aromáticas. Assim, sem a presença de seu invólucro físico, a alma se desligará com mais facilidade da matéria. As cinzas e o que restar dos ossos, deverá ser enterrado em cova profunda, para que a alma do morto compreenda que é nas profundezas da terra que está sua próxima morada. E, então, Hermes, você poderá conduzir as almas sem maiores problemas até Caronte, que as transportará através do rio até a entrada do Hades. Lá passarão por Cérbero(Κέρβερος), o cão de três cabeças que guarda a entrada dos Infernos. Ele não oporá nenhuma resistência, pois sua única missão é impedir a saída das almas e não a sua entrada. Agora vá, Hermes, e ensine aos homens tudo o que lhe foi dito agora.

Depois disso, o trabalho de Hermes foi mais fácil. Do Olimpo, os deuses viam as piras crematórias erguerem-se numa coluna negra e comentavam: 

— Os homens procuram cumprir bem tudo o que lhes é ensinado pelo deuses. Vamos esperar que continuem sempre assim.
   
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Usando o capacete que o tornava invisível, Hades passeava por todo o seu reino, desde as mais imundas camadas do Tártaro, até o nível mais elevado e belo dos Campos Elíseos. 

No Tártaro, sem se deixar ver, olhava as almas que chapinhavam  no charco negro, os braços estendidos para cima, pedindo clemência. As pernas mergulhadas na lama densa não podiam quase se mover e não conseguiam fugir dos mostros temíveis que lhes impunham os mais penosos suplícios. 

No Érebo, destacando-se contra a penumbra, as almas caminhavam às cegas, procurando por guias que lhes trouxessem uma luz na escuridão. 

Em seus níveis mais elevados, o Érebo se abria numa imensa clareira mais iluminada, onde os habitantes se moviam com facilidade e encontravam alívio na certeza de que ali estavam temporariamente, apenas aguardando o momento de serem erguidos aos Campos Elíseos, onde reinava a eterna primavera e onde as almas encontravam repouso sobre a relva macia, escutando os poetas cantarem em versos a estória de todos os deuses. 

Através do Hades passava o rio Lete(Λήθη), o rio do esquecimento, de cujas águas as almas bebiam e conseguiam se esquecer do mundo. 

E Plutão vivia mergulhado em seu reino infernal, sem visitar a luz do dia, sem procurar os irmãos do Olimpo, convivendo com monstros e almas sofredoras, entre as Hárpias(Άρπυιες) e as Queres(Κῆρες) e vendo a chegada do barco de Caronte com seus lamurientos passageiros. 

Um dia, quando percorria seu reino, reparou em um dos imensos túneis que, cavados na parte superior de uma das cavernas do Érebos, levava à superfície da Terra. Resolveu subir e olhar. Com facilidade  escalou o corredor sombrio que subia quase que verticalmente. Espiou para fora e cobriu os olhos com a mão, tentando protegê-los do brilho intenso do sol. 

As Ninfas brincavam, correndo na relva salpicada de pequenas flores coloridas. E entre elas estava Perséfone(Περσεφόνη)

Ficou por muito tempo olhando a moça divertir-se, alegre como um pássaro em liberdade.

Coré(Κόρη), — chamou uma das ninfas — venha ver este pequeno esquilo! Acho que é o mesmo que vem, todos os dias, comer as nozes que caem daquela árvore. 

Perséfone foi ver o animal que segurava uma noz enorme para seu tamanho. As Ninfas sempre a chamavam de Core, a Jovem. 

Ao ver a moça, o coração de Plutão saltou no peito e um desejo intenso fez vibrar todas as fibras de seu ser. Voltou a seu mundo subterrâneo, mas deixou na superfície toda a sua tranqüilidade. E, todos os dias, escorregava acima pelo túnel escuro e lodoso e ia olhar a brincadeira  das moças, oculto pela invisibilidade de seu capacete. 

Core se afastou das Ninfas e chegou bem perto da gruta de onde Hades a observava. Parou para ajeitar as pregas de sua veste muito alva. Rapidamente, o deus dos infernos fez surgir um magnífico narciso, de uma cor exótica e fragrância inebriante. Maravilhada ante a visão da flor que não conhecia, curvou-se para colhê-la. Imediatamente foi agarrada pelas mãos poderosas de Plutão e arrastada para o túnel. 

A moça deu um grito terrível e desesperado, que foi ouvido por sua mãe, no Olimpo. Deméter(Δήμητρα) acudiu, mas nada pôde fazer. Core desaparecera misteriosamente. 

As Ninfas, assustadas, corriam pela relva procurando em todas as moitas e no tronco oco das imensas árvores. Mas a entrada para o Hades permanecia oculta e ninguém percebeu. 

— Como pôde acontecer isto? — exclamou uma delas — Core estava aqui agora mesmo! 

— Sumiu! Foi tragada pela Terra! 

— Não diga bobagens! Ela tem que estar por aqui! 

Apenas Deméter se mantinha em silêncio, olhando em volta através da cortina de lágrimas que envolvia sua visão, fazendo com que as plantas e as flotes parecessem vultos coloridos e disformes.   

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O Rei do Submundo Hades(Άδης). Por Emmanuel Mourão.

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