Capítulo 22 — A deusa grega da agricultura, colheitas, fertilidade da terra e estações — Deméter(Δαμάτηρ)

 

    

Capítulo 22 — A deusa grega da agricultura, colheitas, fertilidade da terra e estações — Deméter(Δαμάτηρ)

Olimpo, a Saga dos Deuses 

 Deméter(Δαμάτηρ). Por Emmanuel Mourão.



Os homens conseguiram, a duras penas e com o auxílio dos espíritos da natureza, fazer com que a terra voltasse a dar flores e frutos. Deucalião(Δευκαλίων) e Pirra(Πύρρα) tiveram filhos e filhas. As planícies voltaram a verdejar e as gotas douradas do sol novamente surgiram sobre a superfície tranqüila e cristalina dos lagos. 

A espécie humana cresceu, multiplicou-se e espalhou-se pelo mundo, reunindo-se em colônias. As colônias se transformaram em povoados e os povoados em cidades. 


Como o homem não sabia cultivar a terra e dependia unicamente dos frutos e da caça, os alimentos se tornaram escassos. Do alto do Olimpo, os deuses escutaram suas preces. 

Zeus(Ζεύς), senhor poderoso, o alimento que conseguimos não é mais suficiente para nós e para nosso filhos. A floresta nos dá a caça, nos cede os frutos de seu ventre, mas eles são poucos e nós somos muito numerosos. Ajude-nos, senhor, a fazer com que a terra multiplique seus frutos e produza toda a espécie de alimentos de que precisamos. 

Gaia(Γαῖα), novamente, intercedeu em favor do mundo que tanto amava.

— Zeus, faça alguma coisa por eles. O que a terra lhes oferece não é mais suficiente para seu sustento. 

Zeus pensou um pouco e resolveu: 

— Chame minha irmã Deméter(Δήμητρα)

Deméter chegou, linda e jovem. Desde que fora libertada por Zeus do ventre de seu pai, Chronos(Χρόνος), juntamente com os outros irmãos, não participara diretamente dos problemas dos deuses. Limitava-se a cuidar da natureza, no Olimpo, a fazer com que lá a vegetação fosse incrivelmente bela. 

— Deméter — disse Zeus — quase não a tenho visto. Por onde tem se escondido, minha bela irmã? 

— Não me escondo, Zeus. Apenas cuido das plantas e das flores e faço dessa ocupação a alegria de minha vida. 

— Pois muito bem. Já que gosta tanto da natureza, vou dar a você uma importante missão. Deverá aumentar a produção da terra, nas planícies. Os homens têm fome. 

E Démeter, feliz com sua agradável tarefa, fez com que a vegetação cobrisse todos os prados e planícies, multiplicou os frutos e os alimentos cedidos pela terra. 

Agradecidos, os homens ergueram templos e estátuas em homenagem aos deuses.

Poseidon(Ποσειδῶν), que a observava desde que deixara o Olimpo para trabalhar com os homens, tomou-se de loucos amores. Por várias vezes assediou Deméter que, arisca, esquivou-se ao poderoso deus. 

Poseidon, cada vez mais apaixonado, passou a persegui-la a cada instante. Quando viu que dificilmente conseguiria escapar, Deméter se transformou em uma égua e partiu em disparada pelas pradarias, em direção à floresta. Mas Poseidon tomou a forma de um garanhão, alcançou-a e cobriu-a. Encolerizada e humilhada, Deméter se escondeu debaixo de véus negros e foi se refugiar no fundo de uma caverna. E foi mãe do cavalo Arion(Ἀρίων), que possuía o dom da palavra e de uma filha misteriosa, que os homens nunca chamavam pelo nome, a não ser durante alguns rituais. Filha da cólera de Deméter, temiam que, quando convocada, despertasse a ira da natureza e a violência dos elementos. 

O mundo voltou a sofrer pela fome, pois Deméter, envergonhada, não queria mais sair de sua gruta e, na sua ausência, a terra não produzia. 

Aflita, Gaia procurou Zeus. 

— Por favor, Zeus, faça alguma coisa! Poseidon humilhou Deméter e ela agora se recusa a cuidar da vegetação! Os homens voltam a ter fome.

Ajudado por Pã(Πᾶν), Zeus conseguiu afinal localizar sua irmã. 

— Vamos, Deméter, por que se retirou assim? Dei-lhe uma missão e, seja lá o que for que a atormenta, não pode castigar os homens, pois eles não têm culpa de sua tristeza. 

Deméter suspirou. 

— Você está certo, meu irmão. Tenho me descuidado da vegetação. Voltarei a cuidar da terra. 

E Deméter tornou a percorrer o mundo, e a terra se encheu novamente de plantas e frutos. 

Disfarçada em mulher do campo, ensinou aos homens a arar e a cultivar o solo. Mostrou como colher a semente, plantar, adubar e regar a terra. Ajudou nas primeiras colheitas e fez com que os homens despertassem o amor por suas plantações. 

Do Olimpo, Zeus a tudo assistia e, quando Hélios(Ἥλιος) mergulhou sua carruagem nas estrebarias da noite, sorriu, feliz, no final de mais um dia dos deuses. 

— Desta vez, espero que tudo dê certo. 

O carro prateado de Selene(Σελήνη) surgiu na noite estrelada e seus beijos respingaram luz por todo o negro firmamento. Esquecendo-se dos homens, Zeus se deixou perder na contemplação daquela noite radiosa. E teve saudade do Infinito, teve saudade das estrelas. Fez adormecer seu corpo, saiu da matéria física e partiu para a Imensidão. 

Flutuando no espaço, passou pelas estrelas, pelas constelações. Sorriu ao ver Amaltheia(Ἀμάλθεια), a cabra que o aleitara, brilhando, alegre, no vazio negro. E viu também as Plêiades(Πλειάδες). De longe, contemplou Electra(Ηλέκτρα) e sentiu o peito encher-se de Amor. Mas ela fugiu, apagou sua luz no céu, e foi procurar abrigo na Terra, no Palácio de Athena(Ἀθάνα). Disfarçada em mulher, procurou ocultar-se atrás da estátua da deusa guerreira. Irritado, Zeus lançou longe e estátua, que foi cair na Troada. Electra não pôde mais fugir e cedeu aos amores de Zeus. E foi mãe de Dárdano(Δάρδανος) e Iásion(Ἰασίων). Reuniu os filhos e entregou-os ao pai. 

— Zeus, — disse Eectra — volto agora ao convívio de minhas irmãs. Preciso retornar ao firmamento e a brilhar no espaço que deixei vazio. Cuide de nossos filhos e faça deles homens justos, como devem ser os filhos dos deuses. 

As crianças foram entregues a uma família bondosa, que as criou com Amor. 

Iásion ficou com sua família adotiva, na Samotrácia, e Dardano partiu para a costa asiática. 

Um dia, estava Iásion cuidando da plantação, quando Deméter se aproximou, em seu disfarce humano.

— Camponês, — disse a deusa — creio que não conhece ainda a maneira de transplantar as mudas que crescem coladas ao tronco. Veja como faço. 

Com suas mãos hábeis, cortou as mudas, misturou a terra de um canteiro com adubo, fez as covas e plantou. Iásion procurava ficar atento ao que ela lhe ensinava, mas a beleza luminosa da deusa ofuscava-lhe a visão. 

— Quem é você? — perguntou, afinal. 

Ela deu uma risada. 

— Ora essa, camponês, acho que não se interessou pela lição. Deve olhar para as plantas e não para mim. 

Ele corou ligeiramente. 

— Perdoe-me, moça, mas sua beleza é tão grande que atrai meus olhos e meu coração. Diga-me, quem é você? 

Ela não respondeu. Levantou-se e foi olhar o campo que se estendia até a encosta de um monte que se erguia no horizonte. 

— Esta terra é toda sua? — perguntou ela. 

— É de minha família — respondeu Iásion, sem conseguir desviar os olhos do rosto de Deméter. — Muitos camponeses, porém, cultivam nossas terras.

Ela abaixou-se, enterrou os dedos na terra e sentiu a vibração que dela emanava. Concentrou-se por instantes. 

— Olhe, rapaz, este solo precisa ser lavrado por três vezes seguidas, ou logo deixará de germinar. 

Iássion segurou suas mãos suaves e macias, apesar do contato com a terra. 

— Moça, agradeço seus ensinamentos. Vou providenciar imediatamente os homens necessários para que o solo seja arado três vezes seguidas, segundo suas intruções. Enquanto isso, peço que aceite nossa humilde hospedagem. Certamente terá mais a ensinar, quando a lavratura da terra estiver concluída. 

Deméter aceitou, agradecida. Seu corpo físico já estava cansado de tanto caminhar pelo mundo, ensinando aos homens as artes de lavoura. Banhou-se num rio que passava por perto, alimentou-se de grãos e frutos e adormeceu. 

Iásion, tomado de amores, deixou os camponeses arando a terra e ficou ao lado da deusa, velando seu sono. E viu quando ela, no meio da noite, abandonou seu corpo humano adormecido, flutuou por instantes no meio do aposento e partiu em direção ao Olimpo.

— Céus! — exclamou Iásion — É Deméter, a deusa da agricultura! E eu, insano, a perder-me de amores por uma deusa. — Curvou-se sobre o corpo adormecido da jovem — E ela aqui, tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe! — Tocou de leve o rosto macio e logo retirou a mão, assustado. — Mas que faço eu? Ouso tocar a face de uma deusa? Que os céus não me castiguem por tanto atrevimento! 

Afastou-se, sentou-se no chão, longe da cama, mergulhado na escuridão e ficou calado, deixando que a paixão crescesse em seu peito e inundasse seus sentidos.   

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Os camponeses chegaram para avisar que a lavratura terminara. Deméter abriu os olhos, sorriu e estendeu a mão para o rapaz que aguardava seu despertar. 

— Venha, Iásion, vamos ver o trabalho de seus homens. 

O rapaz não respondeu. Limitou-se a segui-la, docilmente. Os pés descalços de Deméter mergulharam na terra fofa e uma energia forte subiu por seu corpo. 

— É boa a vibração do solo. Irá germinar e dar bons frutos — Olhou para o rapaz que, em silêncio,parecia não se importar mais com suas terras. — Mas o que há com você, Iásion? 

Ele não queria responder, mas os olhos da deusa arrancaram as palavras de seus lábios trêmulos. 

— Eu ousei amá-la, Deméter. Que castigo haverá para tamanha audácia? 

Ela sorriu com ternura e fez com que ele a olhasse de frente. 

— Iásion, não pode haver castigo para o amor. É ele que anima a vida, que dá vitalidade aos campos, que faz germinar a semente. Sou deusa, sim, mas os deuses também amam e com uma intensidade talvez até desconhecida aos mortais. Olhe para mim, não deixe que seus olhos fujam, pois é lindo o brilho que o amor transmite pelo olhar. 

Iásion levantou o rosto lentamente e se deixou mergulhar no semblante tranqüilo de Deméter. Atraiu-a para si e beijou seus lábios úmidos. Deitaram-se e uniram-se sobre aquela terra lavrada três vezes. E nasceu Pluto, a Riqueza, que percorreu a Terra, espalhando a abundância em todos os lugares por onde passava. 

Daquele dia em diante, os camponeses passaram a amar suas esposas sobre a terra a ser cultivada, para estimular o crescimento rápido davegetação, transformando o ato do amor num ritual de fertilidade.   

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Do Olimpo, Zeus viu Deméter e Iásion deitados sobre a terra. Uma sombra velou seu rosto e o ciúme se entranhou em seu coração. 

Repreendeu Deméter, mas ela retrucou: 

— Não posso aceitar suas censuras, Zeus. Deu-me a missão de ensinar aos homens o cultivo da terra, mas isto não é tudo. O Amor faz nascer e germinar a semente. Não pode castigar Iásion por me amar. Olhe como a terra se tornou fértil! 

Mas Zeus não se conformou. O ciúme tomava conta de seu ser e, de longe, via a irmã correndo pela planície, reunindo os homens e ensinando a eles as várias maneiras de cuidar da terra. E a seu lado estava sempre Iásion. 

— Meu filho Iásion! — esbravejou Zeus. — Como pode ele tomar o amor de uma deusa? Ele, um simples mortal! As deusas pertencem aos deuses, pertencem a mim, o deus dos deuses! Não posso permitir semelhante ultraje! 

Até os deuses se espantaram com o ciúme violento de Zeus. Afrodite ainda tentou ajeitar as coisas.

— Por que está tão aborrecido, Zeus? Logo você, que já ensinou que o Amor é poderoso e necessário para o desenvolvimento interior do ser humano? 

— Pois que os homens se amem entre si e não toquem nas deusas! 

Gaia também intercedeu: 

— Veja como o amor deles fez germinar a terra arada. Seu ciúme é infundado, Zeus! 

— Não tenho ciúmes! — gritou ele — Apenas não quero que os homens possuam as deusas. 

Afrodite o olhou bem dentro dos olhos e perguntou: 

— Isto se estende a todos os homens ou somente a seu filho? Parece-me que não deseja ver um filho seu ocupando seu lugar no coração e no leito das deusas. 

Zeus saiu sem responder. As palavras de Afrodite tinham se encravado em sua mente como lâminas de aço. 

Um dia, tomado por incontrolada ira, arremeteu contra o rapaz um poderoso raio e o matou.   

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Desesperada e furiosa, Deméter se escondeu, disfarçada, entre os homens, para nunca mais ser vista pelo irmão. Em vão, Zeus a procurou e não a encontrou em lugar nenhum. À medida que a procurava, ia sentindo nascer em seu íntimo um incontido desejo pela irmã desaparecida. Queria tê-la para si, totalmente, integralmente. 

No Olimpo, os deuses perceberam o nervosismo que tirava o sossego de Zeus. 

— O que é que ele tem? Está tão estranho... Fica o tempo todo andando de um lado para outro, sozinho e gesticulando. 

O que havia com Zeus, que não se importava mais com os deuses e nem com o Olimpo? 

Foi Hélio quem, enfim, lhe disse sobre o paradeiro de Deméter. Sem pensar duas vezes, Zeus desceu do Olimpo e foi procurar a irmã. Encontrou-a adormecida à sombra de uma árvore. Pressentindo sua presença, a moça acordou, sobressaltada, e quis fugir. Zeus a segurou pelo braço. 

— Não fuja, Deméter. Por que se esconde de mim? 

Ela o olhou com desdém. 

— Não posso perdoar o que fez com Iásion. Julgava-o bom e justo, meu irmão, mas vejo que me enganei. 

Zeus não respondeu; apenas a puxou para si. Deméter tentou soltar o braço, mas não conseguiu. Zeus a abraçou com força e a obrigou a ceder à sua vontade. Depois voltou para o Olimpo, deixando Deméter caída na relva, humilhada e violentada.   

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Perséfone nasceu, linda e loura. Vendo-a correr pelos campos, brincando com as ninfas, Deméter pensava: 

— Às vezes custo a pensar que ela é filha da violência de Zeus. Tão linda, tão leve e tão pura que mais parece um silfo esvoaçando entre as flores. 

Ensinando aos homens as artes da lavoura, Deméter percorria o mundo, em companhia da filha. 

Perséfone cresceu, sempre junto da mãe. Um amor terno as unia com laços tão fortes, que já não era mais possível imaginá-las uma longe da outra.  Era como se fossem ambas partes de um único ser, um só organismo. E às vezes, contemplando a filha adormecida, Deméter pensava: 

— Filha querida, você é a minha alegria. Chego a agradecer o dia em que Zeus plantou em meu ventre a semente que a gerou. Que os céus a cubram de luz e que a conservem sempre junto a mim. 

E assim foi, até o dia em que Perséfone foi vista por Hades, o senhor dos infernos. 

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A Fúria de Deméter(Δαμάτηρ). Por emmanuel Mourão.






    

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