Capítulo 21 — A segunda geração dos Homens — Raça de Prata (ἀργύρεον γένος)

 

    

Capítulo 21 — A segunda geração dos Homens — Raça de Prata (ἀργύρεον γένος)

Olimpo, a Saga dos Deuses 

Raça de Prata (ἀργύρεον γένος). Por Emmanuel Mourão.




A barca pousou suavemente na terra encharcada. Balançou, inclinou-se de lado e ficou imóvel. Deucalião(Δευκαλίων) espiou pela escotilha. 

— Veja, Pirra(Πύρρα)! Estamos em terra firme! Vamos descer! Os animais já estão cansados de estar presos por tanto tempo. 


Com cuidado, arrancaram as trancas que seguravam a grande porta de troncos encaixados. Fora da barca, o espetáculo era desolador. As Queres(Κῆρες) se entretinham bebendo o sangue dos cadáveres e dilacerando suas carnes com as garras afiadas. As Harpias(Άρπυιες) enchiam o ar infecto com gritos estridentes e carregavam os corpos dilacerados para o vestíbulo dos infernos. O céu, ainda encoberto por nuvens cinzentas, deixava ver retalhos de um azul pálido. O solo era um imenso charco fétido e cheio de abutres que disputavam com as Queres a carne dos corpos já em decomposição. As árvores quebradas, cobertas por uma lama escura, pareciam fantasmas ameaçadores. As Erínias(Ερινύες) vagavam entre os destroços iluminando-os com suas tochas e estalando o chicote nas pilhas de madeira podre, que restaram daquilo que antes era a morada dos homens. 

Deucalião e Pirra entreolharam-se, assustados. 

— Não podemos sair da barca, Deucalião! Olhe o horror em que está o mundo lá fora! 

Tornaram a fechar a pesada porta. Os animais, agitados em suas jaulas, emitiam ruídos ensurdecedores. 

— E agora, Deucalião, o que faremos? 

Ele se sentou num dos pacotes de alimentos. 

— Vamos esperar mais alguns dias. As aves de rapina em breve não terão mais o que comer e irão embora. Quando o sol surgir, secará a lama do solo e então poderemos deixar a barca. 

Muitos dias se arrastaram, lentos e desolados, antes que o sol rompesse definitivamente a cortina de nuvens e evaporasse a umidade da terra. Vapores sutis elevaram-se da lama até que ela se transformou em barro seco. 

Ainda amedrontados, Deucalião e Pirra desceram a barca. Pirra sacudiu um arbusto, fazendo cair o resto das folhas ressequidas que ainda restavam. 

Olharam em volta, desolados. 

— Temos muito trabalho pela frente, Pirra. Vamos soltar os animais. 

Nisto, uma figura luminosa e veloz aproximou, vinda os céus. Trazia nas mãos um cajado de ouro e calçava sandálias aladas. Pousou no chão com suavidade e aproximou-se dos dois. 

— Sou Hermes(Ἑρμής), o mensageiro dos deuses! 

Deucalião esfregou os olhos, procurando afastar a alucinação. Pirra apenas sorriu.

— Vocês foram escolhidos para darem início a uma nova geração de humanos, que cuidarão do mundo físico e da prosperidade da natureza. Neste momento, Zeus(Ζεύς) lhes concederá a satisfação de um desejo. Façam seu pedido! 

Deucalião abriu a boca, gaguejou e enfim conseguiu falar: 

— Queremos companheiros! Estamos sós e precisaremos de muitas mãos para nos auxiliarem. 

Hermes apontou para ele o bastão de ouro. 

— Atire para trás os ossos de sua mãe! 

Dizendo isso, elevou-se aos ares e sumiu no infinito. 

— Mas o que disse ele? — perguntou Pirra, horrorizada. — Os ossos de sua mãe! Que absurdo! 

Deucalião suspirou fundo, pensou um pouco e disse: 

— Acho que compreendi o que Hermes quis dizer com aquilo. Vamos colher algumas pedras, que são os ossos da terra, nossa mãe universal. 

Conseguiram juntar uma boa quantidade de seixos e dividiram-nos em dois montes iguais. E de pé, olhando o sol que brilhava, exclamaram: 

— Zeus, senhor do Olimpo, deus dos deuses e dos homens, ouça nosso pedido. Precisamos de companheiros que nos auxiliem na árdua tarefa de repovoar o mundo. Atenda o nosso desejo, suplicamos! 

E jogaram as pedras para trás, por cima dos ombros.   

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Do Olimpo, os deuses assistiram às águas subirem e descerem, viram os monstros dilacerarem os cadáveres, contemplaram a desolação do solo destruído. E viram a barca pousada em meio às ruínas daquilo que fora o lindo mundo de Gaia(Γαῖα),. 

— Que pena, — disse Gaia, com os olhos enublados pela tristeza — acabaram-se as flores e as matas, não há mais o colorido festivo que enfeitava as planícies, nem os respingos de ouro na superfície translúcida dos lagos! 

Zeus abraçou-a com ternura. 

— Em breve a vida voltará a colorir a planície, Gaia. Reconheço que há necessidade de humanos habitando e cuidando da natureza. Deucalião e Pirra farão um bom trabalho, tenho certeza. São filhos de deuses, têm um espírito imortal e sensibilidade na alma. Já enviei Hermes a eles, para que saibam que contam com nosso auxílio. 

— Pobre casal — suspirou ela. — Enfrentarão tantas dificuldades, que temo que desistam. 

Hermes chegou, riscando o ar com o ouro das asas de suas sandálias.

— Zeus, cumpri a missão que me confiou. Deucalião e Pirra desejam apenas companheiros que os auxiliem em sua árdua missão. 

— Pedido muito justo, aliás — comentou Zeus. 

E novamente olhou para baixo. Viu Deucalião e Pirra catando os seixos e dividindo-os entre si. Ouviu suas súplicas e, quando os dois jogaram as pedras para trás, fez com a mão um gesto rápido e amplo, reunindo a mais sutil matéria astral. Em seguida, apontou para a carruagem de fogo de Hélios(Ἥλιος) e, com outro gesto, trouxe de lá uma língua de fogo e lançou tudo em direção à planície.   

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Deucalião e Pirra olharam para trás, logo que jogaram os seixos por cima dos ombros. Com espanto, viram que os que foram atirados por Deucalião, transformaram-se em homens, e os que Pirra atirou tornaram-se mulheres. Do alto aproximou-se uma nuvem sutil de matéria astral que se dividiu igualmente entre os homens e as mulheres, penetrando em seus organismos ainda inertes. Logo atrás, uma língua de fogo abriu-se em várias e sumiu dentro de seus corpos recém-criados. Eles se levantaram, lentamente, e olharam em volta, sem compreender direito o que estava acontecendo, piscando os olhos deslumbrados ante o mundo devastado para o qual acabavam de nascer.   

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Gaia sorriu e olhou para Zeus. 

— Que lindo! Com que simplicidade lhes deu a vida! 

— E terão também um corpo espiritual, feito de matéria astral, capaz de trabalhar em outros planos de consciência, capaz até mesmo de elevar-se até se perder na grande consciência do Universo. Era isto o que faltava à geração de Prometeus(Προμηθεύς). 

Thêmis(Θέμις), que a tudo assistia calada, aproximou-se e tocou o braço de Zeus. 

— Não se esqueça, Zeus, que uma séria ameaça paira sobre a cabeça desses novos seres humanos. Os males que Pandora(Πανδώρα) deixou fugir ainda existem num nível astral inferior e, alimentados pela maldade e pelos vícios dos homens que foram destruídos, estão mais fortes ainda e em breve estarão assediando esses pobres mortais que acabaram de nascer, procurando despertar neles as paixões e instintos criminosos dos quais se alimentam. Esses homens de agora terão que ser protegidos. 

— Thêmis — disse Zeus — espero que eles saibam despertar o Amor no coração. Se souberem Amar, estarão protegidos. Vamos acreditar nesta nova geração!



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A Segunda geração e o confronto sob tempestade Antiga. Por Emmanuel Mourão.




    

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