Capítulo 18 — O destruidor de homens, o Deus da Guerra — Ares(Ἄρης)
Olimpo, a Saga dos Deuses
Zeus(Ζεύς) e Hera(Ἥρα) foram brindados com a chegada de um filho homem ao qual deram o nome de Ares(Ἄρης).
Já possuíam Ilitia(Εἰλείθυια), a deusa dos partos difíceis, que auxiliara na vinda de Apolo(Ἀπόλλων), e Hebe, nascida recentemente, que personificava a juventude. No Olimpo, Hebe(Ἥβη) dançava com as Musas ao som da lira de Apolo(Ἀπόλλων),e servia o néctar aos deuses.
Ares nasceu nos espaços celestes e logo revelou-se corajoso, mas brutal. Naquela época, os homens entregavam-se a combates terrivelmente sangrentos e Ares, atraído pelos horrores das batalhas, lançava-se aos combates fazendo ruídos medonhos e emitindo gritos pavorosos, que faziam estremecer o Olimpo.
— Céus! — comentavam os deuses — Ele se deleita com o sangue e com a carnificina.
— Ele é terrível e odioso — dizia Zeus — , mas os homens merecem esse flagelo que se abateu sobre eles.
A brutalidade do seu instinto de destruição transformou Ares no mais temível dos deuses. Logo recebeu o auxílio dos filhos que Nix gerara, ante a situação caótica que envolvia os mortais: Éris, a Discórdia, esvoaçava entre os homens não permitindo que a compreensão encontrasse meios de se fazer ouvir; Limos, a Fome, enlouquecia-os e, na luta pelos alimentos que se tornavam escassos, os homens transformavam-se em verdadeiros animais; Ponos(Πόνος), a Fadiga, abatia-se sobre eles; Algos(Ἄλγος), a Dor, arrancava de seus lábios feridos gemidos contundentes que chegavam ao Olimpo como um coro de lamentos; Lete(Λήθη), o Esquecimento, anuviava suas mentes, fazendo com que esquecessem até mesmo da presença dos deuses que os observavam por entre as nuvens.
E Ares, na sua sede de destruição, espalhava a morte por onde passava e as Queres(Κῆρες) desciam sobre os mortos, sedentas, mergulhavam as garras em suas carnes e saciavam-se com o sangue das vítimas que depois eram lançadas ao Tártaro.
Athena(Ἀθάνα), a virgem guerreira, procurava detê-lo, mas nada conseguia segurar a mão violenta que se abatia sobre os humanos. Procurou Zeus, cheia de raiva.
— Pai, detenha esse monstro insaciável, ou ele irá transformar o mundo de Gaia(Γαῖα) em um imenso charco sangrento!
Mas Zeus sacudiu a cabeça.
— Não tenho o poder de aplacar a ira que nasceu junto com meu filho.
— Fale então com Hera(Ἥρα)! — insistiu Athena— Ela é mãe, saberá como fazer.
Ele sorriu tristemente.
— Ela é mãe, sim, mas apenas porque o gerou. Hera é altiva e dominadora, falta-lhe a ternura necessária para apagar a chama de ódio que brilha nos olhos de Ares.
E Ares se tornava cada vez mais violento e sanguinário.
Talvez tenha sido aquela força que atrai os apostos que fez com que Afrodite o procurasse quando, sujo de sangue, voltou ao Olimpo. Era uma noite sem lua e as tochas que iluminavam as amplas galerias do Olimpo estavam quase extintas. No chão de terra as passadas de Ares soaram, num ruído compassado e surdo, misturado com o tilintar do escudo batendo contra sua armadura.
Todos os deuses dormiam. Todos, menos Afrodite que, inquieta no leito vazio, levantou-se atraída pelos passos que se aproximavam e viu o deus da guerra que chegava de mais um combate. Ares parou ao vê-la surgir das sombras, linda e vestida apenas por finíssimos véus.
— Ainda acordada, deusa? — perguntou, procurando dar à voz uma amabilidade que não conhecia.
A luz trêmula das tochas mostrou um sorriso fugidio no rosto de Afrodite.
— Hipno, o Sono, filho de Nix, ainda não veio me visitar. E você, Ares, há quantas noites não repousa? Parece exausto!
Ele olhou-a, desconcertado. Pela primeira vez, alguém se preocupava com ele.
— Ora, gaguejou ele — como posso saber? Tenho lutado muito e nem reparo se é dia ou se é noite.
O olhar profundo da moça pousou no rosto bonito mas cansado do rapaz.
— Venha comigo — falou, puxando-o pela fria manga de metal que cobria seu braço forte. — Você está imundo e faminto. Vamos cuidar disto. Precisa se tratar melhor.
Ele a seguiu como uma criança obediente. No final da galeria, uma fonte despejava sua água cristalina numa grande bacia natural e escoava lentamente através das pedras, indo descer pela encosta do monte.
— Tire esta armadura suja e amassada. Como pode andar com todo este peso sobre seu corpo?
Ele obedeceu, desfazendo-se com relativa facilidade dos metais que o envolviam. Seu corpo musculoso não tinha nem um arranhão. A pele muito clara do rosto liso e jovem tornava-o parecido com um menino, mas os cabelos anelados e curtos repousavam sobre uma testa preocupada.
— Vamos, — disse — entre na água e lave-se decentemente.
E, com suas mãos pequenas e delicadas, ajudou-o a limpar do corpo a sujeira da guerra e o contato dos seus dedos macios fez com que relaxasse um pouco.
— Agora, vamos aos meus aposentos. Tenho uma boa manta que poderá usar para secar-se.
As gotas caíam do corpo forte do deus e sumiam, tragada pela terra do chão. Diante da entrada do quarto de Afrodite ele parou, constrangido.
— Que dirá Hefesto, seu marido? Com certeza, dorme.
Ela sacudiu a cabeça, numa calada negativa e com um convite no olhar.
— Ele está em sua forja, na cratera do vulcão. Costuma ficar lá durante muito tempo, trabalhando sem cessar.
Ares entrou no aposento pouco iluminado.
— Como pode ele afastar-se de tão bela esposa? — comentou, enquanto esfregava no corpo a manta macia.
Ela não respondeu. Apenas sorriu e aproximou-se mais, com o olhar brilhante de desejo. Segurou uma ponta da manta e friccionou-lhe as costas.
— Ele me quis por esposa, mais por capricho do que por amor.
Ares segurou com as mãos fortes o rosto pequeno e lindo da deusa. De repente, o clamor das batalhas calou-se em sua mente e o cheiro de sangue foi substituído pelo doce aroma dos cabelos de Afrodite. O amor foi chegando devagar e ocupando em seu coração o lugar do prazer dos combates. Nos braços dela, esqueceu-se da violência e das guerras e entregou-se totalmente à deusa do amor.
Daquela noite em diante, durante as ausências de Hefesto, Ares passou a se encontrar com Afrodite. Com medo de serem vistos por Hélio, o Sol, Ares chamou um sentinela, um rapaz chamado Alectríon, e determinou que guardasse a porta dos aposenos de Afrodite e que os avisasse logo que a carruagem de fogo apontasse no horizonte.
— Assim estaremos seguros — disse Ares. — Hélio é a luz que tudo vê e tudo revela. Não podemos nos arriscar.
E assim, enquanto Hefesto trabalhava em sua forja, as guerras perdiam seu calor impetuoso e o amor substituía o prazer das conquistas sangrentas no coração do deus da guerra.
...
Alectríon estava cansado de tantas noites em claro. Durante o dia, mal conseguia repousar alguns minutos, pois seu pai, que não sabia de sua tarefa noturna, não o deixava atrasar seus serviços.
...
— E o que dizem os deuses? — perguntou Ares, entre um beijo e outro.
— Eles estão surpresos com sua ausência das guerras. E, como não sabem o motivo de seu aparente descaso pelas lutas, acham que as batalhas não o atraem tanto como antes.
Ares deu uma risada.
— E que melhor batalha pode haver do que esta que travamos, todas as noites na perfumada arena de seu leito?
Ela mergulhou os dedos em seus cabelos anelados e fechou os olhos, sentindo o desejo de Ares crescer novamente e procurar abrigo em seu corpo.
...
Alectríon não conseguiu mais afastar o sono e sua cabeça pesou sobre o peito. Os dedos rosados de Aurora abriram as pesadas cortinas da noite e Hélio saiu em sua carruagem de fogo. O primeiro raio de sol iluminou o Olimpo, entrou pela janela dos aposentos de Afrodite e viu os amantes distraídos no ato do amor.
Hefesto foi avisado, pois a luz inevitavelmente revela tudo o que se esconde nas sombras. Rapidamente, o divino ourives teceu uma firme tela de ouro, muito fina, quase invisível, tomou por empréstimo as sandálias aladas de Hermes e chegou ao Olimpo. Passou por Alectríon que dormia pesadamente e entrou em seu quarto. No leito que raramente partilhava com Afrodite, viu os corpos unidos e ouviu os suspiros profundos que o êxtase iminente arrancava dos lábios que se uniam num beijo final. Lançou sua rede mágica que se aderiu aos corpos dos amantes. Assustados, tentaram se afastar um do outro, mas a forte aderência da teia de ouro não permitiu que modificassem a posição em que se encontravam.
Todos os deuses foram chamados para testemunharem o adultério, mas a situação era mais cômica do que grave. E eles se divertiram tanto, que suas gargalhadas foram ouvidas muito além do Olimpo.
Cheia de vergonha, Afrodite fugiu para Chipre e Ares foi se ocultar na Trácia, mergulhando novamente em suas sangrentas batalhas. Desta união nasceram Fobos, o Medo; Deimos, o Pavor; e Harmonia. Fobos e Deimos uniram-se logo ao pai em suas lutas mortais e trouxeram consigo o auxílio de Enio, a Devastadora. Harmonia refugiou-se no Olimpo.
Alectríon, por seu descuido, foi metamorfoseado em galo e condenado a cantar, todas as madrugadas, avisando a todos o nascimento do Sol.
...
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