Capítulo 0 — Cosmogonia - Gênesis(Γένεσις)
Olimpo, a Saga dos Deuses
Gênesis (Γένεσις). Por Emmanuel Mourão
No começo, só existia o Caos (Χάος), um vazio primordial, um abismo profundo e imenso. Não havia luz, e as trevas também não existiam. Era o Nada, o vazio total. Nele, o Grande Espírito existia sem consciência da sua própria existência. Era uma matéria eterna, sem forma e rudimentar, mas cheia de uma energia capaz de gerar toda a existência. Não havia nem luz nem trevas. Não havia o Tempo, não havia o Amor, não havia nada.
Mas a não-consciência do Grande Espírito não impedia sua existência, mergulhada em sono eterno — sono que pulsava em cadências de expansão e recolhimento. Esse movimento milenar, chamado Demiurgo, começou a organizar o Caos em ondas de energia. E passou a existir a consciência dessa energia.
O Caos vivia sozinho em um espaço completamente vazio, e nada existia a seu redor. Não havia nem o Sol, nem a Luz, nem o Céu, nem a Terra. A única coisa que existia em algum ponto do universo era uma escuridão sem forma.
No Caos, no Nada, o Grande Espírito conheceu sua própria existência. E sentiu o impulso de projetar-se pelo espaço infinito, de abrir suas imensas asas e limitar nelas o universo então vazio.
E começou a vibrar. À medida que se expandia através do Caos, ia deixando impressa a possibilidade da existência. A consciência da existência fez vibrar o Caos com intenção; formou-se uma energia que foi se reunindo em negros agrupamentos.
E assim foi que, no universo antes vazio, passaram a existir os irmãos sombrios, duas divindades primordiais que emergiram do Caos e simbolizavam, de diferentes formas, as trevas primitivas. Nix (Νύξ), a noite, representava a escuridão situada logo acima de Gaia (Γαῖα), envolvendo-a com seu manto negro. Junto com Nix surgiu seu irmão Érebos (Ἔρεβος), a escuridão profunda que se formou no momento da criação e que mais tarde ficou localizada no mundo subterrâneo. E os dois irmãos, unidos pela própria escuridão, mas tão opostos, coexistiram no seio do Caos.
Inicialmente, Nix uniu-se a Érebos e, tensionados em si mesmos, explodiram em luz. Depois dessa explosão, numa lentidão que só acontece fora do tempo, nasceram Éter (Αἰθήρ) e Hemera (Ἡμέρα), as primeiras entidades luminosas de um mundo até então totalmente escuro. Éter era a luminosidade pura e brilhante da região superior da atmosfera, próxima à abóbada celeste; Hemera personificava o dia, isto é, a luz que brilha logo acima da terra.
Com isso, Érebos não tinha mais espaço para viver entre as divindades aladas do cosmos. Então mergulhou para sempre nas profundezas, penetrando nas entranhas da Terra, transformando-se na sombra interior do Orco. Tornou-se parte dele, onde seriam acolhidas as criancinhas mortas prematuramente, as vítimas de falso julgamento e os suicidas por motivo de paixão. Antes de chegarem a Érebos, encontrariam as almas perdidas, que não haveriam de ser sepultadas.
Quanto a Nix, solta no Caos agora cheio de luz, começou a encurvar-se até transformar-se numa esfera, que passou a vibrar, procurando expandir-se ainda mais. Estavam criadas a luz e as trevas. Luz e trevas eram a consciência dualizada: o mais e o menos, o positivo e o negativo.
Nix pulsava e se expandia, mergulhada na luz. Teve a consciência de que a luz era o oposto que a complementava. E, na tentativa de expansão, na tentativa de tornar-se una com o éter luminoso, a esfera em que havia se transformado partiu-se ao meio. Era o Ovo Primordial que se partia graças à ação da luz.
Do esforço único dessa separação nasceu Eros (Ἔρως), o amor, “o mais belo dentre os deuses imortais”, representando o impulso amoroso que compeliu as primeiras divindades a se unirem para gerar descendência. Amor energia, amor ígneo que ocupou o Nada, impregnou o universo, despertando a semente da Vida. Deu-lhe movimento.
Além de Eros, o Caos engendrou o pavoroso Tártaro (Τάρταρος), uma espécie de abismo distante, localizado bem abaixo de Gaia. Região de trevas profundas e eternas, mais escuras do que a noite, onde os deuses encarcerariam seus maiores inimigos.
Com isso, o Amor uniu, por fim, a luz e as trevas. As duas metades de Nix converteram-se: uma na abóbada celeste — Urano (Οὐρανός) — e a outra na Terra — Gaia. Urano é a personificação do céu estrelado; emergiu de Gaia e imediatamente a recobriu em toda a sua extensão, tornando-se seu consorte. Gaia, a “terra-mãe”, a mãe dos deuses e dos homens, personificava a inesgotável capacidade geradora da terra.
Foi a primeira entidade divina a emergir do Caos primitivo, e dela provêm as linhagens divinas mais prolíficas, os piores monstros e também todos os seres humanos. Gaia continha em si as densas partículas do mundo físico e as mais sutis do mundo astral e, quanto mais consciência tinha de si mesma, mais promovia as transformações iniciais de sua existência física.
O Orco, por sua vez, tornou-se demasiadamente sombrio. Ficava nas profundezas da Terra, enquanto o Caos imperava no ponto mais alto do espaço. Uma bigorna, do Caos ao Orco, levaria nove dias e nove noites para cair, e só no décimo dia atingiria o chão. Todo ser que atingisse o Orco, sugado pela Terra e desnorteado por fortíssimos redemoinhos, mesmo no espaço de um ano, não conseguiria atingir os pontos extremos daquele mundo subterrâneo nem alcançar a saída, a menos que fosse guiado por algum deus ou demônio do lugar. Era no coração desse mundo pavoroso, do qual até os deuses primordiais tinham medo, que vivia, escondida atrás de nuvens negras, a Corte de Nix, a Noite.
No mundo astral, Gaia começou a modelar um corpo para si mesma, um corpo que pudesse caminhar pela luz, mover-se agilmente e observar, em suas viagens, a formação da matéria no mundo físico — a Terra primordial, que começava a se formar, a se comprimir ou a se afastar.
Um dia, Gaia olhou para cima e viu Urano, o firmamento, que se expandia pela eternidade. E viu que Urano tinha para si um corpo astral, leve, que se destacava de toda aquela energia etérea e flutuava na escuridão.
Urano e Gaia, em seus corpos sutis que vagavam pelos mundos também sutis, aproximaram-se e amaram-se. E Gaia, mulher, encheu-se de doçura e submissão e aconchegou-se nos braços de Urano, que a fecundou.
No mundo físico, a Terra tornou-se a virgem pronta a ser penetrada por uma chuva que ainda não tinha acontecido e a ser rasgada por um arado que um dia seria criado por algum ser humano que ainda não existia, nem mesmo nos pensamentos do Grande Espírito.
No mundo astral, Gaia tornou-se mãe. Desse parto magnífico nasceram as forças da natureza que também iriam se manifestar no mundo físico. Eram os Titãs (Τιτάνες), em número de seis, e as Titânides (Τιτανίδες), que também foram seis.
Aos Titãs, Gaia chamou de Oceano (Ωκεανός), Crios (Κρείος), Céos (Κοῖος), Hipérion (Ὑπερίων), Jápeto (Ἰαπετός) e Cronos (Χρόνος). As Titânides chamaram-se Téia (Θεία), Reia (Ῥέα), Têmis (Θέμις), Mnemósine (Μνημοσύνη), Febe (Φοίβη) e Tétis (Τηθύς).
Oceano era o espírito da água. Ao nascer, projetou-se como uma serpente imensa pelos mundos sutis, criando forças e concentrando em si todas as potestades marítimas. Então lançou-se no mundo físico, que se encheu, pela primeira vez, de uma umidade que crescia, impregnava todos os recantos mais íntimos do ser material, aumentava, crescia e se transformava nas águas que transbordaram por todo o mundo físico.
Era o poder masculino que logo procurou unir-se a um oposto feminino para criar. Encontrou sua irmã Tétis, o espírito feminino das águas, que, ao toque de Oceano, tornou-se mãe dos rios, das fontes, das nascentes e dos riachos, e deles começou a cuidar com veneração.
Hipérion era o espírito do fogo, o fogo astral. Estendeu pelos mundos sutis seus longos braços ígneos e encontrou sua irmã Téia, a divina. Dessa união nasceram Hélio (Ἥλιος), o sol, Selene (Σελήνη), a lua, e Eos (Ἠώς), a Aurora. Hélio tomou uma forma astral de grande beleza, com a cabeça cercada por raios, e percorria os céus num carro de fogo, puxado por quatro cavalos. Pela manhã, erguia-se no firmamento e cruzava os céus; à noite, curvava-se no horizonte, para que seus cavalos pudessem beber da água que banhava a Terra.
Nesse momento, Selene tomava seu lugar nos céus, num carro de prata, e atirava beijos luminosos que cintilavam na escuridão. Eos, a aurora, a deusa dos dedos cor-de-rosa, tomou para si a função de abrir as portas dos céus ao carro de Hélio, descerrando as pálpebras do dia e levando em sua urna o orvalho matinal que espargia pelos quatro cantos do mundo.
Crios era o frio: eram as noites sem dia em que Hélio, demorando-se no leito de suas esposas, não atrelava seus cavalos de fogo e deixava que descansassem nas estrebarias ocultas pela noite.
Céos, em sua bela forma astral de azul translúcido, debruçou-se sobre o mundo, tornando-se seu eterno observador. Uniu-se a Febe, a brilhante, e ambos movimentavam as etéreas camadas de ar que se formavam acima de Gaia, a Terra.
Mnemósine expandiu-se pelo espaço infinito e transformou-se na memória do universo, no plasma onde foram gravados todos os acontecimentos passados e onde seria impresso tudo aquilo que ainda estava por acontecer, tanto no mundo dos deuses quanto no mundo dos seres humanos, cuja semente primeira ainda nem mesmo existia.






